Empregados mais caros são substituídos por mais baratos, avalia economista

Segundo pesquisa do Caged, de 1,5 milhão de empregos formados este ano, 1,4 milhão pagava até 1,5 salário-mínimo

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SÃO PAULO – Quase 95% dos trabalhadores que conseguiram um registro em carteira este ano encontraram uma ocupação que pagasse até um salário mínimo e meio (R$ 525). Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), foi um total de 1,5 milhão de novas vagas, das quais, 1,4 milhão tinha essa característica.

“O mercado de trabalho continua dinâmico, mas ele está concentrado no baixo valor”, explicou Márcio Pochmann, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade de Campinas (Unicamp).

Substituição

Na avaliação do economista, o quadro mostra que empresas estão substituindo a ocupação onerosa, de três salários-mínimos, por mais funcionários. Em outras palavras, em vez de pagar R$ 1050 por um empregado, utiliza-se o mesmo tanto para arcar com duas pessoas, por R$ 525 cada.

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“Possivelmente é isso o que está acontecendo com base nesses dados de entrada e saída”, justificou Pochmann.

Sem troca de funcionários

Paula Montagner, coordenadora do Observatório do Mercado de Trabalho, ligado ao Ministério do Trabalho e Emprego, é contrária à afirmação de Pochmann. De acordo com ela, a situação do emprego no Brasil não pode ser avaliada somente com base nos dados do Caged.

Segundo a coordenadora, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) possui um panorama mais completo porque abrange, além do setor formal, os serviços públicos. “As pessoas estão confundindo salário reduzido com salário baixo. Nos dados completos de estrutura, não tem queda nas proporções anunciadas, não tem redução numérica do numero de vagas com mais salário”, afirmou.

Na opinião de Paula, a contratação de mais pessoas com salários reduzidos não remete à troca de empregados mais caros por outros mais baratos, mas sim a um processo de crescimento profissional natural.

“Normalmente, os cargos que ganham mais são os de confiança. Quando uma pessoa nessa situação é demitida, dificilmente contratam alguém de fora para substituí-lo. Em vez disso, promovem alguém que já estava na empresa. Não fica um abalo na estrutura”, explicou.

Além disso, explicou a coordenadora, deve-se levar em consideração que os cargos com ganho mensal de até três salários-mínimos (R$ 1.050) são os de maior rotatividade. Portanto, é “natural” que contratações do tipo sejam maiores.

Motivos

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Já na opinião de Pochmann, os motivos para contratações de valores mais baixos são diferentes. Segundo ele, o cenário é resultado de dois pontos:

  • Economia em crise: Com a economia em crise, como classificou, é difícil ter aumento de emprego e renda ao mesmo tempo. A expansão do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro não permite os dois. Então, atualmente, são geradas mais vagas com pagamento mais baixo;
  • Modelo econômico: O modelo econômico brasileiro é de exportação de produtos com baixo valor agregado, como semi-faturados e manufaturados. E são exatamente as vendas externas desses setores que mais estão expandindo, o que resulta em uma maior necessidade de contratação. “Essas vagas são marcadas por terem salários mais baixos”, explicou.

Fatores positivo x negativos

Na avaliação de Pochmann, esse resultado é positivo e negativo para a sociedade ao mesmo tempo. O lado bom é o da melhora no nível de emprego formal. “Apesar do pagamento ser baixo, o funcionário está protegido pelas leis trabalhistas. É com certeza melhor do que desemprego e informalidade”, opinou.

Contudo, na contramão, está o perfil dos brasileiros. “Que tipo de sociedade estamos criando?”, questionou. “A participação de renda está sendo reduzida”, alertou.

Fim da classe média

O docente lembrou, ainda, que nas duas últimas décadas houve uma considerável queda na classe média, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. “A disparidade de renda está aumentando e os intermediários desaparecendo”, afirmou.

Segundo Paula, isso ocorre porque, desde os anos 90, com a modernização da economia e com a informatização de diversos serviços, os profissionais que representavam essa parcela da sociedade acabaram sendo substituídos por sistemas mais avançados.

“Por exemplo, uma secretária que apenas redigia cartas. Hoje o executivo manda um e-mail rapidamente, não precisa de alguém para fazer isso por ele”, explicou.

Distribuição de renda

Apenas para se ter uma idéia sobre a atual situação da distribuição de renda, confira a a pirâmide econômica brasileira deste ano, de acordo com a Rais. A relação é de salário pago e porcentagem do contingente de trabalhadores.

  • até 1.050: 64,3%
  • de R$ 1.051 a R$ 1.750: 15,2%
  • de R$ 1.751 a R$ 3.500: 10,9%
  • de R$ 3.500 a R$ 7 mil: 4,4%
  • de R$ 7. 001 a R$ 11.550: 1,3%
  • acima de R$ 11.551: 0,7%