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Em uma tarde de dezembro, o céu se rasgou e um pedaço de metal incandescente, mais largo que um ônibus escolar, despencou.
Foi mais barulhento que um trovão quando mergulhou em uma área de plantação, assustando todos na vila de Mukuku, cerca de três horas ao sul de Nairóbi, no Quênia.
“As pessoas pensaram que era o fim do mundo”, disse John Mukunuu, que mora nas proximidades.
Quando os aldeões chegaram, encontraram um anel gigante, mais alto que um homem e mais pesado que um cavalo, cravado na terra. Eles o observaram esfriar, de uma brasa incandescente a um cinza opaco. Fizeram guarda, tirando selfies ocasionais, até que autoridades da capital invadiram a vila.
O anel antes conectava partes de um foguete. Ele deveria ter se incinerado ao reentrar na Terra.
“Este é um evento isolado”, declarou a Agência Espacial do Quênia no início de 2025.
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Não exatamente.

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Mais detritos espaciais estão caindo na Terra do que nunca — um efeito da corrida frenética entre governos e empresas como a SpaceX para dominar os céus.
No ano passado, a Força Espacial dos EUA emitiu alertas para quase 820 objetos entrando na atmosfera terrestre. Há uma década, o governo emitia alertas para 110 objetos.
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“As reentradas acontecem todos os dias”, disse Mariusz Slonina, chefe de operações de consciência situacional espacial da Agência Espacial Polonesa. Objetos enormes pesando uma tonelada ou mais chegam cerca de uma vez por semana, afirmou ele.
Grande parte dos detritos se incinera na atmosfera ou cai no Pacífico, mas quando isso não acontece, precipitam-se ao solo, de forma descontrolada e imprevisível.
Quanto mais objetos os humanos lançam em órbita, mais detritos terão que desviar na Terra. Mais de 300 foguetes foram lançados no ano passado, quase quatro vezes mais do que há uma década. Isso significa que muitos mais fragmentos e peças descartadas devem cair de volta.
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Satélites moribundos são outro resíduo comum desta era espacial. Um bom número dos cerca de 16 mil satélites em órbita acabará retornando à Terra.
Em 2024, hardware descartado da Estação Espacial Internacional caiu sobre uma casa na Flórida. No início do ano passado, parte de um foguete da SpaceX aterrissou perto de um shopping movimentado em Poznan, na Polônia. Outro fragmento foi encontrado perto do aeroporto da cidade, segundo a Agência Espacial Polonesa.
Meses depois, um satélite chinês desativado despencou sobre Tenerife, uma das Ilhas Canárias da Espanha. O satélite de 3 toneladas enviou ondas de choque pela região antes de se fragmentar e queimar no ar.
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Em outubro, mineradores descobriram detritos em chamas em uma estrada deserta na Austrália Ocidental. Recentemente, gigantescas “bolas espaciais” chegaram à costa em uma praia australiana.
A colcha de retalhos de regulações que governam lançamentos de foguetes e lixo orbital não consegue acompanhar o ritmo do desenvolvimento espacial.
A SpaceX de Elon Musk, que tem mais de 10 mil satélites em órbita, solicitou autorização para lançar mais 1 milhão. A Blue Origin de Jeff Bezos tem ambições semelhantes, e as “megaconstelações” chinesas deverão ter centenas de milhares de satélites.
Por enquanto, as pessoas têm mais probabilidade de serem atingidas por um raio do que por lixo espacial em queda. O único caso documentado é o de uma mulher de Oklahoma que foi atingida por detritos nos anos 1990. Ela sobreviveu relativamente ilesa.
Mas essas probabilidades estão mudando. Um estudo para a Administração Federal de Aviação dos EUA concluiu que até 2035, os detritos apenas dos satélites da SpaceX poderiam matar ou ferir alguém a cada dois anos.
O risco diminui se os satélites se incinerarem na atmosfera, concluiu o estudo. Por um tempo, a SpaceX afirmou que todos os seus satélites retornados se incineravam. Depois, em 2024, um pedaço de metal da SpaceX foi encontrado em uma fazenda canadense. A SpaceX, que anteriormente discordou do relatório da FAA, não respondeu a perguntas. A empresa agora afirma que cerca de 5% da massa de alguns satélites pode não se desintegrar.
Sean O’Keefe, professor da Universidade de Syracuse e ex-administrador da NASA, disse: “Os humanos têm muita falha de imaginação. Simplesmente não conseguimos imaginar que isso acontecerá conosco.”
“Basta que aconteça em uma grande área metropolitana”, acrescentou.
O’Keefe e outros especialistas afirmam que governos e empresas deveriam ser obrigados a usar materiais que se desintegrem completamente.
