Um ano de Trump: o custo já é grande demais para ser mensurado

Um observador estrangeiro que fizesse um balanço da situação dos Estados Unidos poderia descrever como uma nação à beira de uma guerra civil

The New York Times M. Gessen

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Um ano após o início do segundo mandato de Donald Trump, amigos que vivem fora dos Estados Unidos continuam a demonstrar choque com as notícias que chegam deste país, frequentemente misturada a uma preocupação com a minha segurança. Dou de ombros. Mesmo nós, que vivemos nos Estados Unidos e nos opomos às ações desta administração, temos uma certa tendência a normalizá-las.

Na terça-feira (13), vi um comunicado de imprensa na minha caixa de entrada: um novo protocolo no processo judicial contra a construção do gigantesco centro de detenção de imigrantes na Flórida. Eu — como muitos outros americanos, ao que parece — quase me esquecera de Alcatraz do Pântano.

Na Europa, a atenção tem sido inabalável. Jornalistas escrevem reportagens e produzem documentários sobre a América construir um campo de concentração. Por aqui, simplesmente nos tornamos um país que constrói campos de concentração. É apenas uma das mudanças que absorvemos no último ano.

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Tornamo-nos um país em que pessoas são “desaparecidas” por uma força paramilitar que as caça em seus apartamentos, em ruas de grandes cidades e estradas do interior, e até mesmo nos tribunais. Há menos de um ano, vídeos de prisões realizadas pela Imigração e Alfândega (ICE) viralizavam, e publicações nas redes sociais sobre avistamentos da ICE nos causavam arrepios.

Agora, até mesmo as detenções de maior repercussão sumiram do nosso campo de visão: Quem foi solto? Quem foi deportado? Quem continua desaparecido?

Quem consegue acompanhar?

Tornamo-nos um país em que uma pessoa pode ser sumariamente executada em público por protestar contra essa força paramilitar. Depois que um agente da ICE matou Renee Good com três tiros à queima-roupa em Minneapolis, em 7 de janeiro, Trump, o vice-presidente JD Vance e outros funcionários federais afirmaram que o disparo foi justificado como um ato de legítima defesa (os vídeos mostram o contrário) e apontaram a suposta vinculação de Good a grupos de esquerda — aparentemente confirmando que, na América, protestar agora é um ato punível com a morte.

Tornamo-nos um país cujo governo federal envia forças militares e paramilitares às ruas de suas principais cidades, aterrorizando os moradores sob o pretexto de protegê-los.

Um observador estrangeiro que fizesse um balanço da situação dos Estados Unidos poderia nos descrever como uma nação à beira de uma guerra civil. Mas mal conseguimos manter atualizada a lista de cidades em que tropas estiveram ou ainda estão nas ruas: Washington, D.C.; Los Angeles; Chicago; Portland, Oregon; Memphis, Tennessee; Nova Orleans. O número de agentes federais armados enviados a Minneapolis pode agora ser cinco vezes maior que o efetivo da própria polícia da cidade.

Tornamo-nos um país cujo governo ataca suas universidades, corta verbas de pesquisa, reverte avanços científicos, agride museus e esvazia instituições culturais. Poucos desses ataques — conduzidos em plena luz do dia, anunciados em decretos presidenciais, celebrados em discursos e exibidos em enormes letras metálicas — encontram resistência significativa. Estamos nos tornando mais ignorantes.

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Tornamo-nos um país que, de forma ostensiva, despreza as leis internacionais. Nossas Forças Armadas bombardeiam um país diferente a cada poucas semanas, cometem assassinatos em alto-mar e removem pela força líderes políticos estrangeiros. Nosso governo ameaça o mundo, inclusive nossos aliados, com suas ambições imperialistas.

Somos um país governado por um megalomaníaco cujas opiniões são abertamente odiosas e orgulhosamente ignorantes, cuja avareza não conhece limites e cuja reivindicação de poder é absoluta. Líderes estrangeiros tentam apaziguá-lo com lisonjas e conquistar seu favor com presentes. Raramente isso serve para conter seu apetite ou sequer atrair sua atenção, mas parece ser tudo o que lhes resta fazer.

