Caso Embraer: o desafio na contratação de 300 engenheiros por ano

Principais escolas formam apenas 100 engenheiros por ano, conheça a solução encontrada pela Embraer

SÃO PAULO – A Embraer possui, no total, 4,2 mil engenheiros nas áreas de desenvolvimento tecnológico e de produto. Por ano, a empresa contrata 300 engenheiros, mas com muita dificuldade. O fato não surpreende, já que o apagão de talentos no mercado de trabalho brasileiro não é novidade, ainda mais quando se trata das carreiras de engenharia.

No caso específico da Embraer, entretanto, a situação é ainda pior: as principais escolas de engenharia aeronáutica (ITA, Escola de Engenharia de São Carlos e Universidade Federal de Minas Gerais) formam apenas 100 engenheiros por ano. “Vocês podem imaginar os desafios enfrentados pela empresa quando falamos da contratação de 300 engenheiros por ano”, disse a diretora de Suporte ao Desenvolvimento de Pessoas da Embraer, Eunice Batista, durante palestra do 2º ConviRH.

E o problema não está apenas no aumento do efetivo, mas também em assegurar que os empregados produzam aeronaves com as mais modernas tecnologias, ao mesmo tempo em que se atentam para a qualidade, a segurança e a inovação, fatores prezados pela Embraer, que está inserida em um mercado altamente competitivo.

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“Tomando por base um estudo realizado no início da década pelo departamento de defesa norte-americano, fica claro que a carência de mão-de-obra especializada não se resume apenas aos engenheiros aeronáuticos. Envolve também outras carreiras da engenharia associadas ao projeto de novas aeronaves e seus processos produtivos”, afirmou Eunice. Logo, o desafio está em formam engenheiros de várias carreiras.

Solução encontrada

Enquanto na década de 70, as universidades estavam à frente das empresas, no novo século, a evolução do conhecimento se dá de forma muito acelerada, ritmo este que não é acompanhado pelas universidades. A indústria brasileira passou a procurar alternativas à escassez de mão-de-obra qualificada.

A solução para o impasse encontrada pela Embraer foi a criação do PEE (Programa de Especialização em Engenharia), cujo currículo é flexível e atualizado conforme as demandas dos clientes. O programa não apenas oferece especialização a engenheiros aeronáuticos, como também aos “não-aeronáuticos”, que são considerados importantes à empresa, dadas a complexidade do produto e a competitividade do setor. “Um dos desafios da Embraer é formar o especialista multidisciplinar”, explicou.

Mas a Embraer notou que a competência técnica isolada não é suficiente. Por isso, a especialização envolve o desenvolvimento de competências para uma visão sistêmica, técnicas de apresentação e negociação, confiança para novos desafios, relacionamento interpessoal e ética e capacidade de comunicação. Em 2007, 796 engenheiros passaram pelo curso.

Na fase 3 do PEE, os profissionais simulam o projeto de uma aeronave, separados em equipes, no qual devem preparar um plano de negócios, avaliando viabilidade financeira e retorno do investimento aos acionistas. A empresa até mesmo convida especialistas do exterior para orientar os alunos. Os projetos são, ao final, analisados pela diretoria. A carga horário do programa é de 3.600 horas, o suficiente, se levarmos em consideração que um curso de especialização, como o MBA, tem carga de 400 horas.

Conclusões

A Embraer concluiu que: as empresas de alta tecnologia requerem novos paradigmas no processo de capacitação; há necessidade de especialistas multidisciplinares; não há exclusividade de atores no processo de capacitação – são professores, especialistas e fornecedores que precisam adaptar-se urgentemente ao novo cenário; e nenhum modelo é perene, devendo passar por permanente avaliação.