Estudantes nos EUA repensam escolhas acadêmicas por medo de substituição por IA

O mercado de trabalho para recém-formados sofre com o avanço da tecnologia e jovens universitários já buscam áreas menos expostas ao risco de substituição por algoritmos

Victória Anhesini

(Foto: Freepik)
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O mercado de trabalho para recém-formados nos Estados Unidos tem demonstrado um enfraquecimento mais expressivo do que para o trabalhador médio desde 2024. Os dados analisados pelo Goldman Sachs e divulgados nesta sexta-feira (19) mostra que o cenário atual alimenta preocupações de que a IA (Inteligência Artificial) esteja começando a ocupar postos de nível inicial, especialmente em funções de escritório, o que poderia “dificultar a transição dos jovens para a força de trabalho”.

“O impacto final da IA sobre as contratações de entrada também dependerá da rapidez com que novos participantes da força de trabalho e trabalhadores desligados conseguem se adaptar a um mercado em transformação”, diz o documento ao abordar o desafio da requalificação profissional diante da disrupção tecnológica.

Os analistas do Goldman explicaram que para medir essa exposição, foram utilizados dados da ACS (Pesquisa da Comunidade Americana) para analisar a distribuição ocupacional de formados em mais de 180 cursos. 

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O método consistiu em identificar as funções ocupadas por profissionais de 21 a 30 anos que atuaram em tempo integral entre 2022 e 2024. 

“Para cada curso, multiplicamos o indicador de risco de substituição de cada ocupação por sua participação entre os recém-formados e somamos os resultados para construir uma medida, no nível dos cursos, do risco de substituição relacionado à IA enfrentado pelos graduados ao ingressarem no mercado de trabalho”, afirmam os analistas. 

Cursos

O estudo aponta desigualdades claras entre diferentes áreas acadêmicas, pontuando quais perfis profissionais estão mais suscetíveis à substituição pela IA. Enquanto ciência da computação e estatística estão entre as graduações com maior perigo, os cursos de saúde e educação apresentam os menores índices de exposição. 

“Graduações que direcionam para ocupações em serviços profissionais e empresariais também apresentam risco mais alto de substituição, enquanto cursos de engenharia exibem exposição relativamente menor à IA”, diz o relatório.

20 cursos mais expostos à IA

  1. Ciências da Gestão e Métodos Quantitativos
  2. Ciência da Computação
  3. Engenharia da Computação
  4. Estatística e Ciências da Decisão
  5. Programação de Computadores
  6. Ciência da Computação e Informação (Geral)
  7. Administração e Gestão de TIC
  8. Ciência de Dados
  9. Redes de Computadores e Telecomunicações
  10. Matemática
  11. Recursos Humanos e Serviços de Gestão
  12. Finanças e Serviços de Gestão Financeira
  13. Estudos Jurídicos
  14. Sistemas de Informação de Gestão e Serviços
  15. Contabilidade e Serviços Relacionados
  16. Economia Empresarial/Gerencial
  17. Economia
  18. Física
  19. Estudos de Escrita
  20. Ciência Política e Governo

20 cursos menos expostos à IA:

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  1. Farmácia
  2. Enfermagem
  3. Educação Especial
  4. Formação de Professores
  5. Programas Preparatórios de Saúde/Medicina
  6. Farmacologia e Toxicologia
  7. Reabilitação e Profissões Terapêuticas
  8. Engenharia Civil
  9. Engenharia de Materiais
  10. Fisiologia, Patologia e Ciências Relacionadas
  11. Ciências Arquitetônicas
  12. Serviço Social
  13. Engenharia Arquitetônica
  14. Biologia
  15. Engenharia Química
  16. Ciências Animais
  17. Bioquímica, Biofísica e Biologia Molecular
  18. Serviços de Saúde (Geral)
  19. Engenharia Industrial
  20. Neurobiologia e Neurociências

Mudanças nas matrículas

O Goldman Sachs se baseou na análise dos dados do Enrollment Trends (matrículas em tendência), do relatório do National Student Clearinghouse. Os números mostram que o comportamento dos estudantes mudou significativamente no ano acadêmico de 2025-26. 

Segundo o texto do banco, pela primeira vez, houve uma relação estatisticamente significativa entre o risco de automação e a escolha dos cursos, confirmando que os alunos estão lendo o cenário de forma prática e reagindo. 

Enquanto áreas como ciência da computação e programação de computadores registraram quedas superiores a 10% nas matrículas, cursos ligados à saúde e engenharia tiveram um aumento médio de 3% no mesmo período. 

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“A queda nas matrículas concentrou-se em cursos que direcionam para ocupações caracterizadas simultaneamente por maior risco de substituição por IA e crescimento recente mais fraco do emprego”, afirmam os analistas.

O Goldman ressalta que essa resposta do mercado acadêmico é condizente com pesquisas anteriores que indicam que estudantes migram para áreas onde a demanda por trabalho e os salários estão em crescimento. 

Os analistas explicam que antes o ajuste demorava anos para acontecer, pois dependia da observação dos resultados obtidos por colegas que já haviam concluído a graduação e da dificuldade de mudar a escolha feita no início do curso universitário, decisão que muitas vezes é considerada irreversível. 

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Contudo, o cenário atual mostra um movimento atípico e muito mais veloz do que o observado historicamente. “As preocupações com o impacto da IA nas perspectivas de carreira se tornaram um fator cada vez mais importante na escolha dos cursos universitários”, conclui o relatório, reforçando que essa maior visibilidade da disrupção tecnológica acelerou substancialmente a tomada de decisão acadêmica.

Além disso, o documento aponta que, antes do ano acadêmico de 2024-25, não existia uma correlação estatisticamente relevante entre as mudanças nas matrículas e o risco de substituição por inteligência artificial. 

A mudança de comportamento registrada nos dados de 2025-26 sinaliza que o fator de risco tornou-se um parâmetro determinante na decisão de ingresso dos novos universitários. 

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O Goldman Sachs destaca que essa flexibilidade é uma vantagem comparativa dos trabalhadores mais jovens frente aos mais velhos, que podem ter mais dificuldades em transitar entre setores. 

“Essas tendências iniciais sugerem que trabalhadores jovens podem se adaptar de forma mais flexível do que trabalhadores mais velhos à disrupção provocada pela IA”, afirmam os analistas ao observarem a capacidade dos estudantes de redirecionar suas competências.