É certo que alguns elementos da nossa condição atual são anteriores a Trump. Este país há muito mantém o maior sistema prisional do mundo, e um dos menos humanos do Ocidente; foi ele que forneceu a base para Alcatraz do Pântano e outros campos de concentração para imigrantes. Execuções de pessoas negras pela polícia há muito se configuram como padrão.

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As origens da ICE e de sua agência-mãe, o Departamento de Segurança Interna, concebido como uma força de polícia secreta, remontam ao 11 de Setembro. As guerras culturais datam de pelo menos os anos 1980. E o desrespeito ao direito internacional, o papel de “polícia mundial” fortemente armada, tem sido uma longa tradição bipartidária — assim como políticas migratórias cada vez mais hostis e restritivas. A própria Presidência vem se tornando menos transparente e mais poderosa há, no mínimo, duas décadas.

Não estou argumentando que aquilo em que nos tornamos neste ano seja apenas “mais do mesmo”. Pouca gente ainda sustenta esse argumento. Mas a verdade é que, embora sejamos ensinados a pensar a história como uma sequência de pontos de virada definitivos, com datas específicas — guerras, revoluções, assassinatos, declarações de independência e decretos proclamando lei marcial — nenhuma transformação é instantânea ou total. Esta administração Trump se move em velocidade vertiginosa. E, ainda assim, não quebrou tudo — ainda.

Ainda somos um país com uma sociedade civil robusta. Advogados têm enfrentado a administração nos tribunais. A população se mobilizou contra a usurpação de poder por Trump e organizou redes para proteger seus vizinhos da ICE. Mas os ataques de Trump às universidades, sua ofensiva contra o Judiciário e suas ameaças a organizações sem fins lucrativos e fundações filantrópicas já alteraram a forma como a sociedade civil funciona.

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As universidades e as fundações já não são o que eram há um ano, e o mesmo vale para o Judiciário, onde está concentrada grande parte do trabalho da sociedade civil. E a execução de Good certamente passou a integrar o cálculo mental de todo potencial manifestante.

Ainda temos uma mídia independente. Mas fazer um balanço do quanto o ambiente midiático mudou é um exercício perturbador. Mesmo antes da eleição de 2024, os proprietários do The Washington Post e do Los Angeles Times haviam cerceado a independência de suas páginas de opinião. Logo após a eleição, a ABC News e, depois, a controladora da CBS News pagaram milhões de dólares para encerrar o que certamente pareciam ser processos frívolos movidos por Trump. (Ele já abriu vários outros, incluindo um contra o The New York Times e outro contra 20 membros individuais do conselho do Prêmio Pulitzer, que inclui jornalistas do Times.) Agora, sob nova propriedade, a CBS vem se transformando rapidamente em uma emissora alinhada a Trump.

Autocratas destroem a imprensa livre de pelo menos duas maneiras: por meio da repressão direta, como Trump tem feito com processos judiciais e pressão regulatória; e por meio da redistribuição do acesso à informação. Em outubro, o governo Trump praticamente expulsou os veículos tradicionais do Pentágono, substituindo-os por jornalistas e influenciadores leais. A mídia, assim como a sociedade civil, está muito diminuída em comparação ao que era há um ano.

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Ainda temos eleições. Mas quão livres e justas serão as eleições de 2026? Trump não guarda rancor apenas contra as autoridades eleitorais de muitos estados; ele transformou esse rancor em peça central de sua campanha de 2024. Desde que voltou ao cargo, sua administração adotou uma série de medidas executivas e abriu processos judiciais voltados a restringir o acesso às urnas, expurgar registros de eleitores, limitar a independência das autoridades eleitorais locais e, em linhas gerais, preparar o terreno para a intimidação sistemática tanto de eleitores quanto de funcionários eleitorais.

Os estados aderiram a esse esforço. A Flórida está reprimindo iniciativas de registro de eleitores. Ohio e outros estados introduziram leis restritivas de identificação de eleitores.

