Startups: “Não podemos errar”: Como pensa um family office que foge do VC

Com R$ 5 bilhões sob gestão, Cleam Capital tem como tese a aquisição de empresas maduras e estáveis, que gerem dividendos

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Enquanto o venture capital vive em busca do próximo unicórnio e de múltiplos elevados, a Cleam Capital, family office com R$ 5 bilhões sob gestão, vem atuando nos últimos anos com uma estratégia diferente. Em vez de potencial de valorização, a casa busca negócios que já “venceram o tempo” e gerem dividendos enquanto aguardam por uma oportunidade de saída, que não tem prazo para acontecer.

“De forma geral, eu não sei conviver com prejuízo. A gente trabalha para gerar lucro todo mês. Eu não preciso ter muito lucro, nem gerar muito caixa, mas não posso perder dinheiro. Essa é a regra número um”, conta Eduardo Lacet, CEO da Cleam Capital, em entrevista ao Startups.

A filosofia explica a aversão do family office ao venture capital. “No caso do private equity e do venture capital, se eles ganham dinheiro, é ótimo, mas se perdem, está tudo bem também. A gente busca mitigar o risco. Não existe espaço para apostar”, acrescenta Eduardo.

A tese da Cleam consiste na aquisição de empresas de institucionais, principalmente carve-outs (unidades que multinacionais e grandes grupos decidem desinvestir). Atualmente, o family office possui 10 companhias no portfólio, incluindo algumas empresas de tecnologia.

Além disso, a casa possui um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) com recursos próprios, usado para financiar a necessidade por crédito das empresas adquiridas.

“Somos muito parecidos com um continuation fund: normalmente, compramos empresas mais perto do fim do ciclo do fundo, quando chega o momento de desinvestir. Buscamos empresas maduras, que já venceram no tempo, têm uma marca relevante e uma participação importante no mercado em que atuam. Diferentemente de uma startup, que aposta muito no crescimento, estamos interessados em empresas que já alcançaram essa estabilidade”, observa o CEO.

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Entre as investidas do family office estão, por exemplo, a Casa Magalhães, uma empresa de software para frente de loja, com cerca de 60 anos de história, que havia sido adquirida pelo O Boticário. A empresa foi vendida para a Cleam Capital em março de 2025.

“Foi uma aquisição complexa, porque os funcionários, os softwares e as operações estavam dentro do Boticário. Precisamos transferir funcionários, clientes e sistemas e reconstruir a operação da empresa depois da aquisição. É justamente nessa complexidade que buscamos agregar valor e nos tornar o partner of choice: queremos ser reconhecidos como o parceiro mais preparado para esse tipo de transação”, afirma Eduardo.

Outro exemplo é a Omnilink, empresa de tecnologia que a Cleam comprou em 2019. A companhia, especializada em soluções tecnológicas para o transporte de cargas, pertencia ao fundo Patria Investimentos.

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“Acho que é nosso principal caso de sucesso”, diz Eduardo. A empresa foi comprada por R$ 79 milhões e hoje valeria cerca de R$ 3,2 bilhões, segundo os cálculos do executivo. A Omnilink lançou recentemente uma solução chamada Pneu Conectado, que transmite informações da frota em tempo real para a plataforma. A estimativa da empresa é faturar R$ 300 milhões só com esse produto em 2027.

Como parte de sua estratégia, a Cleam Capital não estabelece um prazo predeterminado para vender as empresas do portfólio. Embora o objetivo seja aproveitar oportunidades de saída quando surgirem propostas adequadas, a estratégia permite manter os ativos por períodos prolongados e priorizar a distribuição de dividendos.

Desde o início da sua atuação, o family office nunca vendeu uma empresa. A mais antiga, segundo Eduardo, está há 15 anos no portfólio.

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“Nosso objetivo é promover um processo de melhoria contínua. Todo mês, buscamos melhorar um pouco os indicadores das empresas. Não procuramos uma bala de prata. Queremos ajustar vários pontos para produzir resultados sustentáveis e duradouros”, afirma.

“Juros altos podem ser melhores”

Se, para o mercado de venture capital, a taxa de juros em patamares elevados é sinônimo de retração, para a Cleam Capital, o momento é de oportunidades. A lógica é que o custo de capital mais alto pressiona o valor das empresas, tornando as aquisições mais acessíveis para o family office.

“Para nós, juros altos podem ser melhores porque criam mais oportunidades de M&A”, explica Eduardo, ressaltando que o benchmark da casa continua sendo o CDI. “É uma equação de custo, investimento e retorno. A taxa de retorno que buscamos precisa ser superior ao CDI. Quando o custo de capital aumenta, isso influencia o preço que podemos pagar pela empresa. Por isso, quanto maior a taxa de juros, menor tende a ser o valor da companhia dentro da nossa equação de investimento”.

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Mas o cenário não possui apenas vantagens. Com o juro nas alturas, as empresas sofrem e o vendedor também perde, o que pode inviabilizar negócios. “Às vezes você trabalha só para pagar imposto e juros”, reconhece. O juro real brasileiro, para ele, deve cair com o tempo, o que ajudaria quem comprou “descontado”.


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