Startups: Empresa de chinelos à base de soja retoma operação e aposta em nicho verde

Após reduzir operação na pandemia, Green Flip Flops volta a ganhar fôlego e já fatura R$ 350 mil com site lançado em junho

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Se tem uma coisa que é a cara do brasileiro, é o chinelo. Seja para ir à praia, dar uma volta na padaria ou até compor o look do dia, o calçado faz parte da rotina nacional. Mas e se, além de confortável, ele também pudesse ser feito com materiais de origem vegetal e menos dependentes do petróleo?

É essa a proposta da Green Flip Flops. A marca, que disputa espaço com gigantes do setor já consolidadas, como Havaianas e Ipanema, propõe calçados que duram mais e geram menos resíduos, tudo isso sem deixar de lado o design. As sandálias são feitas de PVC com plastificante à base de soja, em substituição ao componente de origem petrolífera.

A proposta nasceu da combinação entre uma ideia de produto e uma preocupação ambiental. João Bailey, sócio que criou o desenho original do chinelo e hoje responde pela operação nos Estados Unidos, conta que a inspiração veio de experiências pessoais: na juventude, costumava caminhar pelas pedras das praias de Búzios, mas as sandálias que usava arrebentavam com frequência. Assim, a ideia de fazer algo diferente começou a matutar na cabeça.

“Eu sempre fui do varejo de roupa e depois me envolvi com calçados. Comecei a ir ao sul com frequência e, nessas, acabei indo a uma feira de calçados e solados e vi um material que substituía os solados feitos de petróleo por umas resinas vegetais. E guardei isso, achei interessante. Eu descobri algumas fábricas que faziam solados lá no sul e fizemos algumas pesquisas, mas ainda sem usar materiais sustentáveis”, diz em entrevista ao Startups.

O projeto só ganhou uma dimensão ambiental com a entrada de Manoel Arthur Villaboim, cofundador da startup, que se considera um “ambientalista convicto”. A parceria ajudou a incorporar à proposta o uso de plastificante de origem vegetal e iniciativas de reutilização e reciclagem.

“Quando a gente se juntou, eu falei para o Bailey que, se fôssemos fazer uma sandalinha, tínhamos que fazer de acordo com o que a gente acredita. Queríamos fazer um calçado que a gente pudesse reduzir, reutilizar, reciclar e que tirasse o máximo do petróleo possível”, recorda Manoel.

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A marca foi pensada inicialmente para o mercado internacional, onde o nome Green Flip Flops faria mais sentido comercialmente. A empresa chegou a exportar para destinos como Maldivas e Grécia, mas desacelerou durante a pandemia. “Com a Covid-19, o negócio deu uma desandada. E começou a ter dificuldades mesmo, porque é produto com uma margem pequena, tem que ganhar no volume”, lamenta João Bailey.

O modelo de distribuição também era um desafio: a operação dependia de pontos de venda e consignação, uma dinâmica trabalhosa para uma empresa que terceiriza a fabricação e precisa ganhar escala para melhorar as margens. Assim, a Green Flip Flops parou.

Um sonho revivido pelo filho do cofundador

O projeto ganhou uma segunda chance pelas mãos de João Manoel Leite, filho de Manoel Arthur e hoje CEO da Green Flip Flops. Mesmo após a pausa durante a pandemia, o jovem manteve o carinho pela marca e pelo produto.

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Ao se formar em finanças nos Estados Unidos, decidiu voltar ao Brasil para relançar o negócio ao lado do pai. “O João falou: ‘Pai, eu amo a sandalinha, quero voltar para o Brasil e relançar’. Eu falei: ‘Então, vamos’”, relembra Manoel.

Com a retomada das operações no final de 2025, o sócio e fundador João Bailey continuou participando do projeto, só que agora como responsável pela operação nos Estados Unidos. Enquanto o executivo foca no internacional, Manoel e seu filho ficaram com a operação no Brasil.

Três Rs e uma sola mais resistente

A estratégia ambiental da Green Flip Flops é organizada em torno dos três Rs: reduzir, reutilizar e reciclar. Na composição do produto, a empresa afirma que o plastificante de soja representa metade da fórmula da sandália, substituindo o componente de origem petrolífera. A companhia também diz que a maior densidade da sola aumenta a durabilidade e melhora a aderência em superfícies molhadas.

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De acordo com Manoel, testes de laboratório e de uso indicaram uma vida útil até três vezes maior que a de sandálias convencionais. A reutilização é incentivada por meio da reposição gratuita das tiras enquanto a sola estiver em condições de uso. “Nossa sola dura muito, mas as nossas tiras, por mais fortes que sejam, têm o seu limite. Tem cachorro que adora comer tira de sandália. Então, uma solução que adotamos e de dar a tira para o consumidor de graça enquanto a sola durar. O cliente só paga o correio”, ressalta.

Outra iniciativa envolve o fim da vida útil do chinelo. A esse ponto, a sandália pode ser devolvida à marca em troca de um desconto na compra de outro par, que, sem os descontos, custam de R$ 109 a R$ 119.

