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Principais SAFs ficam na série A em 2023, mas como ficam os balanços?

Empresas respiram para lidar com gestão e dívidas

Iuri Santos

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A uma rodada do fim do Campeonato Brasileiro, três das principais Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) do país ainda lutavam contra o rebaixamento: Cruzeiro, Vasco e Bahia conseguiram se salvar da queda entre a penúltima e a última semana do torneio. A permanência na série A não significou apenas um alívio para seus torcedores, mas a perspectiva de manter receitas mais elevadas e a possibilidade de seguir — ou repensar — seus planos para médio e longo prazo.

Com passagens pela série B em algum momento, os clubes venceram a estatística de uma chance de cair novamente dentro de cinco anos próxima a 33%. Mas ainda precisam fechar seus balanços financeiros, que devem ser publicados entre abril e maio do próximo ano. E é para eles que analistas têm voltado sua atenção.

O Botafogo é o exemplo mais recente de tentativa de endereçar a crise financeira. O clube carioca — que liderou o Brasileirão por 31 das 38 rodadas e viu escapar pelas mãos uma vantagem de 13 pontos contra o vice-líder — entrou com pedido de Recuperação Extrajudicial para resolver quase R$ 405 milhões em dívidas. A ação, assinada tanto pelo clube social quanto pela SAF, propôs um corte de 40% a 90% no valor dos débitos, além de um pagamento em até 15 anos.

Investidores como Ronaldo Fenômeno, no Cruzeiro, o fundo de private equity 777, no Vasco, e John Textor, no Botafogo, assumiram clubes com o desafio de amenizar o alto endividamento contraído pelas associações nas últimas décadas — em valores que chegavam a R$ 1 bilhão. 

Torcida em Botafogo x Cruzeiro pelo Campeonato Brasileiro de 2023 (Foto: Vítor Silva/Botafogo)

Especialistas acreditam que o principal saldo dos balanços apresentados não será a redução do passivo, mas um plano de pagamento da dívida reestruturado e com melhores condições após negociações com credores.

É o caso do Cruzeiro. Do ponto de vista administrativo, o clube mineiro tem angariado confiança no mercado. Mesmo com limitações claras de investimento no futebol, o projeto encabeçado por Ronaldo Fenômeno reúne uma equipe de executivos com experiência e bom trânsito no mercado. Para uma fonte familiar ao processo, “quem trouxe o amparo, a perspectiva para esse plano”, foram essas lideranças.

O plano de recuperação do clube reduziu a alavancagem a curto prazo e prevê o pagamento de R$ 682 milhões para credores, além de outros R$ 260 milhões para cumprimento das obrigações junto às autoridades fiscais.

As SAFs podem optar por negociar suas dívidas via recuperação judicial, mas a lei que regulamenta o modelo também permite usar o Regime Centralizado de Execuções (RCE), em que o clube associativo fica com a dívida, mas a empresa do futebol destina 20% das receitas ao pagamento de credores da associação, sob uma lista de prioridade.

O RCE foi o caminho escolhido pelo Vasco para negociar suas dívidas já em 2021, sob gestão de uma consultoria especializada. O cruzmaltino passou por idas e vindas no ano, dentro e fora do estádio. Em maio, a SAF precisou renegociar os prazos de pagamento do RCE na justiça trabalhista para evitar atrasos que vinham ocorrendo. Além disso, a 777 partners, investidora da SAF, atrasou em um mês, dentro do prazo de carência, o investimento de R$ 100 milhões estipulado em contrato. Como sócias, as associações têm exercido um papel de pressionar os investidores pelo cumprimento das obrigações estipuladas nos acordos.

Os projetos de empresa

Para analistas, já é possível diferenciar como cada uma das plataformas por trás das SAFs no Brasil se porta, e 2023 serviu como uma espécie de termômetro desse movimento. Clubes cujo investidor tem uma gestão de futebol centralizada, mesmo que tenha negócios por todo o globo, parecem estar se saindo melhor.

O Bahia, por exemplo, tem sido tratado como um projeto bem-sucedido e com grande potencial. Vendido ao Grupo City — cujo acionista majoritário é o fundo soberano Abu Dhabi United Group — em maio deste ano, o tricolor está sob a gestão de uma das principais referências internacionais no futebol. “Ser do Grupo City traz um pacote de gestão. Manchester City, Montevideo Torque, Girona, Palermo: o modelo de gestão é o mesmo. Tem gente que vem da gestão mãe, digamos assim, para cuidar do clube”, explica Cesar Grafietti, sócio da Consultoria Convocados.

