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Grandes bancos migram para a nuvem e provedores disputam uma fatia do bolo

Movimento de transferência de sistemas para provedores de cloud toma tração em 2024

Iuri Santos

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A migração de sistemas tradicionais para a nuvem está no topo da pauta das instituições financeiras em 2024. De olho em ganhos de eficiência, escalabilidade e inovação, bancos tradicionais estão transferindo décadas de dados e componentes digitais acumulados para a infraestrutura de provedores de cloud. Big techs como Google, Microsoft e Oracle, na outra ponta, dão atenção especial à volumosa demanda por processamento dessas companhias.

“Há muito tempo as instituições financeiras não se questionam se elas têm que sair dessa solução, porque elas sabem que têm que fazer isso. A grande dúvida é quando elas vão enfrentar esse movimento desafiador”, explica Willer Marcondes, sócio da consultoria e auditoria PwC. No Brasil, esse momento chegou para os grandes bancos, ganhou tração em 2023 e segue como um dos principais focos dos setores de tecnologia em 2024.

Dados da pesquisa Tecnologia Bancária 2023, desenvolvida pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) com base no ano de 2022, mostram que 67% das instituições respondentes já migraram ao menos alguma de suas aplicações para nuvens privadas ou públicas. Mas ainda há um grande caminho a percorrer no Brasil e a nível mundial. Embora já tenham migrado parte das suas informações, em diversos bancos o total transferido para a nuvem ainda não ultrapassa 50% dos seus sistemas. Em outra pesquisa, desta vez da consultoria Accenture, 82% dos bancos entrevistados mundialmente responderam que planejam estar com mais de 50% dos seus processos na nuvem em 10 anos. 

No centro de todo esse esforço estão os chamados “legados”, sistemas e estruturas mantidos pelas instituições financeiras desde a década de 1980 e responsáveis por uma grande carga de processos digitais dentro das companhias, desde motores de crédito até funções administrativas.

Ocorre que os legados são grandes códigos construídos em bloco com todas as funções que o sistema precisa — daí o nome que se dá na indústria: monólitos. O problema dos monólitos é que, para cada mudança em um componente do código, existe o risco de se afetar outro, aumentando a demanda por testes e o tempo de implementação. Todo esse sistema fica hospedado em computadores com grande capacidade, chamados de mainframe.

Ao transferir seus sistemas para a nuvem, onde o modelo de programação ocorre por uma lógica de componentes, a companhia consegue implementar inovações de forma mais ágil. Em uma parceria com o Google Cloud, o BV transferiu todas as operações de Banco Digital, a plataforma de Banking as a Service (BaaS) e o PIX para a nuvem. Como resultado, a instituição reduziu o tempo médio entre a concepção e implementação de projetos de tecnologia em 60%.

“É como se a nuvem fosse um grande template. E aí com esses templates você diminui o risco de cada um dos desenvolvedores fazer alguma coisa não padronizada”, diz Fabio Jabur, superintendente de Dados do banco BV. O especialista explica que a manutenção de sistemas na nuvem permite ao time de tecnologia, muitas vezes, utilizar componentes pré-configurados, o que garante ainda mais produtividade.

Além dos ganhos em eficiência de desenvolvimento, os bancos também são atraídos pela enorme capacidade de escala promovida pela nuvem. Empresas como Microsoft, Google, Amazon e Oracle são conhecidas como “hyperscalers” (hiperescaladores, em tradução livre), devido à capacidade de processamento virtualmente ilimitado oferecida aos clientes — que pagam conforme à sua própria demanda computacional. Por exemplo: no caso de um banco, ao migrar para a nuvem, não há necessidade de expandir seus servidores próprios caso necessite dobrar o número de operações feitas em um dia. Pelo contrário, quanto maior a migração, menor a necessidade de hardware proprietário.

“A teoria diz que deve-se colocar na nuvem aquelas aplicações em que o processamento varia muito durante o dia. Um bom exemplo são os nossos canais de atendimento. No pico, os canais chegam a ter 48 vezes mais uso do que nos momentos menos movimentados da noite”, diz Luis Bittencourt, diretor de Tecnologia e Inovação do Santander Brasil. “Vale usar um provedor externo porque, se comprasse infraestrutura, ela ficaria ociosa durante a noite”, explica.

