Uma nova era dos carros super-híbridos está chegando e busca autonomia longa

A proposta é unir o melhor dos dois mundos: condução silenciosa, aceleração instantânea e menor custo operacional

Tom Voelk The New York Times

Foto: Unsplash
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O futuro está sempre a caminho, mesmo que, no mundo automotivo recentemente, ele não tenha sido exatamente pontual. Algumas previsões indicavam que a frota americana seria majoritariamente elétrica até 2035. Esse cronograma agressivo foi adiado por uma combinação de preços elevados, desinformação e mudanças bruscas no cenário político.

Anos de planejamento das montadoras foram descartados, com dezenas de bilhões de dólares sendo rapidamente baixados pelos departamentos contábeis. Ainda assim, a maioria das fabricantes acredita que a eletrificação é inevitável. A próxima fase provavelmente incluirá os veículos elétricos de autonomia estendida, ou EREVs, na sigla em inglês.

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Eles fazem especialmente sentido na América do Norte. Para entender por quê, é melhor conhecer as siglas da eletrificação.

HEVs (veículos híbridos elétricos)

São os híbridos clássicos, tendo o Toyota Prius como principal referência. Em essência, um motor a gasolina é combinado com motores elétricos alimentados por uma pequena bateria. Sem tomada para recarga, a energia é reposta por meio da frenagem regenerativa e do deslocamento por inércia. A potência é enviada às rodas por uma transmissão — a menos que seja o sistema da Honda ou o futuro e-Power da Nissan, nos quais o motor aciona um gerador e os motores elétricos movem as rodas.

BEVs (veículos elétricos a bateria)

Pense na Tesla, embora hoje a maioria das montadoras já ofereça carros elétricos. Exceto pelo Taycan da Porsche, esses veículos dispensam transmissões de múltiplas marchas e prometem menor necessidade de manutenção — sem troca de óleo e com menor desgaste dos freios. Eles oferecem a conveniência de abastecer em casa, funcionamento silencioso e aceleração impressionante.

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Mas as grandes baterias necessárias para atingir os cerca de 480 quilômetros de autonomia considerados necessários pelas montadoras para reduzir a ansiedade dos consumidores são conjuntos caros de lítio e cobalto. Ainda assim, estatisticamente, a maioria dos americanos percorre em média apenas 64 quilômetros por dia. Vale lembrar, porém, que esses veículos não são ideais para reboque: peso e aerodinâmica podem reduzir a autonomia pela metade.

PHEVs (veículos híbridos elétricos plug-in)

Pense no saudoso Chevrolet Volt. Em relação aos híbridos tradicionais, os PHEVs adicionam uma tomada de recarga, baterias maiores e motores elétricos mais potentes. Eles circulam pela cidade como veículos elétricos e passam de forma imperceptível para o modo híbrido quando a bateria se esgota.

Muitos desses veículos conseguem realizar todo o deslocamento diário usando apenas eletricidade, mas as autonomias variam. O Toyota RAV4 PHEV 2026 tem autonomia elétrica de até 84 quilômetros. Já a Ferrari 849 Testarossa, de US$ 565 mil, consegue percorrer cerca de 16 quilômetros (embora com muito mais entusiasmo).

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Esses carros podem reduzir drasticamente o consumo de combustível — minha esposa normalmente abastece o tanque de seu Volt apenas três vezes por ano. Porém, há evidências de que alguns proprietários nunca conectam o veículo à tomada, eliminando o ganho de eficiência pretendido.

Agora, os EREVs

Os elétricos de autonomia estendida são muito parecidos com os híbridos plug-in, mas apresentam diferenças importantes. As baterias seguem a lógica do “tamanho ideal”: maiores que as dos plug-ins e menores que as dos elétricos puros. A autonomia significativa da bateria permite que a maior parte dos deslocamentos seja feita por motores elétricos potentes e refinados.

O motor a combustão e o gerador entram em funcionamento com menos frequência e apenas para produzir eletricidade. Não há transmissão: as rodas são movimentadas exclusivamente por motores elétricos.

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Como as baterias representam cerca de 40% do custo de um carro elétrico, conjuntos menores geram economias relevantes. O motor funciona sempre em sua faixa de máxima eficiência, o que favorece a confiabilidade. A manutenção é reduzida, mas os EREVs ainda exigem trocas de óleo e são mais complexos do que carros totalmente elétricos. Inicialmente, também custarão mais do que veículos a gasolina e híbridos convencionais.

Esses carros não são novidade. O inovador BMW i3 elétrico podia ser equipado com um extensor de autonomia. Porém, com a bateria descarregada, o barulhento motor bicilíndrico tinha dificuldade para gerar eletricidade suficiente em situações exigentes, como viagens em rodovias ou subidas íngremes.

Além disso, o tanque minúsculo limitava a autonomia. As versões modernas devem melhorar esse comportamento, mas operar exclusivamente com o gerador pode reduzir o desempenho. Esse fator, somado ao menor custo da eletricidade, deve incentivar os proprietários a recarregarem o veículo na tomada.