A Geórgia limitou o horário de funcionamento das seções eleitorais e proibiu a oferta de comida ou água a pessoas que aguardam na fila para votar. O Texas aprovou um mapa de redistritamento que ameaça privar de representação eleitores negros e latinos e pode eliminar cinco cadeiras democratas na Câmara, e a Suprema Corte autorizou o uso desse controverso novo mapa nas eleições de meio de mandato de 2026.

Some-se a isso a ameaça de Trump de enviar militares para lidar com o “inimigo interno” durante as eleições, de um lado, e, de outro, sua promessa de enviar aos americanos o que equivale a um suborno — cheques de 2.000 dólares “perto do fim do ano” —, e tem-se a perspectiva de eleições muito menos livres e muito menos justas do que as anteriores.

Quanto à próxima eleição presidencial, Trump já deixou claras suas intenções: ele não planeja abandonar o trono. Pode vir a buscar um pretexto para cancelar a votação. (Quando o presidente Volodymyr Zelenskyy lhe disse que a Ucrânia não pode realizar eleições durante a guerra, Trump se iluminou visivelmente: “Então você quer dizer que, se nós estivermos em guerra com alguém, não tem mais eleição? Ah, isso é bom.”) Ele pode encontrar um meio de invalidar o resultado após a eleição — algo para o qual vem lançando as bases desde o primeiro mandato. Ainda que não o faça, é ilusório acreditar que esta versão do nosso pesadelo nacional terminará em três anos.

Há um termo para regimes que preservam as aparências da democracia — como parlamentos, tribunais e eleições —, mas utilizam essas instituições principalmente como ornamento: “autoritarismo eleitoral”. É isso que estamos nos tornando.

Importa como chamamos as coisas — como nos chamamos. Isso importa por motivos técnicos, como a leitura de pesquisas de opinião: o comportamento da opinião pública é diferente em sociedades democráticas e não democráticas. Mas importa ainda mais para a forma como pensamos o futuro. Não podemos contar com mudanças promovidas por meio de eleições quando não podemos contar com as próprias eleições. Não podemos contar que as liberdades e recursos de que desfrutamos hoje ainda estarão disponíveis amanhã.

Pergunte a qualquer pessoa que tenha vivido em um país que se tornou uma autocracia, e ela contará alguma versão de uma história sobre paredes se fechando, sobre o espaço ficando cada vez menor. O espaço de que falam é a liberdade. Na Rússia, protestos em massa costumavam ser possíveis. (Quando, pela primeira vez, pessoas foram condenadas a pena de prisão por protesto pacífico, em 2012, escrevi um livro inteiro sobre isso.)

Depois, o protesto em massa se tornou impossível, e a única opção passou a ser o que chamávamos de “piquete de uma pessoa só”: alguém sozinho, segurando um cartaz. Em seguida, pessoas começaram a ser presas por ficarem sozinhas com uma folha de papel em branco, depois por “curtir” algo nas redes sociais. Jornalistas russos sabiam que podiam escrever livremente desde que se limitassem à cultura e evitassem a política; hoje, alguém pode ser preso por executar uma canção composta por um letrista proibido.

É claro que os Estados Unidos não são a Rússia — nem a Hungria, nem a Venezuela, nem Israel, nem qualquer um dos muitos outros países que eram democracias e se tornaram, ou estão se tornando, autocracias. Mas agora é a hora de concentrar-nos nas semelhanças e tentar aprender com as formas pelas quais outros países sufocaram o protesto, devastaram seus sistemas eleitorais, limitaram a liberdade de imprensa e ergueram campos de concentração.

A única maneira de impedir que esse espaço imploda é ocupá-lo, escorar as paredes: reivindicar todo o espaço que ainda existe para falar, escrever, publicar, protestar, votar. É o que parece que o povo de Minnesota está fazendo, e é algo que cada um de nós precisa fazer — agora, enquanto ainda podemos.

c.2026 The New York Times Company

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