Não existe tal regulação. Nos Estados Unidos, a Comissão Federal de Comunicações exige que as empresas relatem o risco de baixas por queda de satélites, mas a agência se concentra principalmente em regular frequências de rádio.
A FAA, que supervisiona lançamentos, propôs uma regra para regulamentar o descarte de detritos orbitais, mas retirou a ideia em janeiro após pressão da indústria espacial.
Tratados das Nações Unidas regem a responsabilidade por detritos espaciais que ferem pessoas ou danificam propriedades, mas são relíquias da Guerra Fria com escopo limitado. A ONU emitiu diretrizes para detritos espaciais em 2007, quando havia muito menos satélites. Essas diretrizes não são vinculantes.
Se os objetos estão em queda livre, nem mesmo os melhores cientistas de foguetes podem prever com precisão onde eles cairão ou se se incinerarão completamente. Um erro de um minuto na previsão de reentrada altera a zona de queda em quase 480 quilômetros, segundo a Aerospace Corp., um grupo de pesquisa sem fins lucrativos.
Em janeiro, por exemplo, uma bola de fogo perfurou a atmosfera sobre a Europa. Era o estágio superior de um foguete Zhuque-3, fora de controle após uma empresa chinesa, a Landspace, tê-lo lançado no mês anterior.
Agências espaciais do mundo todo monitoraram o objeto por quatro dias. Era tão pesado — cerca de 11 toneladas — que não esperavam que se incinerasse.
Governos temiam que pudesse cair em áreas densamente povoadas. Autoridades britânicas instruíram redes móveis a testar o sistema de alerta de emergência.
“As últimas horas, as últimas órbitas foram sobre a Europa, e foi realmente perigoso”, disse Slonina, da Agência Espacial Polonesa.
No fim, os detritos caíram em algum lugar nos oceanos Índico ou Pacífico.
Detritos de foguetes estão alimentando tensões geopolíticas.
A mais nova base de lançamento da China fica em Hainan, uma ilha na costa sul do país.
Muitas das zonas de queda ao redor, onde os detritos provavelmente cairão, estão em águas disputadas no Mar do Sul da China.
Pescadores filipinos há anos enfrentam confrontos com a guarda costeira chinesa nessas águas. Hoje em dia, também precisam ficar atentos a detritos de foguetes.
Autoridades filipinas desaconselham ir ao mar sempre que a China notifica pilotos ou navegadores sobre um lançamento de Hainan, disse Gay Jane P. Perez, diretora-geral da Agência Espacial das Filipinas.
Treze peças de foguetes, algumas do tamanho de pequenos barcos, chegaram à costa das Filipinas nos últimos quatro anos. A maioria tinha marcações com caracteres chineses ou partes da bandeira chinesa, informou a agência espacial.
“Antes, estávamos preocupados com o acesso ao mar. Agora estamos até recebendo detritos de foguetes”, disse Perez.
Quem paga se o lixo espacial atingir você ou sua casa?
Se os detritos pertencem a uma empresa ou agência do seu país, o sistema jurídico local resolve as questões de responsabilidade.
Se não, seu país provavelmente recorrerá aos tratados da ONU para recuperar os custos.
A convenção de responsabilidade, por exemplo, dá aos países o direito a compensação se um objeto espacial de outro Estado ferir pessoas ou danificar propriedades. Outro tratado, chamado Acordo de Resgate e Devolução, permite que governos sejam pagos pelo custo de devolução de objetos espaciais.
Mas os tratados foram escritos no início da era espacial, quando os países estavam mais preocupados com astronautas se tornando prisioneiros de guerra ou com o roubo de tecnologia, disse Rosanna Deim-Hoffmann, que trabalha com questões jurídicas e políticas no Escritório da ONU para Assuntos do Espaço Exterior.
Os termos agora estão sendo aplicados em um ambiente espacial mais comercial e complexo, acrescentou ela.
“A forma como o tratado foi redigido não é a forma como o tratado é usado hoje em dia”, disse ela.
O primeiro passo, então, é confirmar de onde vieram os detritos. Isso significa que as pessoas comuns ficam à mercê de seus governos.
No Quênia, as autoridades levaram meses para confirmar que o anel era parte de um foguete francês que havia lançado um satélite de televisão americano. Os detritos orbitaram a Terra por mais de 16 anos antes de cair, segundo a agência espacial francesa.
O governo do Quênia não solicitou formalmente compensação à França, informou o Ministério das Relações Exteriores francês. Também não compartilhou essa informação com os moradores da vila, que disseram que o impacto rachou casas próximas, segundo Daniel Maanzo, senador que representa a área.
“O governo diz que primeiro precisa identificar o proprietário do objeto, porque é ele a fonte da negligência”, disse Maanzo.
“Isso não aconteceu”, afirmou. “Não houve compensação nenhuma.”
c.2026 The New York Times Company