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Os avanços nas baterias podem transformar esses super-híbridos em uma tecnologia de transição. Para muitos motoristas, um veículo totalmente elétrico já faz bastante sentido, oferecendo refinamento, conveniência e custos operacionais mais baixos. Além disso, a infraestrutura de recarga pública está melhorando rapidamente.

Mas os americanos, que normalmente dirigem distâncias muito maiores do que asiáticos e europeus, são movidos pela mentalidade do “e se eu precisar?”. Para quem deseja a resposta imediata e suave da propulsão elétrica, junto com a tranquilidade de saber que há gasolina disponível, os EREVs não poderiam chegar em melhor hora.

O Grupo Hyundai Motor, incluindo Kia e Genesis, já sinalizou que pretende lançar elétricos de autonomia estendida. Há rumores de que a Nissan ressuscitará o SUV XTerra com esse sistema. Já a gigante das transmissões ZF Friedrichshafen deve fornecer sistemas completos de extensão de autonomia para montadoras ainda este ano, reduzindo o tempo de desenvolvimento.

Ford, Jeep, Ram e a ressuscitada marca Scout, da Volkswagen, já fizeram anúncios concretos sobre EREVs. Reparou que todas são marcas ligadas a picapes e utilitários? Não é coincidência. Essa tecnologia é particularmente adequada para picapes e SUVs. Seu porte maior acomoda facilmente os componentes adicionais.

A tecnologia também resolve os problemas de reboque. Proprietários da Ford F-150 Lightning, da Rivian R1T e da Tesla Cybertruck sabem que transportar cargas pesadas destrói a autonomia, e poucas estações públicas de recarga foram projetadas pensando em reboques.

Os EREVs não dependem de carregadores. Eles podem operar de forma silenciosa, eficiente e até econômica usando eletricidade durante a semana, e recorrer à gasolina quando necessário para não se tornarem um peso morto ao rebocar um barco Boston Whaler até a Baía de Tampa. O estresse das viagens longas também desaparece.

Os primeiros elétricos de autonomia estendida a chegar às concessionárias devem ser o Jeep Grand Wagoneer REEV e a Ram 1500 REV, ambos da Stellantis.

Previstas para o fim de 2026, essas caminhonetes com chassi sobre longarinas utilizam um motor V6 acoplado a um gerador de 130 quilowatts, que trabalha em conjunto com uma bateria de 92 quilowatts-hora. Essa configuração deve eliminar a perda de desempenho tão odiada pelos proprietários do BMW i3.

Micky Bly, vice-presidente sênior de engenharia de sistemas de propulsão da Stellantis, afirmou que “nosso sistema de propulsão para veículos elétricos com extensor de autonomia oferece uma experiência premium, com entrega de potência suave e instantânea e capacidade de reboque, em uma configuração que ajuda a reduzir o tamanho, o peso e o custo da bateria”, em comparação com um carro totalmente elétrico.

A Stellantis afirma que o veículo pode percorrer 233 quilômetros apenas com a bateria. A autonomia total? Bem mais de 960 quilômetros. Os 647 cavalos de potência desta Ram garantem capacidade de carga de 1.179 quilos e capacidade de reboque de até 7 toneladas.

Ainda que muitas vezes sejam comprados apenas pelo que prometem oferecer, esses veículos são pensados para viagens longas, reboque de trailers e aventuras fora de estrada (afinal, não existem Superchargers na trilha Rubicon).

Os adeptos da autossuficiência também devem prestar atenção: o sistema pode servir como fonte de energia de emergência para a residência em caso de queda da rede elétrica.

Após suspender a produção da versão totalmente elétrica da F-150 Lightning, a Ford usará o mesmo nome em um modelo de autonomia estendida.

Doug Field, diretor de veículos elétricos, digital e design da empresa, declarou: “Nossa Lightning EREV de próxima geração é tão revolucionária quanto a Lightning BEV. Ela mantém tudo o que os clientes adoram — entrega de potência 100% elétrica e aceleração de menos de cinco segundos — e acrescenta autonomia estimada superior a 1.120 quilômetros, além de capacidade de reboque comparável à de uma locomotiva.”

A expectativa mais provável é que ela chegue ao mercado no início de 2028, quando a próxima geração da F-150 deverá ser lançada.

Sabe-se menos sobre a tecnologia da Scout Motors, mas a empresa projeta que seu veículo com chassi sobre longarinas e eixo traseiro rígido permitirá capacidade de reboque de até 4.536 quilos na futura picape Terra e de 3.175 quilos no SUV Traveler.

A aceleração de zero a 100 km/h pode ser feita em apenas 3,5 segundos. A autonomia esperada é de 563 quilômetros para a versão totalmente elétrica e de 805 quilômetros para o sistema EREV equipado com motor de quatro cilindros, apelidado de “Harvester”.

c.2026 The New York Times Company