Remédio experimental da Eli Lilly mostra perda de peso próxima à cirurgia bariátrica

Segundo a farmacêutica, pessoas que receberam a injeção de retatrutida perderam, em média, 28% do peso corporal após 80 semanas

Gina Kolata Rebecca Robbins The New York Times

Um dos escritórios da farmacêutica Eli Lilly em San Diego, Califórnia. (Foto: Mike Blake/REUTERS)
Um dos escritórios da farmacêutica Eli Lilly em San Diego, Califórnia. (Foto: Mike Blake/REUTERS)

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Uma injeção experimental ajudou participantes de um grande estudo a perderem muito mais peso do que com os remédios contra obesidade já disponíveis no mercado, anunciou na quinta‑feira (21) a Eli Lilly, fabricante do produto.

Entre os pacientes mais pesados do ensaio clínico, os resultados foram comparáveis aos observados com a cirurgia bariátrica do tipo bypass gástrico, hoje o único tratamento realmente eficaz para a maioria dos casos de obesidade grave.

O medicamento, chamado retatrutida, parece ser o mais potente até agora em uma onda de injeções e comprimidos que vêm transformando o tratamento da obesidade — a ponto de alguns participantes de outros estudos relatarem que interromperam o uso porque sentiram que estavam emagrecendo demais.

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Se o efeito do remédio não diminuir com o tempo e se os resultados na prática reproduzirem o que foi visto no estudo clínico, ele pode ampliar o que se entende hoje como o potencial de um fármaco para perda de peso.

A Eli Lilly divulgou os achados em um comunicado à imprensa. Os resultados ainda não passaram por revisão por pares nem foram publicados em revista científica.

Os efeitos potentes do medicamento, porém, têm um custo. Em doses mais altas, ele frequentemente causa efeitos colaterais gastrointestinais tão incômodos que alguns pacientes desistem do tratamento.

Segundo a Eli Lilly, 11% dos participantes que receberam a dose mais alta abandonaram o estudo por causa dos efeitos adversos — proporção maior que a observada com remédios contra obesidade menos potentes já disponíveis.

Todos esses fármacos costumam provocar náusea, vômito, diarreia e constipação, mas, em geral, os quadros graves são raros.

A Eli Lilly ainda não pediu aprovação regulatória, mas o medicamento já desperta enorme interesse.

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À medida que os relatos sobre os bons resultados dos estudos da Lilly se espalham, alguns americanos passaram a recorrer à internet para comprar versões “piratas” vindas da China — o que vem preocupando médicos e pesquisadores, alarmados com o fato de esses pacientes não estarem sendo acompanhados e poderem sofrer danos.

Se for aprovado, a retatrutida vai entrar em um mercado cada vez mais concorrido. Ainda assim, alguns médicos avaliam que ela pode ser especialmente útil para os pacientes mais pesados, que precisam perder mais peso e têm resistência à cirurgia bariátrica.

Os resultados divulgados pela Eli Lilly vêm de um estudo randomizado com 2.339 pessoas obesas ou com sobrepeso. Aqueles que receberam a maior dose do medicamento perderam, em média, 70 libras (cerca de 32 quilos), ou 28% do peso corporal, após 80 semanas de tratamento, informou a empresa.

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Entre os participantes mais pesados, a perda foi ainda maior. Pacientes com índice de massa corporal (IMC) acima de 35 — faixa considerada obesidade moderada ou grave — foram avaliados após dois anos.

Nesse período, quem tomou a dose mais alta perdeu, em média, 85 libras (cerca de 38,5 quilos), ou 30,3% do peso corporal. Para comparação, pacientes submetidos ao bypass gástrico costumam perder entre 30% e 35% do peso em dois anos.

A perda de peso com retatrutida supera o que se observa, em geral, com as duas injeções mais populares contra obesidade atualmente: o Zepbound, da própria Eli Lilly, e o Wegovy, da Novo Nordisk.

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Esses medicamentos ajudam as pessoas a perder cerca de 20% do peso corporal em período semelhante. Versões orais proporcionam queda mais modesta, de 12% a 14% do peso.

Para os 24 milhões de americanos classificados com obesidade grave — IMC de pelo menos 40 —, isso não é suficiente.

Para chegar a um peso considerado saudável, eles precisam perder de 36 a 45 quilos, diz a endocrinologista e especialista em obesidade Carolyn Apovian, da Harvard Medical School.

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A cirurgia bariátrica costuma ser capaz de produzir esse efeito. Mas sempre foi uma opção de difícil aceitação, e o surgimento de medicamentos eficazes contra obesidade tornou o procedimento ainda menos atraente para muitos pacientes. A demanda por cirurgia bariátrica vem caindo à medida que os remédios ganham popularidade.

A Eli Lilly aposta que a retatrutida possa oferecer uma alternativa para esses pacientes muito pesados — público que, na verdade, foi o alvo inicial do desenvolvimento do fármaco.

O diretor científico da companhia, Daniel Skovronsky, diz que imaginava que o remédio seria mais interessante justamente para quem precisa perder grandes quantidades de peso. Mas, ao analisar os resultados, ele percebeu que o apelo pode ser mais amplo.

O inesperado aconteceu na menor dose testada. Mais pessoas que tomavam placebo abandonaram o estudo por efeitos colaterais percebidos do que aquelas que receberam o medicamento ativo, conta Skovronsky.

Com essa dose mais baixa, os participantes perderam cerca de 19% do peso corporal — resultado semelhante ao da dose máxima de Zepbound. Porém, a retatrutida pareceu ser surpreendentemente bem tolerada.

Assim como Wegovy e Zepbound, a retatrutida é aplicada por injeção semanal, com aumento gradual da dose, o que ajuda a reduzir os efeitos gastrointestinais.

O remédio é uma espécie de “GLP‑1 turbinado”, pertencente à classe de fármacos que revolucionou o tratamento de diabetes, obesidade e outras condições.

Ele atua em três hormônios relacionados ao controle do apetite, do balanço energético e do metabolismo: GLP‑1 (alvo de Wegovy e Zepbound), GIP (também alvo de Zepbound) e glucagon, um hormônio que nem Wegovy nem Zepbound modulam.

Ainda não está claro para os pesquisadores por que atingir esses três hormônios gera um efeito maior do que o obtido com medicamentos que atuam sobre apenas um ou dois.

A endocrinologista Ania Jastreboff, especialista em obesidade em Yale e investigadora principal do estudo, afirma que os resultados são “muito impressionantes, sem dúvida”.

Mas ressalta que a obesidade é uma doença crônica e que, mais importante do que o número de quilos perdidos, são “os efeitos sobre a saúde da pessoa ao longo da vida”.

Para a Eli Lilly, a retatrutida é uma oportunidade de seguir surfando a onda dos remédios para emagrecimento. As vendas da companhia dispararam graças ao Zepbound, para obesidade, e ao Mounjaro, para diabetes. No ano passado, a empresa se tornou a primeira do setor de saúde a atingir valor de mercado de US$ 1 trilhão.

Em 2024, a Lilly processou a agência reguladora americana (FDA), alegando que o órgão classificou de forma indevida a retatrutida como um medicamento tradicional, e não como um produto biológico. A disputa, ainda em tramitação na Justiça, gira em torno de uma questão altamente técnica: quantos aminoácidos a molécula de retatrutida possui em sua estrutura química.

Se o remédio for reclassificado como biológico, isso pode significar bilhões de dólares a mais para a Eli Lilly, pois dificultaria a entrada de concorrentes e permitiria cobrar preços mais altos por mais tempo do que seria possível sob a classificação atual.

c.2026 The New York Times Company