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O retorno de Kimmel e a pressão regulatória sobre as maiores redes dos EUA

Apresentador retoma seu programa enquanto órgão de comunicações do país tem – ou teve – frentes abertas de investigações e aprovações envolvendo ABC, NBS e NBC

Iuri Santos

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A volta ao ar do programa apresentado por Jimmy Kimmel na última terça-feira (23) foi apenas um capítulo em uma disputa que envolve algumas das mais tradicionais empresas de mídia americanas – a ABC, a NBC e a NBS –, o governo dos Estados Unidos e o órgão regulador local, o Federal Communications Comission (FCC, ou Comissão Federal de Comunicações, em tradução livre).

Uma dessas empresas protagonizou a polêmica envolvendo Kimmel na última semana e renovou o movimento na ontem (23). A Nexstar, dona de afiliadas da ABC ao redor de todos os Estados Unidos, decidiu não transmitir o programa e irá substituí-lo por uma programação jornalística.

Junto à Sinclair, outra dona de diversas filiais da ABC, a Nexstar já havia prometido na última semana que não transmitiria o programa “Jimmy Kimmel Live!” antes mesmo da Disney (DISB34), controladora da ABC, decidir pelo cancelamento temporário do programa. As empresas tomaram a decisão após falas de Kimmel sobre o assassinato do ativista e aliado de Donald Trump, Charlie Kirk, em meados de setembro.

“A turma do Maga [movimento Make America Great Again] está desesperada para caracterizar esse garoto que matou Charlie Kirk como qualquer coisa que não seja um deles e fazendo de tudo para tirar proveito político disso”, afirmou em um programa.

A reação da Nexstar não veio apenas depois de comentários de Kimmel, mas também do presidente da FCC, Brendan Carr, ao podcast do conservador Benny Johnson. Aliado ferrenho de Trump, Carr afirmou que empresas como a Disney teriam meios de agir em relação ao caso Kimmel, “ou haverá trabalho adicional para a FCC no futuro”.

O comentário, lido como uma ameaça por críticos, foi feito pelo presidente do órgão que também é responsável por aprovar operações como a aquisição da Tegna pela Nexstar, sua concorrente, avaliado em US$ 6,2 bilhões. O negócio criaria a primeira companhia do setor com alcance de 90% dos lares americanos.

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FCC mobiliza investigações contra grandes redes

Desde que Carr assumiu o cargo, o FCC iniciou uma série de investigações contra companhias do setor de mídia criticadas pela administração Trump. Embora o caso mais recente envolvendo a ABC não tenha lançado uma avaliação formal do órgão contra a empresa, ela já esteve na mira do FCC anteriormente, bem como as outras emissoras que compõem o chamado “big three”, CBS e NBC.

Em março, Carr enviou uma carta ao CEO da Disney, Bob Iger, anunciando a abertura de uma investigação contra a empresa e sua controlada, a ABC sobre a “promoção de indivíduos a formas de discriminação DEI”, em referência à sigla utilizada por programas de diversidade, igualdade e inclusão.

“Como deixei claro, promover formas odiosas de discriminação não pode ser conciliado com nenhuma interpretação razoável da lei federal”, disse em uma carta enviada ao executivo. “O presidente Trump tomou medidas rápidas e decisivas sobre isso. Em sua primeira semana no cargo, o presidente Trump emitiu uma Ordem Executiva que encerrará os programas radicais e dispendiosos de DEI que se espalharam pelo governo federal.”

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Fora da jurisdição do FCC, o próprio presidente dos Estados Unidos processou a ABC, ABC News e o apresentador George Stephanopoulos por difamação em um caso solucionado por um acordo de US$ 15 milhões.

Outra investigação do FCC envolvendo políticas de diversidade e inclusão foi aberta contra a Comcast e a NBCUniversal, donas da NBC News.

A Comcast decidiu, em novembro de 2024, dividir a maior parte da sua operação de televisão a cabo da NBCUniversal em um reposicionamento para um futuro pouco animador nesse segmento. Ainda que improvável, a carta de um analista da New Street Research publicada pelo TheWrap alerta para o risco de que Trump peça a autoridades que “desacelerem ou interfiram de alguma forma na transação, que envolve a MSNBC — uma grande inimiga de Trump — até que Trump receba algum tipo de concessão sobre como a MSNBC cobre notícias no futuro”.

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Em sua rede social, Trump chegou a afirmar que “ABC e NBC [são] fake news, duas das piores e mais enviesadas emissoras da história, me dão 97% de histórias negativas”. O presidente acusou as empresas de serem braços do partido Democrata e sinalizou que, “para muitos, deveriam ter suas licenças revogadas pelo FCC”.

Fechando a trinca das maiores emissoras de televisão do país, a CBS foi alvo de investigações chefiadas pelo FCC devido a uma queixa apresentada por um grupo conservador que alegou “distorção de notícias”. O programa “60 Minutes” com a vice-presidente do governo Biden e candidata à presidência em 2026, Kamala Harris, foi o alvo da crítica.

Donald Trump também processou a Paramount, controladora da CBS, pela mesma entrevista, argumentando que a entrevista veiculada teria sido editada de forma enganosa. O processo foi encerrado em julho após um acordo de US$ 16 milhões. A CBS sempre negou as alegações sobre a entrevista.

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Toda a ofensiva contra a Paramount ocorreu em meio às negociações da companhia para concluir a aquisição da Skydance por US$ 8 bilhões, sob a demanda de aprovação pelo FCC. Carr afirmou em uma coletiva de imprensa que o processo “não tem nada a ver” com a revisão do órgão.

Em um caso que encontra eco no atual cancelamento do programa de Jimmy Kimmel, a CBS anunciou, em junho, o cancelamento do programa “The Late Show With Stephen Colbert”. A justificativa, na época, foi de corte de gastos. A decisão, contudo, gerou polêmica em Hollywood, já que o programa é um dos líderes de audiência no seu horário, com 9% dos espectadores. No mês seguinte, a FCC aprovou a fusão de Paramount e Skydance sob concessões como a criação de um Ombudsman para revisar “reclamações sobre viés” na CBS News e prometendo não implementar iniciativas de DEI.

Iuri Santos

Repórter de inovação e negócios no IM Business, do InfoMoney. Graduado em Jornalismo pela Unesp, já passou também pelo E-Investidor, do Estadão.