Vance ou Rubio? Trump especula sobre sucessor enquanto “garotos” ganham espaço

Vice-presidente dos EUA JD Vance e secretário de Estado Marco Rubio ganham projeção e alimentam especulações sobre quem deve disputar a indicação presidencial em 2028

Katie Rogers The New York Times

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WASHINGTON — De vez em quando, em conversas com assessores no Salão Oval, com amigos durante o jantar ou no terraço de Mar-a-Lago, o presidente Donald Trump faz uma pausa e divaga em voz alta sobre um tema que vem fascinando discretamente o Partido Republicano.

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Segundo várias pessoas próximas ao presidente, Trump pergunta a conselheiros quem eles preferem e, com frequência, comenta que poderia simplesmente colocar o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio juntos na mesma chapa presidencial em 2028.

Assessores de Trump dizem que ele está apenas se divertindo ao “fazer pesquisa” informal e que 2028 está longe de ser prioridade para ele. Ainda assim, é difícil para Trump ignorar que, recentemente, os dois homens a quem ele se refere como “garotos” vêm ganhando cada vez mais visibilidade à medida que se aproximam as eleições de meio de mandato.

Na semana passada, Rubio apareceu na sala de imprensa da Casa Branca, respondendo com simpatia a perguntas sobre a guerra no Irã — conteúdo que sua equipe depois transformou em um vídeo com cara de peça de campanha. Em seguida, ele viajou à Itália, surgiu ao lado do papa Leão XIV e levou como presente uma bola de futebol americano de cristal (“Uau, certo”, reagiu Leão, um agostiniano que fez voto de pobreza, a Rubio, também católico). Rubio também se encontrou com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que, assim como o papa, foi alvo de críticas de Trump por se opor à guerra. Depois disso, Rubio seguirá para a China com o presidente.

Enquanto Rubio se esforçava para cativar repórteres em Washington, a operação política da Casa Branca enviou Vance a uma fábrica em Des Moines, Iowa, para apoiar um deputado republicano vulnerável, o deputado Zach Nunn. No palco, Vance engatou um ataque bem ensaiado contra as políticas do Partido Democrata e associou sua aversão a elas às próprias mudanças em sua identidade política ao longo da vida.

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“Parte o coração de um garoto que veio de uma família de democratas sindicalistas perceber que, hoje em dia, os democratas parecem se importar mais com transição de gênero do que com você ficar com uma parte maior do seu suado dinheiro”, disse Vance à plateia.

Essas aparições paralelas, carregadas de frases com potencial viral, alimentaram novas especulações sobre se Rubio poderia, em algum momento, desafiar Vance — considerado o favorito — em uma disputa pela indicação republicana à presidência. Segundo várias pessoas próximas a ambos, Vance e Rubio, que são amigos, não querem ser vistos como rivais diretos na corrida de 2028. Outros afirmam que é cedo demais para saber como a disputa vai se desenhar, antes de ver como o Partido Republicano sairá nas eleições de meio de mandato deste ano.

“Os dois entendem o momento, certo?”, disse o senador Eric Schmitt, republicano do Missouri, em entrevista neste ano, sobre a relação entre Vance e Rubio. “É um retorno histórico de um presidente que estava fora do cargo, que voltou, e de uma coalizão única que, você sabe, tornou isso possível.”

Ele acrescentou: “Acho que isso os impulsiona a trabalhar juntos, além da amizade pessoal que têm.”

A Casa Branca não comentou para esta reportagem.

Pelos relatos, os dois de fato se dão bem. Não é incomum vê-los rindo juntos em eventos oficiais. Quando estão lado a lado, conversam sobre esportes e família. Ambos também estão bem conscientes da movimentação em torno de suas imagens públicas e de seus possíveis futuros.

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Rubio, que atua como conselheiro de segurança nacional e chegou a exercer quase por um ano o papel de “arquivista-chefe”, além de ser o principal diplomata do país, costuma mostrar no celular a amigos e colegas os memes que circulam sobre ele — especialmente os que brincam com o fato de ele acumular vários cargos, segundo uma pessoa que já presenciou a cena.