Torcedor em Cruzeiro x Palmeiras pela última rodada do Brasileirão (Foto: Foto : Staff Imagens / Cruzeiro)

Mesmo que o clube tenha se salvado do rebaixamento apenas na última rodada do Brasileirão, a avaliação é de que um projeto de longo prazo pode ser mais facilmente sustentado devido ao seu investidor. “Por definição, esse fundo não precisa retornar o dinheiro, diferentemente dos private equities, como de Vasco e até mesmo John Textor, no Botafogo, que hoje possui alguns”, diz um executivo próximo aos negócios sob condição de anonimato.

O clube baiano optou por tentar bons acordos na negociação com credores, sem adotar nem o regime de recuperação judicial ou o RCE. O Bahia arcou com toda a sua dívida tributária e mais 50% do restante do passivo com aportes do fundo soberano. A expectativa  é conseguir, em dois anos, liquidar toda a dívida, segundo fonte que acompanha as negociações.

Para essa fonte, o ano colocou à prova o modelo de plataforma multiclube adotado por Textor. O investidor americano foi um dos poucos entre as SAFs que fez investimentos mais elevados no ano (o clube já estava na série A desde 2022), mas no decorrer da temporada comprou o francês Lyon, clube com faturamento dez vezes superior ao do alvinegro. “Naturalmente, você vai mudar um pouco o foco”. 

Jorge Braga, empresário especializado em reestruturações e ex-CEO Botafogo, avalia que, ao longo de 2023, vieram à tona questões que já são discutidas em mercados mais maduros, como o europeu, como o risco de as plataformas multiclubes preterirem um de seus negócios e, por meio de transferências de talentos e ativos, acabarem prejudicando outro — transferindo jogadores com potencial de venda para outro time da empresa, por exemplo.

Já do lado financeiro, o saldo feito por executivos que caminham entre as SAFs é de que, na média, as empresas têm feito um bom trabalho. “Com exceção de gestões associativas como as de Flamengo e Palmeiras, as SAFs são mais bem geridas que qualquer clube”, diz um executivo com assento no conselho de uma grande SAF. A própria estruturação das dívidas é um movimento raramente visto no futebol brasileiro.

Próximos passos

No próximo ano, outros clubes passarão o campeonato brasileiro inteiro como SAFs. O Atlético-MG se tornou empresa no decorrer do ano. O grupo de empresários e mecenas do clube, conhecido como 4 R’s, se tornou dono de 75% da SAF do Galo. Rubens e Rafael Menin (da MRV), Ricardo Guimarães (um dos controladores do BMG) e Renato Salvador (da família proprietária da rede de hospitais Mater Dei) se preocupam, agora, em como reduzir o endividamento do clube, que chegou a bater os R$ 2 bilhões em 2023 em função de dívidas e da construção do seu novo estádio, a Arena MRV.

Vasco x Red Bull Bragantino pela série A do Brasileirão (Foto: Fotos: Matheus Lima/Vasco)

O Coritiba, rebaixado na penúltima posição do campeonato brasileiro, foi vendido para  Treecorp no meio do ano, mas ainda é difícil fazer qualquer avaliação, dado que a empresa não fez parte do planejamento. Já o Fortaleza, transformado em SAF, ainda não foi comprado por um investidor e segue sob administração da sua associação, assim como o América-MG, Cuiabá e Red Bull Bragantino são modelos de clube-empresa de longa data.

A criação de uma liga de futebol para negociação conjunta de contratos, no entanto, deve ser o verdadeiro catalisador de novos investimentos em clubes brasileiros. Projeções indicam que, em cinco anos, a criação de uma liga pode até dobrar a receita gerada com futebol no País, gerando um efeito cascata da elite do futebol para as demais categorias.

Investidores estrangeiros têm adotado a postura de esperar a formação de uma liga para, só então, começar movimentos de prospecção ativos no mercado brasileiro a fim de comprar SAFs, diz uma fonte que se reuniu com esses gestores. As discussões sobre a criação de uma liga estão travadas em função da discordância de blocos de clubes sobre as regras de divisão de receita.

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