Envelhecimento da população: o mercado de trabalho está preparado?

Pesquisador da Unicamp diz que, hoje, o que sobra é mão de obra. Mas, no futuro, mercado precisa se reestruturar

SÃO PAULO – Desde 2000, a população brasileira cresce a uma taxa de 1,17% ao ano. Segundo os últimos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em agosto do ano passado, havia no País mais de 190 milhões de pessoas. E, nessa pirâmide populacional, os mais novos estão perdendo cada vez mais espaço para os mais velhos. Isso significa dizer que, a cada ano que passa, o Brasil vai ficando cada vez mais velho. Nesse cenário, como fica o mercado de trabalho?

Para o sociólogo Ricardo Ojima, pesquisador do Núcleo de Estudos de População da Unicamp, de São Paulo, a tendência é que o mercado de trabalho altere os seus processos, a fim de absorver os mais idosos, que nos próximos anos vão representar boa parte da população. “Por enquanto, o que vemos é que a maior parte da população hoje é economicamente ativa”.

Os dados do IBGE mostram que a representatividade da população com idade de até 25 anos vem caindo, devido às quedas nas taxas de natalidade. Enquanto isso, a participação relativa da população com 65 anos ou mais, que era de 5,9% em 2000, subiu para 7,4% em 2010, principalmente por conta das quedas nas taxas de mortalidade. “O envelhecimento absoluto da população está em processo ainda”, ressalta o pesquisador.

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Reestruturação
Diante de um processo semelhante ao que ocorreu e ocorre em muitos países europeus, o mercado de trabalho deve começar a se reestruturar. E não apenas para quem estará no topo da pirâmide etária.

Aqueles que estarão nos próximos anos na idade adulta, economicamente ativa, também sentirão mudanças no mercado, devido ao envelhecimento da população. “Haverá uma reestruturação do mercado, com a criação de novas demandas em áreas médicas”, acredita Ojima.

Para o pesquisador, se comparado com o histórico de países que já enfrentaram problemas com o envelhecimento da população, o Brasil poderá enfrentar a falta de profissionais para trabalhos que exigem menos qualificação.

Ojima explica que, se o grau de desenvolvimento do País permanecer elevado e se o processo de qualificação se mantiver elevado, é possível que o Brasil passe a importar profissionais. “Hoje, temos um processo maior do que era antes e, dependendo da estrutura da indústria, pode haver a transferência de mão de obra”, afirma.

Com os países europeus em crise, o Brasil começa a entrar na rota dos profissionais estrangeiros. Os dados do Ministério do Trabalho mostram isso, ao apontar para um forte salto no número de vistos de trabalho concedidos pelo Brasil a estrangeiros no ano passado. De 2009 para 2010, o crescimento foi de 30,5%. Ao todo, foram concedidos 56.006 vistos de autorizações de trabalho a estrangeiros. Na comparação com 2006, o crescimento foi de mais de 120%. Desse total, 7.550 profissionais vieram dos Estados Unidos.

O pesquisador ressalta, porém, que olhar para experiências de outros países não significa que, necessariamente, o Brasil tenha a mesma experiência. “Tudo vai depender de fatores econômicos”, diz.

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Trabalho contínuo
Ainda que o país esteja um pouco longe de sentir de fato o envelhecimento da população, problemas mais estruturais levam profissionais mais velhos a continuarem ativos, mesmo depois da aposentadoria. “Hoje, a gente já encontra pessoas que se aposentam e continuam trabalhando. O sistema previdenciário terá de passar por reformas”, acredita Ojima.

O pesquisador afirma que aumentar a idade mínima dos trabalhadores é uma das alternativas para equilibrar a Previdência Social. O fato, na avaliação do sociólogo, é que as políticas públicas não terão tempo para se adaptar às mudanças na pirâmide etária, mas o mercado talvez possa.