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Na sucessão da Vale, Mantega ainda anseia pela cadeira de CEO

Ex-ministro considera que tem contribuições em frentes onde a mineradora enfrenta problemas

Ivo Ribeiro

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No processo que envolve potenciais mudanças no comando da Vale, em decisões a serem tomadas até o final deste mês, o nome de desejo do governo para presidir a mineradora, o do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega nos governos de Lula e Dilma, não se mostra interessado por ser apenas conselheiro da empresa, segundo relato de fontes próximas. O objetivo de Mantega é ter um cargo executivo na companhia. E o de presidente é a sua ambição.

O atual CEO da Vale, Eduardo Bartolomeo, tem contrato em vigor até 31 de maio. Pelas regras do estatuto, o executivo deve ser comunicado com quatro meses de antecedência se será renovado ou se o conselho de administração da empresa decidiu abrir o processo de contratação de um novo executivo. Tanto a renovação quanto a escolha de novo CEO é de competência do colegiado.

Nesta semana, informações publicadas apontaram que o ex-ministro, grande amigo do presidente da República, seria indicado a uma vaga de conselheiro na companhia, ocupando uma das duas posições de conselheiros nomeados pela Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil. A Previ é o maior acionista individual da Vale, com 8,7% do capital.

Segundo relato de uma fonte ao IM Business, essa possibilidade tem pouca chance de prosperar no curto prazo. Primeiro, porque os mandatos dos dois conselheiros do fundo vigoram até 25 de abril de 2025. O segundo ponto é que, mesmo que houvesse a renúncia de um deles, teria de ocorrer um processo interno na fundação para formação de uma chapa e escolha e aprovação do novo nome. Isso poderia levar meses.

As duas vagas da Previ no colegiado da Vale são ocupadas pelo ex-presidente da fundação, Daniel Stieler, que é chairman no conselho da mineradora, e por João Luiz Fukunaga, atual presidente da entidade de previdência ligada ao BB.

O governo do presidente Lula já manifestou desde o ano passado que gostaria de ter Guido Mantega na presidência executiva da mineradora. E o ex-ministro da Fazenda, também ex-Planejamento e ex-presidente do BNDES, tem reforçado a pessoas próximas que não quer ser copiloto na Vale, o que enxerga na função de conselheiro.

O colegiado é composto por 13 membros indicados por acionistas de referência, um representante dos empregados e oito independentes. Os acionistas de referência da companhia são Previ, Bradespar e Mitsui, que estão desde a privatização da empresa em 1997, com quatro representantes. Outros acionistas relevantes são o BlackRock e o grupo Cosan.

O conglomerado de Rubens Ometto é entrante recente no capital da Vale – adquiriu as ações em 2022 – e atualmente e detém em torno 4,9% do capital da empresa. No ano passado, a Cosan indicou Luís Henrique Guimarães, que deixou o cargo de CEO do grupo para ficar como conselheiro em empresas controladas e investidas, caso da mineradora.

Mantega considera que tem contribuições a trazer para a Vale, em várias frentes onde a mineradora enfrenta problemas. Por exemplo, concessão de licenças ambientais para atuais e novos projetos, renegociação das renovações de contratos de ferrovias (os últimos feitos no governo federal anterior estão sendo questionados no Ministério dos Transportes) e também nas negociações de reparação de danos ambientais e sociais causados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Os valores colocados na mesa são de dezenas de bilhões de reais. As discussões envolvem órgãos da Justiça, AGU, ministérios públicos, representantes dos estados de Minas e Espírito Santo e a empresas (Vale, BHP e Samarco).

Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda: objetivo é ‘pilotar’ a maior mineradora do país

Da sua parte, o governo busca mais atenção da Vale – um relacionamento mais próximo, o que não teria ocorrido desde que Lula assumiu o governo por parte de Bartolomeo e sua diretoria executiva, segundo as fontes próximas ao governo. Seriam iniciativas em projetos sociais e em questões ambientais, como a dos garimpos ilegais na Amazônia, além de investimentos nos principais estados de suas operações: Minas Gerais, Pará e Maranhão. A empresa tem afirmado que há uma participação importante em várias áreas nas regiões de sua atuação.

