American Dream

Casamento comprado: quando o sonho americano extrapola os limites da razão

Além de arriscado, tentar encurtar caminhos para recomeçar a vida em outro país pode ter um lado emocional muito duro

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FLÓRIDA, EUA – Duas histórias diferentes, mas que se cruzam no sonho de conquistar o respeito e a liberdade fora do seu país e a qualquer custo. Henrique* e Valquíria*, dois brasileiros de 27 e 29 anos, respectivamente, deixaram o Brasil ainda jovens para trilhar novos rumos nos Estados Unidos.

Henrique* descobriu ainda adolescente, quando vivia no Brasil, em Pernambuco, a dificuldade de conviver com o preconceito por ser homossexual. Valquíria* morava no interior do Estado de São Paulo e sonhava em seguir os passos de seu pai, que possui dupla nacionalidade, brasileira e portuguesa, e estava sempre em transição entre os dois países.

Depois algumas tentativas de morar em outros países, ela enxergou a possibilidade como Au Pair (programa de intercâmbio que permite estudar e trabalhar cuidando de crianças em outro país por um ano) de recomeçar a sua história nos Estados Unidos, longe da constante supervisão da mãe, que considera conservadora. “Minha vida era muito séria. Eu era muito nova, tinha acabado de sair de um namoro de 5 anos e sempre quis morar fora. Meu pai sempre viajou muito e eu sempre quis fazer as coisas que ele fazia”, lembra.

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De fato, a realidade nos Estados Unidos proporcionou uma vida diferentes para ambos. Contudo, o tempo passou, e voltar à realidade do seu país fugiu dos planos. Valquíria conta que viajou quando tinha 21 anos e depois de seis anos fora do Brasil como estudante, não tinha mais justificativa para permanecer nos Estados Unidos, a não ser que conseguisse um emprego que lhe fornecesse o visto de trabalho.

Henrique, que chegou aos 15 anos, já no início utilizou documentos falsos para conseguir trabalhar e não complementou os estudos. “Aqui [nos Estados unidos] eles falam que toda criança, todo adolescente, por lei, tem direito de estudar. Mas eu sempre tive a aparência de muito mais velho. Com 15 anos, a minha aparência era de 17 ou 18 anos. Sempre passei por mais velho e nunca estudei”, conta.

A sua esperança era conseguir mais tarde uma maneira de conquistas o direito de permanecer no país. “Eu não vim pensando em fazer nada errado, e nunca fiz. Eu só queria ser respeitado e trabalhar. Mas desde que cheguei a única possibilidade que me falaram que existia era negociar um casamento. E foi o que eu fiz quando completei 18 anos”, conta.

Valquíria conquistou uma boa formação universitária e enxergava outras alternativa. Mas ainda na universidade, foi influenciada a encontrar um norte-americano disposto a se casar para que conseguisse o Green Card e, consequentemente, a cidadania americana. “Na verdade eu nunca quis fazer isso. Depois que terminamos a faculdade, é concedida uma permissão de trabalho por um ano nos Estados Unidos. De repente uma empresa queira te contratar. Haviam maneiras. Só que todo brasileiro com quem eu estudei havia recorrido a outra maneira. E foi por meio deles que resolvi optar pelo casamento”, afirma.

Valquíria conta que após tomar essa decisão, sua vida de transformou em um verdadeiro pesadelo. Convive com medo de ligações, mensagens e e-mails e carrega sempre a sensação de estar sendo perseguida. Para comprovar o casamento, teve que abandonar os seus amigos e deixar a cidade onde morava para ficar próximo ao suposto marido. “Foi muita dor de cabeça. Me arrependi muito. Minha vida virou de cabeça para baixo. Não deveria ter ouvido tanto as pessoas e ter continuado firme e forte, da maneira que eu estava antes, mesmo que fosse mais difícil. O caminho mais fácil é o mais difícil”, lamenta.

Ela conta que em seu caso não negociou valores para o casamento. “Tudo ocorreu pela amizade, mas vamos dizer assim que desde que tudo começou, há dois anos, eu tenho sido muito generosa no sentido de gratificá-lo pela ajuda”. Com o tempo, ela confidencia que passou a construir um vínculo de amizade com o seu suposto marido. O processo corre, mas o medo permanece. Ela sabe que, se for comprovado um falso casamento, o suposto marido iria para a prisão e ela imediatamente deportada dos Estados Unidos.

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Enquanto agurda processo ser finalizado, ela não pode deixar o país e acompanhada pela “janela” do seu computador o tempo passar para a sua família e amigos, na esperança de que o mais breve possível possa retomar a sua real rotina, mas como cidadã americana.

Já para Henrique a história não sinaliza ter um desfecho breve. Após comprar o casamento, que lhe custou US$ 1.500,00 de início e uma “mesada” de US$ 200 mensais, passou duas vezes pela entrevista de imigração. Nas duas vezes o pedido foi reprovado. “Com certeza eles pressionaram a pessoa que se casou comigo. Iríamos para uma terceira entrevista, mas ela ficou com medo e nesse ponto já estávamos bem amigos e eu decidido que se não fosse para dar certo eu cancelaria. Nos divorciamos e eu fechei o meu processo na imigração”, conta.

Com as duas negativas, o processo que duraria três anos, perdurou por seis anos. Ele conta que nesse período teve que dispor de muito dinheiro. Não só com a mensalidade que pagava para a pessoa que aceitou o casamento, mas com jantares, presentes, viagens e outras coisas que comprovariam o seu vínculo matrimonial com a pessoa.

Depois de negado o pedido pela segunda vez, ele permaneceu nos Estados Unidos. Para trabalhar, se segurou a uma medida do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que concedeu em 2012 uma permissão de trabalho para estrangeiros que estivessem no país antes de 2007 e que haviam chegado antes de completar 16 anos. Apesar de poder trabalhar, se deixar o país não pode retornar. A sua esperança é que a aguardada reforma imigratória, prometida até 2017, dê uma solução para casos como o dele.

Passado 13 anos, ele não consegue dimensionar o quanto valeu a pena o sonho de deixar o Brasil para viver o sonho da vida nos Estados Unidos. “É uma pergunta muito difícil de responder, pois são 13 anos. Nesses anos todos eu não vejo minha família. Nesses 13 anos eu não vejo a minha terra. Eu não sei o que é um abraço de um familiar. Perdi minha mãe em 2006, perdi a minha avó em 2009. Há duas semanas eu perdi o meu avô, o pai da minha mãe. Foram momentos muito difíceis para mim. Você saber que não poder ir, não poder dizer adeus e estar lá. Por outro lado, sente muita culpa, pois sabe que não pode voltar por uma escolha sua, ‘e que tem o direito sair a qualquer momento. Tem um termo muito correto e que a ouvimos muito por aqui. Estamos em uma ‘gaiola dourada’. Você vive bem, em um lugar muito bom. A qualidade de vida é muito boa. Eu tenho bem-estar no trabalho, a vida social tranquila com o fato de ser homossexual. Isso vale muito a pena, mas quando coloco na balança é muito difícil de responder se valeu a pena tudo”, finaliza.

*A pedido dos entrevistados, os nomes reais foram substituídos para preservar suas identidades.