Apesar das iniciativas, a logística reversa ainda está em estágio inicial. João Manoel, filho de Manoel Arthur e responsável pela operação brasileira, afirma que a marca havia recebido menos de dez pares devolvidos até a entrevista. O baixo volume, segundo ele, dificulta avaliar os resultados da iniciativa até o momento.

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Retomada pelo e-commerce e planos para o varejo

Hoje, as vendas da Green Flip Flops estão concentradas, principalmente, dentro do site da empresa, que foi lançado em junho deste ano. Além da loja própria, a marca vende pelo TikTok Shop, ainda com participação pequena, e mantém parcerias físicas selecionadas. Uma delas é com o Parque Nacional do Iguaçu, onde a startup tem uma coleção exclusiva comercializada nas lojas dentro do parque. A empresa também trabalha com hotéis, resorts e algumas lojas especializadas.

Nestes quatro meses de atuação, o CEO afirma ter tido um faturamento de R$ 350 mil. “Temos uma demanda consistente. Acho que as pessoas se lembram muito da marca por ser uma marca sustentável, mas na hora de realmente comprar, elas compram porque o chinelo é resistente. É claro que, se a gente pensar no brasileiro médio, ele não é engajado com a sustentabilidade e tem muito espaço para educação e muito espaço para crescimento”, aponta.

“Hoje, não buscamos competir diretamente com Havaianas ou Ipanema. O mercado movimenta cerca de 400 milhões de pares, então conquistar 1% desse público já seria um bom negócio. Acreditamos na qualidade do produto e no marketing boca a boca para ampliar nossa base de clientes. Atualmente, o site registra uma média de 20 a 30 vendas por dia”, relata João Manoel.

A preferência pelo comércio eletrônico tem relação com o custo e a complexidade do varejo tradicional. A marca quer ampliar a presença digital antes de avançar de forma mais intensa para as lojas físicas. A estratégia também permite acompanhar melhor as vendas geradas por influenciadores e campanhas de marketing.

“É claro que a gente quer estar no varejo físico, patrocinar campeonatos de surf e show de músicas. Mas só olhamos para isso se formos convidados. Temos um baita produto, mas nossa marca ainda não é conhecida”, indica Manoel Arthur.

A empresa está aberta a receber investimento, mas ainda não tem uma rodada planejada. O objetivo seria captar recursos principalmente para estruturar a produção de conteúdo e fortalecer o marketing orgânico, sem acelerar a expansão de maneira indiscriminada. O investidor também precisa estar alinhado à proposta ambiental da marca.

Crescer em um mercado de preço baixo

O desafio da startup agora é conquistar espaço em uma categoria com produtos de diferentes faixas de preço. No Brasil, João Manoel estima que sejam produzidos cerca de 400 milhões de pares de calçados e chinelos por ano. Em vez de disputar diretamente o mercado de massa com marcas como Havaianas e Ipanema, a Green Flip Flops mira um nicho de consumidores interessados em qualidade e sustentabilidade.

O plano de negócios inicial da empresa considera atingir 0,5% desse mercado, o equivalente a 2 milhões de pares por ano. A meta, no entanto, está distante do estágio atual da operação e depende da capacidade de ampliar a distribuição e a demanda.

Nos Estados Unidos, onde João Bailey mantém a operação internacional, a marca enfrenta outra barreira: o hábito de comprar chinelos baratos para uso ocasional. Ele observa que modelos básicos podem custar de US$ 3 a US$ 4, enquanto sandálias de marcas especializadas chegam a faixas de preço muito superiores.

Na avaliação dele, a sustentabilidade, sozinha, não costuma justificar a compra para a maioria dos consumidores americanos. “É produto bom, visual bacana. Dá uma pitada de sustentável”, resume.

A experiência internacional também mostrou os limites de vender para grandes compradores sem controlar a fabricação. A empresa chegou a fornecer sandálias em volume para um cliente ligado à hotelaria nas Maldivas, mas, segundo o sócio, o preço solicitado era difícil de atender porque a Green Flip Flops terceiriza a produção.

Hoje, a operação americana tem vendas pequenas, de cerca de dois a cinco pedidos por semana no canal on-line, e João Bailey divide o tempo entre a marca e outro trabalho. Ele vê potencial em mercados como Europa e Austrália, além de oportunidades no Havaí, mas afirma que o custo do frete e a necessidade de manter estoque local tornam a expansão mais complexa.

No Brasil, a próxima etapa é consolidar a marca pelo comércio eletrônico e lançar novas coleções. Para o verão, a empresa prepara uma linha inspirada nas pinturas rupestres e na ancestralidade da Serra da Capivara, no Piauí.

A aposta da Green Flip Flops é que a combinação entre produto, identidade visual e uma proposta ambiental mais concreta ajude a conquistar consumidores para além do nicho. Por enquanto, a prioridade é provar que existe demanda recorrente antes de acelerar a expansão.


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