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A era do "política não se discute" acabou - e você precisa aprender a lidar com isso

Para especialista, ainda precisamos evoluir muito, sobretudo quando se trata da qualidade da discussão em termos de conteúdo e diálogo

debate presidencial band 2018
( Kelly Fuzaro_Band _ Flickr)

SÃO PAULO - Durante muito tempo vivemos na era do "Política é que nem futebol e religião: não se discute". No entanto, estudiosos acreditam que esse período está acabando. Com o cenário de crise econômica que o Brasil vem enfrentando, as pessoas já entendem que a discussão sobre política é muito relevante. O problema é que ainda falta tolerância. 

É o que diz o cientista político Humberto Dantas, que acredita que as pessoas estão cada vez menos tolerantes. Pior ainda, discutem política em ambientes em que os níveis de tolerância são menores que a média: as redes sociais. Ele diz que, na internet, a distância permite que as pessoas discutam de forma mais agressiva sem se preocupar com as consequências. 

Além disso, ele diz que falta conhecimento sobre o que é política. "Não aprendemos na escola, não temos nenhum contato com conteúdo político na vida. Estamos colhendo o que plantamos", afirma.

Hoje se discute mais, porém ainda precisamos evoluir muito sobretudo quando se trata da qualidade da discussão em termos de conteúdo e diálogo, segundo Dantas. 

Para Vitor Oliveira, cientista político e diretor da Pulso Público, na prática hoje falamos muito sobre política, mais do que antes, mas não discutimos. "A política não pode ser tabu, e por outro lado não pode ser um cabo de guerra", diz. Isso porque as discussões estão vazias, todos querem apresentar seu argumento sem ouvir ou considerar o que o outro está falando. "Precisamos discutir com acordo de procedimentos. Isso é democracia, entender e concordar que podemos discordar", diz.

Segundo ele, historicamente, faz muito pouco tempo que conseguimos revezar o poder sem matar a pessoa que ocupava o cargo anteriormente. "Não é uma coisa trivial. Ninguém ignora mais política, todo mundo sabe que é relevante. Ninguém negligência a política, mas a melhor forma de discutir para evoluir ainda não encontramos", complementa Oliveira.   

Segundo dados da Justiça Eleitoral, o Brasil tem quase 150 milhões de eleitores. Mas, enquanto somos, numericamente, muitos votantes, especialistas acreditam que falta qualidade no debate eleitoral. 

Oliveira acredita que essa quantidade de pessoas votando já é um avanço para a democracia. Ainda assim, "ninguém tem a capacidade que julga ter para escolher um candidato. Não temos condição cognitiva de acompanhar todos os processos que acontecem na política. Usamos atalhos informacionais para tomar decisões", explica. 

Para Dantas, o país vive o mesmo desafio em relação à democracia que enfrentou com a educação. "Até os anos 90 dizíamos que tinha muita criança fora da escola, e por isso criamos lei de responsabilidade fiscal, criamos políticas públicas para colocar mais pessoas dentro do ensino e uma série de outras coisas. Atingimos percentuais expressivos - mas a discussão hoje é que falta qualidade dentro das escolas", diz. É a mesma coisa com a democracia representativa. "Temos muita gente inscrita na justiça eleitoral, mas poucos votam com consciência. Falta qualidade para que o processo seja bem feito", explica.

A questão é que todo mundo acha que seu voto foi bem aplicado e o dos outros, não. "Devemos questionar então: será que não é democrático que caminhemos para o fracasso se assim for decidido nas eleições? É de todo ruim? Talvez aprendêssemos mais", diz Oliveira. 

Por isso, diz Dantas, a educação politica de longo prazo é a melhor solução. "Todo mundo fala e precisamos realmente fazer: dar educação, desmascarar as lendas, como 'política não se discute', para que as pessoas se envolvam mais. É um processo que vem com o tempo - criar cidadãos mais participativos", afirma. Para Oliveira, a educação política fornece um instrumento possível para votar melhor, mas não existe uma fórmula melhor do que chamar todo mundo para votar. 

Educação política para os líderes 

Logicamente, a política é importante para qualquer cidadão. Para líderes de empresas, então, é fundamental. Isto porque, além de representarem mais de um cidadão, essas pessoas representam interesses econômicos e suas respectivas corporações. "A postura e o comportamento político desses sujeitos tendem a ser misturadas intencional ou equivocadamente com o papel que as empresas têm na sociedade. Gestores, líderes são agentes mais sensíveis e devem tomar cuidados. Devem procurar mais conhecimento acerca da política", afirma Dantas. 

Parte da população entende a política como algo distante, desconhecido, corrupto e acredita que só político pode mexer com esse conteúdo. "Precisamos convencer o empresário dessa ideia, para que, então, as pessoas entendam isso. A política não é suja", completa o cientista político coordenador do CLP. 

