Crise leva empresas ao aumento da parcela variável da remuneração

Buscando minimizar custos fixos, maioria prevê uso mais intenso da remuneração variável ao trabalhador

SÃO PAULO – Apesar do conceito de remuneração variável já ser bastante difundido no mundo todo desde o final da década de oitenta, no Brasil ele só se tornou mais aceito desde a abertura da economia e o processo de privatização que trouxe ao país novos empregadores internacionais.

Neste tipo de remuneração o salário do funcionário é função da soma de um componente fixo e de um variável, este último baseado no desempenho não apenas do próprio funcionário, mas também no da própria empresa. Com isto as empresas conseguem automaticamente ajustar sua folha de pagamentos em épocas de crise, preservando os melhores funcionários.

O que se nota nos últimos tempos é que o agravamento da crise econômica juntamente com a deterioração das condições do mercado de trabalho tem levado a um aumento da parcela variável na remuneração das empresas. A tendência é tão forte que acabou sendo tema de debate no 29º Congresso Nacional de Gestão de Pessoas (Conarh), que aconteceu na semana passada em São Paulo.

Maioria pretende enfatizar remuneração variável

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De acordo com o diretor executivo da área de recursos humanos do Itaú, Fernando Tadeu Perez, está cada vez mais difícil para as empresas tomar decisões que impliquem em aumento dos seus gastos fixos. A novidade é que o novo modelo de remuneração, mais freqüente entre os altos executivos, passou a ser realidade também entre os escalões mais baixos.

O tema também foi alvo de estudo pela consultoria Mercer Human Resources Consulting, que recentemente teria organizado um seminário sobre o assunto com profissionais da área de recursos humanos. De acordo com o levantamento da consultoria, ao serem perguntados sobre onde estaria a ênfase da política salarial da empresa onde trabalham, cerca de 75% deles afirmaram ser na remuneração variável.

Remuneração fixa de diretores é de apenas 17%

Outro levantamento da Mercer analisou o avanço da remuneração variável no país desde 1998. Nos cargos de presidência pode-se constatar que o número de salários extras pagos como bônus no ano variou entre 6-7 salários adicionais.

A exceção aconteceu no ano 2000, quando foram pagos 8,2 salários extras em média, e em 2002, quando foram pagos 5,8 salários. Tendência semelhante foi registrada nos cargos de diretoria e gerente de primeira linha, em que a remuneração variável chegou a 5,6 e 3,3 salários em 2000 e caiu para 4,2 e 2,8 salários em 2002.

Com isto pode-se estimar que do total da remuneração dos executivos que ocupam cargo de presidência, a parcela fixa da remuneração é de apenas 15% do total. Percentual que tende a subir nos baixos escalões, onde os executivos em cargo de diretoria têm em média 17% da sua remuneração fixa e os gerentes de primeira linha, 28,5%.

Espírito de equipe não pode ser negligenciado

Um estudo da consultoria Deloitte Touche Tohmatsu sobre práticas na área de recursos humanos constatou que os profissionais da área prevêem mudanças significativas na forma de remuneração das empresas em todos os níveis hierárquicos. A pesquisa contou com a participação de 132 empresas com faturamento anual de US$ 16 milhões, das quais 57% em São Paulo, 23% no Rio de Janeiro e 20% na região Sul.

Segundo a pesquisa, a remuneração mista é adotada em 56% dos cargos executivos, mesmo percentual adotado nas funções que exigem formação superior. A novidade fica por conta da adoção deste sistema em 45% dos cargos administrativos e em 39% dos cargos operacionais.

Os profissionais da área, contudo, recomendam cautela na mudança do mecanismo de avaliação dos profissionais. Na opinião destes profissionais não se pode dar ênfase apenas no desempenho individual, pois acaba se negligenciando a formação de um espírito de equipe, essencial para a alavancagem dos negócios de uma empresa.