Premiê diz que Canadá se preparou até para “risco extremo” de ação militar dos EUA

Em uma ampla entrevista, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, descreveu sua relação com o presidente Donald Trump como tensa e em constante evolução
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, durante entrevista ao The New York Times na quarta-feira. Crédito: Daniel Berehulak/The New York Times
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, durante entrevista ao The New York Times na quarta-feira. Crédito: Daniel Berehulak/The New York Times

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NOVA YORK — O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou que se preparou ao longo do último ano para o “risco extremo” de que o presidente Donald Trump pudesse ordenar uma ação militar contra o Canadá. Apesar disso, revelou que os dois mantêm conversas frequentes, inclusive após o colapso das negociações comerciais no mês passado, em uma relação que classificou como tensa e em evolução.

Em entrevista ao The New York Times, em Manhattan, na quarta-feira, Carney detalhou como vem reduzindo sistematicamente a dependência canadense dos Estados Unidos em áreas estratégicas de tecnologia, que vão de satélites a caças militares. Segundo ele, o plano é tornar o país menos vulnerável a pressões de Washington.

O premiê afirmou que busca diversificar parceiros e fornecedores e declarou que, mesmo sob um futuro presidente americano diferente, o Canadá será “um parceiro melhor para os EUA por causa do que estamos fazendo agora”.

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Carney citou esforços para reduzir a dependência da Starlink, serviço de internet via satélite da SpaceX, de Elon Musk, além de avaliar alternativas à compra dos caças F-35. Também destacou o interesse em aprofundar relações econômicas, embora não militares, com a China.

Questionado sobre as ameaças de Trump de transformar o Canadá no 51º estado americano, Carney indicou ter analisado seriamente a possibilidade de uma invasão liderada pelos EUA, mas evitou dar detalhes.

“Você tem a responsabilidade, nesse tipo de cargo, de analisar riscos extremos”, afirmou. “Isso é simplesmente gestão de risco. Não é o cenário-base, mas seria irresponsável não se preparar.”

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Ao longo do último ano, Carney despontou como um dos líderes globais mais dispostos a confrontar Trump. Paralelamente, passou a desenhar uma estratégia para reduzir a dependência de um vizinho que passou a considerar predatório.

Ainda assim, o premiê afirmou que fala com Trump “frequentemente” e que os dois se comunicaram “várias vezes” desde o rompimento das negociações comerciais em agosto.

“Da minha perspectiva, temos um bom relacionamento, no sentido de que podemos pegar o telefone e conversar sobre os assuntos”, disse. “Ele é direto. Eu também sou direto. Isso torna tudo mais eficiente.”

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Carney argumentou que, em muitos aspectos, o que é bom para o Canadá também beneficia os Estados Unidos, especialmente devido à integração econômica construída ao longo de décadas. Como exemplo, citou a indústria automotiva, fortemente integrada entre os dois países e alvo recente das tarifas impostas pelo governo Trump.

“Toda a minha vida, e tenho 61 anos, tivemos um setor automotivo integrado”, afirmou. “Tentar repatriar toda a produção para os Estados Unidos não faz sentido.”

Ele também sustentou que ainda existe caminho para retomar as negociações comerciais e reconstruir o acordo que fracassou no fim de agosto.

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“Existe um acordo comercial mutuamente benéfico entre Canadá e EUA? Absolutamente”, disse.

Entre os pontos que poderiam integrar um futuro pacto está a potassa, principal insumo para fertilizantes. O Canadá fornece quase 90% das importações americanas do produto. Trump, porém, chegou a sugerir a substituição da oferta canadense por importações da Belarus.

Carney rebateu afirmando que Canadá, Estados Unidos e possivelmente o México poderiam tornar-se independentes de fornecedores externos ao ampliar o acesso às reservas canadenses, as maiores do mundo.

Apesar da disputa comercial, o premiê demonstrou relutância em usar as exportações de energia como instrumento de pressão. Cerca de 60% das importações de petróleo dos EUA vêm do Canadá, que também fornece eletricidade para consumidores e empresas americanas.

“Se você é um parceiro confiável e fornece energia ou alimentos para alguém, o limite para mudar isso é muito, muito alto”, afirmou.

Carney também deixou claro que considera necessário reduzir a dependência canadense de algumas tecnologias americanas.

“Da Starlink nós vamos nos afastar, sem dúvida”, declarou, citando episódios em que Elon Musk limitou o acesso da Ucrânia a serviços considerados estratégicos durante a guerra.

Por fim, o primeiro-ministro reiterou sua visão de que um sistema financeiro global dependente exclusivamente do dólar americano não é sustentável. Segundo ele, um modelo multipolar, com várias moedas de reserva internacionais, proporcionaria maior flexibilidade aos países.

“É a lógica do ‘me engane uma vez, me engane duas vezes'”, disse Carney. “Quando você percebe isso, começa a pensar em como diversificar.”

c.2026 The New York Times Company