O Santander já migrou 50% do seu mainframe para a nuvem, dividido entre a Azure, da Microsoft, e a AWS, da Amazon. Além dos provedores de nuvem pública, a instituição também desenvolveu um sistema de nuvem privada para fazer as transferências. Como há um gasto com software cobrado pelos hyperscalers na cloud pública, a companhia consegue ponderar onde vale mais a pena manter seus sistemas. A depender de quais deles são migrados, o banco reduz os custos operacionais de 30% a 70%.

A “corrida do ouro” dos hyperscalers

Bancos enfrentam, no entanto, alguns problemas ao migrar seus sistemas. O principal deles é a duplicidade de custos. Como os sistemas não são migrados totalmente para um provedor de nuvem, a instituição precisa mantê-lo paralelamente também na estrutura de legado durante o processo. No caso do Santander, isso tem significado aproximadamente 10% de custos duplicados associados aos sistemas em migração.

Com uma demanda por armazenamento e processamento similar à de indústrias que movimentam grandes volumes de dados e dependem de boa segurança digital, como varejo, telecomunicações, setor público e saúde, os contratos com bancos têm recebido uma atenção especial na disputa das big techs por clientes – o que uma fonte descreve como uma verdadeira “corrida do ouro”.

Com áreas dedicadas especificamente à indústria financeira, as big techs têm subsidiado custos duplicados, desenvolvido serviços específicos de migração para os bancos e custeado investimentos em pesquisas de viabilidade para as instituições financeiras. 

Vilela Fabri, a líder de financial services em Google Cloud Brasil diz que a empresa “trabalha com cada um dos seus clientes para adequar os custos da sua solução e dos respectivos projetos, visando ser competitivo, minimizar a redundância de custos e também alinhar seu fluxo financeiro ao momento de cada cliente”.

Na Microsoft, até mesmo o time de finanças pode entrar em algumas discussões de desenho de negócio junto a instituições financeiras. “É um padrão, de fato há duplicidade de custos, mas nós visamos dar benefícios. Quando necessário, subsidiá-los”, pontua Stéfany Mazon, líder de Azure na Microsoft Brasil.

A empresa é uma das líderes mundiais em serviços de nuvem e, no Brasil, já possui servidores em duas regiões para aumentar a capacidade de resiliência dos clientes em caso de instabilidade, além de reduzir a latência — o custo para hospedar no Brasil, no entanto, é até 40% mais alto que em países como os Estados Unidos, em que há uma grande oferta de servidores.

Os bancos precisam de ter mais de um servidor devido às suas operações críticas. No caso da Microsoft, a própria empresa dispõe de duas regiões no Brasil, mas uma alternativa adotada por instituições financeiras consultadas tem sido o multicloud entre concorrentes — isso é, ter a redundância dos seus serviços em duas empresas diferentes. 

“Existe hoje um movimento forte, e aqui no Brasil, em que temos um sistema muito sofisticado, os bancos vêm sendo expoentes, do multicloud. E não é no sentido de ter parte do seu sistema em uma nuvem e parte na outra. É, de forma transparente, conseguir rodar toda a carga para outro provedor em caso de problema”, explica Carla Moraes, vice-presidente de vendas da Oracle.

Avanços no desenvolvimento de soluções de inteligência artificial generativa adicionam um tempero nessa disputa por mercado, já que a demanda de processamento para treinar um modelo de linguagem de IA é economicamente viável quase exclusivamente por meio de hyperscalers — que também são fornecedores de soluções desse tipo.

O boom das IAs generativas mexeu com os planos de migração de algumas empresas e, segundo relatam algumas delas, podem impactar o ritmo de migração para nuvem e até a quantidade de sistemas que elas desejam transferir. A princípio, as iniciativas envolvendo IA generativa em instituições financeiras consultadas ainda estão caminhando, em aplicações como ferramentas para desenvolvedores ganharem produtividade ou análise de dados de crédito.

Diante desse cenário, bancos nativos digitais, que sempre atuaram na nuvem, podem ter uma facilidade na adoção de ferramentas de IA generativa. Na XP, por exemplo, as estruturas de legado são todas fruto das aquisições feitas pela companhia, sendo todo o resto nativo da nuvem. A empresa já utiliza IA generativa para extrair informações de documentos, por exemplo, com uma assertividade de 98%. “Nós construímos uma gama de dados sobre produtos dos nossos clientes e metadados de produtos internos que nos capacitou a criar ferramentas que realizam desenvolvimento de software, por exemplo”, diz Gabriel Santos, vice-presidente de tecnologia da companhia.

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