Alemanha X Grécia: economia e futebol se misturam em meio a provocações

Países se enfrentam nesta tarde pela Eurocopa, após alemães defenderem medidas de austeridade e gregos protestarem

German flag , closeup

SÃO PAULO – Há apenas alguns anos, Grécia e Alemanha tinham pouco em comum. Mas desde o agravamento da crise financeira de 2008 eles se veem em uma relação que passa por dependência e raiva. Nessa sexta-feira (22) esse clima de tensão entre os países se torna ainda mais evidente, quando as duas nações se enfrentam na Eurocopa – e, até por aqui, a Alemanha leva vantagem: favorita, em três jogos na competição venceu todos, enquanto a Grécia obteve a vantagem em apenas um.

E isso pode ser visto nos jornais e nas próprias entrevistas dos jogadores, nas quais muitas vezes o futebol foi deixado de lado para falar sobre política e economia. “Alegrem-se, queridos gregos, a derrota será de graça na sexta-feira! Nenhum resgate lhes ajudará contra Jogi Löw [treinador da Alemanha]”, estampava o jornal alemão Bild durante esta semana. Outro jornal do país, o Berliner Kurier, publicou uma charge em que um porta-voz da Alemanha dizia: “nossa posição com relação à Grécia permanecer na Zona do Euro depende inteiramente em como as quartas-de-final andar”.

Por sua vez, os gregos mostraram estar preparados para o confronto de palavras. Enquanto alguns jornais respondiam em frases como “a Grécia nunca sairá do Euro”, em uma mensagem no qual o Euro pode ser entendido como o bloco da moeda comum ou a própria Eurocopa, há relatos de torcedores do país que entoavam o canto “Merkel, se prepare, agora é a sua vez”, após a última partida, quando venceram a Rússia.

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A chanceler alemã Angela Merkel já confirmou presença na partida, marcada para ocorrer na Arena Gdansk, na Polônia, às 15h45 (horário de Brasília), mas não há notícias se o recém-eleito primeiro-ministro grego Antonis Samaras também irá ao evento. Antes disso, mais uma última provocação alemã. O jornal Bild anuncia em sua capa: “Adeus Grécia, hoje não podemos te salvar”.

Hora da vingança?
Embora os jogadores dos dois lados reforçaram repetidas vezes que este é apenas um jogo de futebol, diversos jornais internacionais destacam que há, por trás dele, um sentimento de vingança por parte da população da Grécia. Isso porque a Alemanha é o principal defensor das medidas de austeridade fiscal no continente, o que força a Grécia a adotar medidas impopulares. Estas, por sua vez, já geraram diversas manifestações e confrontos violentos entre a população e a polícia nas ruas gregas.

Entre as medidas estão sucessivos cortes de gastos, o que envolve forte redução nos salários, demissões no setor público, além de aumento de impostos. O golpe mais duro na população é a alta no desemprego: segundo os últimos dados disponíveis, de março, a taxa chega a 21,9%, sendo que na população jovem a porcentagem é de 52,8%.

O país já foi resgatado internacionalmente duas vezes: em abril de 2010, quando pediu por uma ajuda de € 110 bilhões, e em março deste ano, quando entrou com um pedido de mais € 130 bilhões. Um pouco antes, o país anunciou um calote em seus credores ao não ter condições para pagar todo o montante que devia. Assim, os credores perdoaram € 206 bilhões da dívida grega.

Alemanha, patrocinadora da Grécia
Tudo isso mina a soberania do país, que se sujeita a um rigoroso acompanhamento dos credores internacionais sobre as contas públicas gregas para continuar a receber os recursos. No entanto, boa parte desse valor dos resgates é financiado pelo EFSF (Fundo Europeu de Estabilização Financeira), que possui a Alemanha como sua principal cotista.

Por isso, ainda no início deste mês, uma charge no jornal britâncio The Guardian trazia um jogador de futebol, trajado com um uniforme branco e com o nome da Alemanha estampado. O atleta dizia: “Nós somos a Grécia – eles são apenas nossos patrocinadores”. 

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Por todo esse contexto envolvido, o jogo entre a Alemanha e a Grécia, que tanto se enfrentaram no campo político e econômico nos últimos anos, ganha tanta repercussão no noticiário financeiro e no esportivo. O final dessa disputa, ao menos no futebol, termina nesta tarde. Já, na economia, esse é um confronto que não tem data para terminar.