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Pior momento do setor de educação ficou para trás, diz Cogna

Para CEO da empresa Roberto Valério, com 22 milhões de alunos, desafio é tomar partido do acesso a esse público com ofertas adequadas

Lucinda Pinto Vera Brandimarte

Roberto Valério, CEO da Cogna (Foto: Rafael Almeida)

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Foram anos de aquisições e de expansão, processo que teve seu ponto alto na fusão entre a Kroton e a Anhanguera, em 2014. Agora, o desafio da Cogna, maior grupo de educação do país, é tirar vantagem dessa consolidação, que a colocou em todas as etapas do processo de educação – desde a fase inicial, por meio do método Anglo de Ensino e produção de material didático, até a fase profissionalizante e pós-graduação. Mas, para colher os benefícios dessa atuação extensa, é preciso conectar as etapas.

“Hoje somos uma empresa que tem várias soluções para educação, com pontos de sinergia em gestão, backoffice e financeira. Estamos partindo para uma segunda etapa, que é organizar o cross sell entre os produtos”, afirma Roberto Valério, CEO da Cogna. “Se eu conheço essas pessoas, tenho os dados, consigo vender um produto nosso ou de um parceiro” e em diferentes momentos da vida dessas pessoas, explica. Ou seja, aproveitar o acesso a públicos tão diversos e se tornar uma empresa de dados e analytics.

O conceito que está por trás da estratégia da Cogna não é difícil de entender. Se a companhia pode atender ao aluno desde o início de sua vida escolar, o que acontece quando ele tem entre seis e sete anos, por que não continuar atendendo esse aluno até o fim de sua jornada, passando pelo período de definição da profissão até a pós-graduação? A questão é que, para que isso funcione em uma estrutura tão ampla e complexa, é preciso, primeiramente, aprimorar o uso da imensa base de que a companhia dispõe.

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Roberto Valério, CEO da Cogna
Roberto Valério, CEO da Cogna (Foto: Rafael Almeida)

A holding Cogna atende hoje a 22 milhões de estudantes. São 60 marcas, abrigadas em três frentes: Cogna (graduação e pós-graduação), Somos (soluções para escolas privadas do ensino fundamental) e Saber (editoras Ática, Saraiva e Scipione e a escola de idiomas Red Baloon). Entre o ensino fundamental e a pós-graduação, a empresa é forte no segmento de cursos preparatórios para vestibular e concurso – sendo que a última modalidade voltou a ter demanda após quatro anos parada, diante da retomada do programa de contratação de servidores pelo governo federal. Além disso, passou a oferecer cursos técnicos, profissionalizantes e de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

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“Existem 60 milhões de brasileiros que têm mais de 17 anos que não terminaram o ensino médio, não têm profissão”, diz Valério. Esse déficit é uma oportunidade de negócios, mas também um desafio adicional: como contribuir para que esses degraus na trajetória acadêmica resultem em um aumento de renda de fato? “É uma questão de dados, conexão e jornada”, diz Valério. “Todas as vagas para ensino médio hoje estão disponíveis na internet. O desafio é fazer com que o aluno que eu formei no supletivo em algum lugar do país se conecte com uma vaga que exista em sua cidade”, afirma. O executivo admite que essa estratégia não é exatamente nova, e que há outras iniciativas nesse sentido. A diferença é que ela é usualmente aplicada para estudantes de graduação, e não para os de ensino médio, diz o executivo.

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Outro aspecto a ser melhorado é a integração das chamadas “capacities”, conhecimentos específicos detidos por áreas da companhia que podem ser compartilhadas e aplicadas em todo o grupo. Um exemplo é a construção de um site de e-commerce que possa ser reaproveitado em qualquer uma das marcas. Segundo ele, já foram identificadas mais de 100 capacidades. “Se tenho visão de jornada, tenho dados e as capacidades são facilmente replicadas, consigo criar várias parcerias, vários negócios, conectar todos”, diz Valério.

A estratégia de melhorar o uso de dados e conectar as diferentes marcas e produtos é o que deve direcionar o crescimento da empresa daqui para frente, diz Valério. Há espaço para que algumas etapas dessa jornada da educação, como ele chama, sejam preenchidas, por meio de aquisições ou parcerias. “Podemos fazer algum M&A, mas serão menores, estratégicos. E neste momento é mais difícil de haver uma aquisição porque, a 13% [de taxa Selic], qualquer coisa é cara, nossa prioridade é reduzir a alavancagem”, afirma. Hoje, o indicador de relação dívida x Ebitda está em 1,98 vez.

“Fizemos um turnaround importante. Enxugamos a operação e estamos crescendo neste trimestre a 20%” diz.” Em termos de inadimplência, Valério não abre os números. Mas diz que uma boa proxy da situação é a provisão para créditos de liquidação duvidosa (PCLD), que caiu para 11%, ante 13% no ano passado, o que, em sua visão, reflete mais claramente a melhora dos processos da empresa, uma vez que o ambiente econômico ainda “tem seus desafios.”

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“O setor de educação é muito correlacionado com a economia, com o nível de renda”, diz. O desempenho da companhia, que apresenta crescimento em todas as áreas de negócios, a taxas de pelo menos 11%, é um indicador de que há uma recuperação em curso no país. “Estou muito otimista com o ano. É mais difícil olhar o horizonte mais longo, mas com a reestruturação que fizemos na Kroton e o fim da pandemia, o pior ficou para trás”, afirma.

No caso específico da Kroton, a estratégia é focar em produtos híbridos e digitais. As faculdades de medicina, que atendem a cerca de 2.500 alunos hoje, estão crescendo: a empresa tem 540 vagas e, com a maturação, esse número pode chegar a 830 em 2026.

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Outra aposta são os cursos em parceria com hospitais, como a fechada com o A.C.Camargo, referência em tratamento oncológico. São oferecidos cursos de pós-graduação de medicina e em outras áreas da saúde, como nutrição, nas modalidades EAD, híbrido e presencial, que reúnem a expertise de educação da Cogna e a qualificação dos médicos-docentes do A.C.Camargo.

Dentro da Somos, os sistemas de ensino continuam crescendo, especialmente nas soluções complementares, porque as escolas estão cada vez mais investindo em períodos integrais ou contra turnos. Um segmento novo é de vendas de soluções para evolução de aprendizagem para governos estaduais. O primeiro contrato foi fechado com a Secretaria de Educação do Pará. A Somos desenvolveu um método de avaliação de aprendizagem dos alunos e de recuperação em matemática e língua portuguesa.

Para Flavio Conde, head de renda variável da Levante, a Cogna é um exemplo de empresa que “fez a lição de casa” e que consegue garantir seu crescimento de forma independente dos incentivos públicos, como a oferta de linhas do Fies. “É uma empresa que se comunica melhor com o mercado, cresce no ensino médico, caminho que faz todo o sentido”, diz.

O desafio, em sua visão, é aumentar o tíquete médio, especialmente dos oferecidos pela Kroton, que ainda é mais baixo do que o do mercado. E elevar o número de alunos, o que passa também pelo combate à evasão. “Existe um problema estrutural muito sério nesse mercado que é a falta de acesso a cursos de nivelamento, o que é importante para cursos mais técnicos, como os de engenharia e computação”, observa. Nesse sentido, o fato da empresa ter suas fichas distribuídas nas diferentes etapas do processo de educação é considerado um aspecto positivo, afirma Conde.

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Lucinda Pinto

Editora-assistente do Broadcast, da Agência Estado por 11 anos. Em 2010, foi para o Valor Econômico, onde ocupou as funções de editora assistente de Finanças, editora do Valor PRO e repórter especial.