Dia do Professor: apenas 2% dos jovens têm interesse pela profissão

Para atrair talentos, é preciso melhorar os salários, formação e condições de trabalho e apresentar planos de carreira

SÃO PAULO – No Dia dos Professores, comemorado nesta sexta-feira (15), existem dúvidas sobre se há motivos para festa. Pesquisa da Fundação Victor Civita realizada no ano passado revelava que apenas 2% dos jovens tinham interesse em seguir carreira como professor. E esse desinteresse pela profissão não é de hoje.  

A desvalorização da profissão é antiga, na avaliação do assessor especial da Unesco, Célio da Cunha. “A universalização do ensino fundamental foi feita às custas dos baixos salários dos professores”, afirmou, de acordo com a Agência Brasil. “Quando se expandiu o número de escolas e fez-se a inclusão de mais alunos, ironicamente foram os professores que financiaram isso porque a expansão não foi feita melhorando a carreira e os salários”, completou.

Para o conselheiro nacional de Educação, Mozart Neves Ramos, porém, é possível atrair talentos para essa carreira. Para isso, é preciso melhorar os salários desses profissionais, apresentar bons planos de carreira, melhorar a formação inicial e dar melhores condições de trabalho.

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A secretária de Educação Básica do MEC (Ministério da Educação), Maria do Pilar Lacerda, acredita que, além disso, é preciso melhorar os índices educacionais. “Recuperar a credibilidade da escola na formação dos jovens e das crianças é um fator que pode parecer subjetivo, mas faz diferença no momento da escolha da profissão”, ressalta, ainda de acordo com a Agência Brasil.

Cunha, da Unesco, vai além. Para ele, é necessária uma mudança de cultura do brasileiro para que a profissão de professor seja valorizada. “A sociedade ainda não acordou para a importância da educação e o papel estratégico do professor para o desenvolvimento do país. Se um bom aluno diz que quer ser professor, as pessoas riem dele”.

Formação frágil
De acordo com a Agência, aqueles que escolhem seguir carreira no Magistério são os que têm as piores notas no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Considerando os inscritos de 2007, entre os candidatos de pior nota, a probabilidade de um deles escolher ser professor era de três vezes maior do que entre os que tinham a melhor nota.

Os dados do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) ainda revelam que os que estudam para se tornarem professor não têm estabilidade financeira: 41,6% dos estudantes de pedagogia têm renda mensal de até três salários mínimos e 32,1% conciliam os estudos com o trabalho.

Salário
“A gente pode dizer que 99% dos estados não pagam o professor, de acordo com a lei aprovada”, observou, ainda segundo a Agência Brasil, o presidente do CNTE (Conselho Nacional dos Trabalhadores em Educação), Roberto Leão.

De acordo com a legislação aprovada em 2008, a partir de janeiro deste ano nenhum professor poderia ganhar menos de R$ 950 por mês, valor que hoje, corrigido, está em R$ 1.024. Contudo, essa lei está sendo questionada no STF (Supremo Tribunal Federal).

“O piso ainda é uma lei que está sendo aplicada de maneira muito particular, de acordo com cada gestor”, destaca Leão.