Avanço social não reduziu o desemprego nas classes C e D, diz pesquisa

Estudo da Unicamp revela que a baixa classe média abriga cerca de dois terços dos desocupados do País

SÃO PAULO – O avanço da estrutura social brasileira, ocorrido no período de 2004 a 2007 e que beneficiou mais as famílias que viviam na miséria ou na pobreza, não foi suficiente para reduzir o desemprego
entre as pessoas pertencentes à baixa classe média (C e D).

Esta constatação foi feita a partir de estudo produzido pelo professor Waldir Quadros, do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). O levantamento utilizou os dados da Pnad 2007 (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios), produzida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“Além de inesperado, esse quadro demonstra que vamos enfrentar um cenário de crise em condições desfavoráveis, o que aponta para o provável agravamento da vulnerabilidade social no País”, diz Quadros.

Expectativas

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Na opinião de Quadros, a melhora da estrutura social não foi suficiente para reduzir o estoque de desemprego no Brasil. A permanência deste problema numa fase marcada pelo crescimento econômico é um indício do que o Brasil pode enfrentar nos próximos meses, em meio a uma crise.

“Se o País não foi capaz de combater o desemprego durante um período favorável, tudo indica que ele terá mais dificuldade em fazê-lo em um momento de crise, cuja profundidade e extensão ainda permanecem desconhecidas. Para fazer uma analogia com o futebol, nós estamos entrando nesse jogo com um pé manco”.

O desemprego na classe C e D

Segundo dados do estudo, em 2007, a proporção dos desocupados que se encontravam nas famílias da baixa classe média e da massa trabalhadora atingia, em seu conjunto, 67% do total, indicando um
pesado fardo para o enfrentamento de tempos mais difíceis que se anunciam a partir de 2009.

“A baixa classe média e a classe trabalhadora, que colheram alguns frutos recentemente, são as mesmas que abrigam cerca de dois terços dos desocupados do País. Diante desse panorama, sobretudo, os mais pobres correm o risco de regredir socialmente”, revela o professor.

Crítica

Para Quadros, as dificuldades que se anunciam podem ser amenizadas se o governo federal mudar a sua postura. Não é possível continuar usando armas antigas formuladas em um determinado contexto, para enfrentar um inimigo novo, numa conjuntura diferente.

“Temo que o tempo de uma abordagem avançada que proteja o nível de atividade econômica e o emprego esteja se esgotando ou mesmo já tenha sido ultrapassado. E, mantendo a analogia futebolística, quem não faz gol, toma. Em poucas palavras, a queda da arrecadação decorrente da retração econômica já começou, com indicações de que será muito séria. Essa inércia pode levar o governo a adotar uma abordagem conservadora, para manter o equilíbrio por meio de cortes nos gastos públicos”.

Quadros finalizada ressaltando que outra medida a ser adotada é o envolvimento de estados e municípios no esforço para ampliar a proteção social aos cidadãos. “Atualmente, esses entes públicos destinam entre 13% e 15% da sua arrecadação para o pagamento da dívidas que mantêm com a União. Ora, bastaria o governo federal cortar pela metade essa remessa e vincular a diferença à adoção de programas de geração de emprego sérios e consequentes em âmbito local”.