Considerando o ambiente de eleições, que já é uma realidade, os empresários e líderes emprestam seu prestígio e força para os candidatos em que acreditam, por mais que não seja diretamente. "E ter apoio do empresariado ainda é importante para quem está concorrendo. O problema é que temos lacuna na formação política", afirma Oliveira. 

Suas ações, comportamentos e falas costumam causar mais impacto que as de um cidadão comum - então é preciso ter cuidado. "Grandes empresas contratam especialistas em políticas para capacitar suas lideranças, entender melhor do tema. É nítido que muitas companhias perceberam ao longo dos últimos 15 anos a importância de se educar politicamente, de aprimorar a democracia por meio da educação", afirma Dantas, que é coordenador da pós do Centro de Liderança Pública (CLP). O centro tem foco na construção de líderes públicos para que sejam orientados com educação política e possam atuar da melhor maneira possível.  

A empresa de laticínios Tirolez oferece, desde maio, a todos os seus funcionários, um programa de educação política. Ele tem por objetivo ajudar no desenvolvimento dos funcionários como cidadãos ativos. As aulas são dadas pelo professor Bruno Souza da Silva, doutorando em ciência política pela Unicamp. 

Cícero Hegg, um dos fundadores da Tirolez, conta que a empresa iniciou o programa de desenvolvimento da cidadania em 2002. “Em 2018, por se tratar de um ano eleitoral e pelo fato de o Brasil estar vivendo uma sequência de anos turbulentos, percebemos que a gente precisava fazer uma coisa mais encorpada. Aí decidimos retomar o trabalho com aulas presenciais e a participação mais ativa dos colaboradores. Esta é intenção: trabalhar a cidadania, a democracia, o Estado, princípios e valores”, explica.

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Nem sempre os empresários enxergam todos os riscos porque a tendência é que olhem de forma segmentada para o efeito político que vai ou não afetar seu negócio. "Por vezes, têm a incapacidade de enxergar os riscos, justamente porque focam apenas nos detalhes informacionais pró ou contra mercado, sem olhar os riscos institucionais, que são os de longo prazo", afirma Oliveira. Os líderes de grandes empresas precisam de um ambiente político estável a longo prazo para chamar a atenção do investimento estrangeiro. Estabilidade é sinônimo de segurança jurídica e segurança institucional, segundo o cientista político. 

Oliveira lembra que o sistema político é realmente complexo. "O Impeachment, por exemplo: quanto tiro um representante que não gosto e coloco outro, não significa que as engrenagens vão mudar. Trocar um peça não significa mudar o sistema", diz. "Outro exemplo, o Alckmin conseguir a aliança com o chamado centrão já faz as pessoas acharem que a economia vai crescer, mas não necessariamente isso vai acontecer", complementa Oliveira.

Além disso, ele explica que temos dificuldade de compreender o cenário político brasileiro, que inclui desde o que é o 'governo representativo' até entender que se o candidato que eu gosto for eleito não significa que ele vai fazer o que ele fazer o que ele prometeu. Isso vale para todos.  

Política no trabalho

A forma como líderes empresariais lidam com a política mudam o ambiente de trabalho como um todo. Essas aulas de educação política são importantes justamente para auxiliar os líderes e funcionários em geral a saberem lidar com o tema durante o expediente - ainda mais em época de eleições. 

Segundo Raphael Falcão, diretor recrutadora de alta e média gerência Hays, é cada vez mais importante falar e entender sobre política no âmbito do trabalho - e o tema deve ser usado como ferramenta para auxiliar nas tomadas de decisão. 

Ele explica que, se as pessoas estão falando mais em política, é importante que o assunto seja abordado dentro do ambiente corporativo - desde que focando em melhorias para o negócio. "O executivo usar informações políticas para tomar boas decisões de negócio ou conhecer o meio político para ver como esse partido ou candidato afeta seu negócio é interessante e saudável, mas desenvolver muitas discussões dentro do ambiente corporativo passando para suas opiniões pessoais não é necessário", explica Falcão. 

Para ele, todo profissional deve saber separar sua opinião pessoal do trabalho. "As grandes empresas deveriam ser laicas, geralmente a empresa não quer ser vinculada a um partido ou a um candidato porque quer ter papel isento. Por isso, o profissional não deve também expressar suas opiniões políticas pessoais durante o expediente, se não for com o objetivo de auxiliar nas suas tarefas", orienta. 

 A recomendação do especialista em RH é sempre pensar em como a política afeta seu trabalho e não se limitar a ficar discutindo com os colegas o candidato que acha melhor ou pior. "Sempre vale pensar 'qual o impacto na minha indústria se essa candidato ganhar?'". Tentar separar e avaliar as questões tangentes ao negócio que você está em relação à política", afirma Falcão. 

 

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