Reviver o fluxo de produção do petróleo da Venezuela não será fácil nem barato

Trump disse que consertaria a infraestrutura petrolífera do país, mas uma revitalização robusta levaria anos e exigiria dezenas de bilhões de dólares

Rebecca F. Elliott The New York Times

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que uma “quarentena” militar sobre algumas exportações de petróleo da Venezuela permaneceria em vigor (Foto: Tierney L. Cross/The New York Times)
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que uma “quarentena” militar sobre algumas exportações de petróleo da Venezuela permaneceria em vigor (Foto: Tierney L. Cross/The New York Times)

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O presidente Donald Trump descreveu no fim de semana um cenário em que as empresas petrolíferas dos Estados Unidos mergulhariam na Venezuela após a queda do presidente Nicolás Maduro e “gastariam bilhões de dólares, consertariam a infraestrutura gravemente danificada” e “voltariam a gerar dinheiro para o país”.

Mas os objetivos de Trump para o petróleo enfrentam desafios formidáveis.

Um pequeno número de produtoras ocidentais com operações ou acordos já existentes na Venezuela poderia aumentar a produção relativamente rápido, se as condições políticas fossem favoráveis.

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Mas uma revitalização mais robusta da combalida indústria de petróleo e gás do país provavelmente levaria anos e exigiria dezenas de bilhões de dólares em investimentos.

O potencial prêmio é enorme — a Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo —, mas os riscos também são grandes, e empresas de energia dos Estados Unidos, como Exxon Mobil e ConocoPhillips, já saíram prejudicadas de experiências anteriores no país.

Os preços do petróleo também estão baixos, tendo caído mais de 20% no último ano, o que torna mais difícil para as empresas justificar novos gastos.

Por enquanto, duas grandes perguntas que as petrolíferas enfrentam são como o governo da Venezuela irá se reconstruir após a captura de Maduro e se os Estados Unidos irão suspender as sanções impostas para enfraquecer a economia do país.

“Não há muitas empresas que vão correr para entrar em um ambiente onde não há estabilidade”, disse Ali Moshiri, que chefiou as operações da Chevron na Venezuela até 2017 e hoje dirige uma empresa privada de petróleo com interesses no país.

A Chevron, a maior produtora privada de petróleo na Venezuela, e operadores menores poderiam potencialmente ajudar a elevar a produção do país para até 1,5 milhão de barris por dia em até 18 meses, disse Moshiri. Isso custaria até US$ 7 bilhões (R$ 38 bilhões), considerando o nível atual estimado de cerca de 1 milhão de barris por dia, afirmou ele.

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Ainda assim, isso deixaria a Venezuela produzindo pouco mais de 1% do petróleo consumido no mundo e menos da metade do que bombeava no fim dos anos 1990.

Uma expansão adicional provavelmente levaria anos. Isso porque grande parte da infraestrutura petrolífera da Venezuela está deteriorada e, mesmo que produtores demonstrem interesse em voltar, levaria tempo para negociar contratos e restabelecer presença no país.

“Muita coisa depende da política e de quem está no comando”, disse Daniel Yergin, historiador de energia vencedor do Prêmio Pulitzer e vice-presidente da empresa de pesquisas S&P Global.

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Alguns analistas traçaram paralelos com o Iraque, onde levou anos para a produção de petróleo se recuperar após a invasão dos Estados Unidos em 2003.

Por enquanto, a indústria de petróleo da Venezuela continua sob sanções dos Estados Unidos, debilitada por uma campanha agressiva contra muitos dos navios petroleiros usados para exportar o petróleo do país.

Essas restrições continuarão enquanto os Estados Unidos pressionam o governo venezuelano por mudanças de política, disse o secretário de Estado Marco Rubio no domingo.

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“Isso é uma quantidade enorme de poder de pressão que continuará em vigor até vermos mudanças, não apenas para promover o interesse nacional dos Estados Unidos, que é o número 1, mas também que levem a um futuro melhor para o povo da Venezuela”, disse Rubio no programa “Face the Nation”, da CBS News.

Até agora, apenas a Chevron conseguiu exportar petróleo regularmente nas semanas desde que os Estados Unidos apreenderam um navio chamado Skipper, em 10 de dezembro, segundo o TankerTrackers.com, que monitora o transporte marítimo global.

A empresa tem uma licença exclusiva do governo Trump que lhe permitiu continuar operando na Venezuela e enviando petróleo para refinarias na Costa do Golfo dos Estados Unidos. Por isso, é amplamente vista como a mais bem posicionada para aumentar a produção caso as condições no país se estabilizem.

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Outras empresas de energia que mantiveram presença na Venezuela incluem a italiana Eni e a espanhola Repsol, que produzem gás natural em operações offshore (em alto-mar), embora as sanções dos Estados Unidos as tenham impedido de exportar desde o ano passado.

O Departamento do Tesouro dos EUA também emitiu no ano passado uma licença que permitiria à Shell, com sede em Londres, retomar o trabalho em um campo de gás offshore venezuelano, embora a Venezuela tenha posteriormente interrompido as negociações.

Outras, como Exxon Mobil e ConocoPhillips, deixaram a Venezuela depois que o antecessor de Maduro, Hugo Chávez, nacionalizou parcialmente a indústria petrolífera do país por volta de 2007. Essas empresas passaram anos tentando, com pouco sucesso, fazer com que a Venezuela lhes pagasse bilhões pelos ativos que o governo confiscou.

Mais recentemente, autoridades venezuelanas tentaram suavizar as relações com algumas petrolíferas ocidentais. O governo de Maduro estava negociando um acordo de comércio de petróleo com a ConocoPhillips até o ano passado, segundo reportou o The New York Times.

Após a prisão de Maduro no sábado, a ConocoPhillips disse que “seria prematuro especular sobre quaisquer futuras atividades comerciais ou investimentos” e não comentou especificamente as negociações. A Chevron afirmou que continua operando na Venezuela “em total conformidade com todas as leis e regulamentações relevantes”.

Moshiri disse que, como primeiro passo para estimular mais investimento estrangeiro, o governo Trump precisaria suspender as sanções à Venezuela.

“A única bala de prata para virar a economia hoje é investimento em petróleo”, afirmou.

c.2026 The New York Times Company