Mas a atitude do CEO, não fazendo nenhuma inciativa de marcar reunião com Lula e/ou outros integrantes do governo, principalmente nos primeiros meses de 2023, criou um ambiente hostil do governo com o executivo. Por isso, o contra-ataque de Lula, anunciando que gostaria de ter no comando da mineradora o seu ex-ministro e amigo. “Faltou habilidade política da parte dele, o que, agora, ficou muito em cima da hora para reverter”, afirmou uma outra fonte.

O fato é que, a poucos dias de se decidir o futuro de Bartolomeo na gestão da empresa, após quase cinco anos no cargo, três grupos estão envolvidos nesse processo, carregado de ruídos e contrainformações. O chamado “núcleo duro” de acionistas (Previ, Bradespar e Mitsui, com Cosan correndo em paralelo; o governo federal (diga-se Lula) e a própria diretoria executiva, liderada pelo CEO com vice-presidentes e outros diretores, trabalhando num esforço de continuidade na gestão.

Em tempo: Bartolomeo manifestou em entrevistas, durante apresentações a investidores em dezembro, seu desejo de continuar à frente da Vale, onde acredita que pode concluir um plano de trabalho que está desenhado até 2026, pelo qual a empresa atingiria novas e importantes metas de crescimento nesse período nos seus dois grandes negócios: mineração de ferro e metais não ferrosos (cobre e níquel).

Nesse processo, surgiram as informações de Mantega ir para o conselho e Bartolomeo ter um prazo extra, de um ano de mandato. Esse caminho parece não ter caído bem junto a alguns conselheiros. Para fontes, esse arranjo só traria benefícios ao próprio executivo e sua diretoria, mas não à companhia, que requer uma gestão estratégica definida. Nessa composição, segundo informações, Luís Henrique Guimarães, da Cosan, seria nomeado vice-presidente da Vale, abrindo mão do cargo de conselheiro. “Não é a melhor solução para a Vale, talvez para os interesses de algumas pessoas”, avalia um grande conhecedor da companhia.

Hoje, diz uma fonte próxima do governo, a 12 dias do fim de janeiro, o que está na mesa do colegiado da Vale é uma questão de competência dos conselheiros: renovar ou não renovar o contrato de Bartolomeo, que expira no fim de maio. Tudo mais que se divulga, afirma, são articulações na tentativa de tumultuar o processo frente ao receio de os acionistas terem de aceitar a nomeação de Mantega. Para copiloto ele é bem-vindo, acrescenta. “mas quer é ser piloto dessa companhia”.

Se o conselho da Vale decidir pela não renovação do contrato do atual CEO, o próximo passo é iniciar, com uma empresa especializada de consultoria em headhuntig, a busca de executivos com perfil para assumir a mineradora e daí tirar uma lista tríplice que será encaminhada ao conselho de administração. O colegiado teria pelo menos três meses – fevereiro, março e abril – para ter esse processo concluído e anunciar logo após a assembleia geral de acionistas, marcada para 26 de abril.

Eduardo Bartolomeo assumiu a presidência da empresa em 19 de abril de 2019 com o afastamento de Fábio Schvartsman em decorrência da crise vivida pelo desastre da barragem de rejeitos da mineração de ferro em Brumadinho, Minas Gerais. O rompimento, em 25 de janeiro daquele ano, causou danos sócios-econômicos e ambientais e a morte de 270 pessoas. A Vale teve de firmar um acordo de reparação de R$ 38 bilhões com o governo mineiro e outras autoridades. Antes, ele foi diretor executivo de Logística, Operações Integradas de Bulk Commodities e de Metais Básicos no Canada, numa carreira de cerca de 15 anos na companhia.

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