Os memes são abundantes e imaginam Rubio em diversos novos papéis, dependendo das decisões de Trump. Na internet, ele já foi escalado como Kristi Noem, a ex-secretária de Segurança Interna; como presidente da Venezuela; e, como Trump mandou o Pentágono divulgar arquivos sobre OVNIs, como Elliott, o garoto do filme “E.T.”.

Aliados de Rubio dizem que essa onipresença é um sinal de que ele poderia ampliar a base do movimento MAGA para além do eleitorado mais fervoroso de Trump, num momento em que o Partido Republicano enfrenta fortes ventos contrários na economia, na condução da guerra e nas táticas agressivas para conter a imigração.

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“Ele é um político capaz de atrair muitos republicanos que apoiaram Trump, mas nunca ficaram exatamente empolgados com ele”, disse Whit Ayres, pesquisador republicano que trabalhou na campanha de Rubio ao Senado em 2010. “Ele é muito bom, tanto em inglês quanto em espanhol, em construir um argumento e apresentá-lo de forma persuasiva aos eleitores.”

Rubio também já afirmou que sairia de cena se Vance decidisse concorrer: “Se JD Vance disputar a Presidência, ele será o nosso candidato, e eu vou ser uma das primeiras pessoas a apoiá-lo”, disse à revista Vanity Fair em entrevista no ano passado.

De todo modo, o favorito para a indicação continua sendo Vance. Ele é impopular, com taxa de aprovação em 35% na pesquisa mais recente do Washington Post/ABC News/Ipsos. Mas, segundo um levantamento do Pew Research Center deste ano, Vance é bem mais conhecido pelos eleitores americanos do que a maioria das outras figuras do governo Trump — apenas o próprio Trump e Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde e Serviços Humanos, são mais familiares ao público.

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De acordo com o Pew, 75% dos eleitores republicanos têm uma visão favorável de Vance, ante 64% que têm uma visão favorável de Rubio. E 19% dos eleitores republicanos dizem nunca ter ouvido falar do secretário de Estado.

Ainda assim, há sinais de que parte desse público está cada vez mais curiosa sobre Rubio. Sarah Longwell, estrategista republicana anti-Trump, escreveu na revista The Atlantic, em abril, que eleitores se dizem impressionados com a capacidade de Rubio de acumular vários papéis ao mesmo tempo. Em outras palavras, todos aqueles memes podem estar funcionando.

“A primeira linha de raciocínio entre os fãs de Rubio é mais ou menos esta: como ele tem tantos cargos diferentes, ele deve ser competente”, escreveu Longwell, com base nos grupos focais semanais com eleitores que ela conduz. “Outro motivo pelo qual os eleitores parecem gostar de Rubio: eles o enxergam como o ‘adulto na sala’.”

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Mas Vance, herdeiro direto da base política do presidente, é o único integrante do governo que consegue fazer campanha eleitoral enquanto ajuda Trump a governar. Em Iowa, o vice-presidente se encontrou reservadamente com líderes políticos influentes, incluindo Jeff Kaufmann, histórico presidente do partido no estado.

Mesmo tendo se manifestado contra a decisão de Trump de atacar o Irã, Vance agora precisa defender o presidente, que tomou uma medida profundamente impopular com os eleitores e que contribuiu para a alta dos preços de energia. Durante a visita à fábrica em Des Moines, ele lembrou que dois moradores de Iowa foram mortos por um ataque de drone iraniano a uma base militar no Kuwait, em março.

Outro fator complicador para os dois — e, na verdade, para qualquer um que decida concorrer — é o próprio Trump. Nunca avesso aos holofotes, Trump demonstrou, ainda na época do programa “O Aprendiz”, certa predileção por sentar-se atrás de uma mesa enquanto concorrentes se sabotavam mutuamente na disputa por um prêmio.

“O presidente, compreensivelmente, espera lealdade total de um vice-presidente”, disse Marc Short, que foi chefe de gabinete de Mike Pence, antecessor de Vance. “Mas, pela minha experiência, ele não costuma preparar seu vice para um sucesso político depois.”

c.2026 The New York Times Company