Por que as tarifas de Trump não tiveram um impacto maior na economia dos EUA?

Os preços dos produtos aumentaram, mas os efeitos não foram sentidos com a intensidade que alguns especialistas previram

Ana Swanson The New York Times

Contêineres no Porto de Baltimore, Estados Unidos (Foto de arquivo: Alyssa Schukar/The New York Times)
Contêineres no Porto de Baltimore, Estados Unidos (Foto de arquivo: Alyssa Schukar/The New York Times)

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WASHINGTON — O presidente Donald Trump elevou no ano passado os impostos que os Estados Unidos cobram sobre importações a níveis não vistos em um século.

Os preços dos produtos aumentaram como resultado, e empresas que dependem de itens e insumos importados enfrentaram dificuldades, com algumas fechando as portas. Ainda assim, os efeitos não foram sentidos com a intensidade que alguns especialistas previram no início de abril, quando Trump anunciou tarifas de dois dígitos sobre importações de países ao redor do mundo.

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Um novo artigo de trabalho elaborado por economistas da Universidade Harvard e da Universidade de Chicago ajuda a explicar o porquê.

O estudo mostra que a tarifa que os importadores realmente pagaram foi significativamente menor do que as taxas anunciadas por Trump.

As razões incluem isenções para determinados países e setores, tarifas reduzidas para alguns produtos até o momento da chegada aos EUA e o descumprimento deliberado das regras por parte de algumas empresas.

Ao analisar a arrecadação do governo com tarifas e o valor das importações, os economistas concluíram que a tarifa efetiva dos EUA era de 14,1% no fim de setembro.

Esse número representa cerca de metade da tarifa que o governo havia anunciado oficialmente. A média ponderada das tarifas comerciais dos Estados Unidos era, nominalmente, de 27,4% em setembro, estimaram os autores, abaixo do pico de 32,8% em abril.

“As tarifas reais são muito menores do que as anunciadas, e isso é uma das razões pelas quais os efeitos não foram tão grandes quanto se temia”, disse Gita Gopinath, economista de Harvard e ex-primeira vice-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional.

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Um dos fatores foi uma isenção para produtos que já estavam em navios a caminho dos Estados Unidos quando as tarifas foram anunciadas.

Enviar mercadorias por via marítima aos portos americanos geralmente leva semanas, o que significa que as tarifas pagas pelas empresas aumentaram mais lentamente do que o anúncio de Trump ao longo do ano sugeria.

As isenções para produtos e países incluíram semicondutores e alguns itens que os contêm, medida amplamente vista como um aceno a executivos do setor de tecnologia. Embora autoridades tenham dito que anunciariam mais tarifas sobre chips e eletrônicos, isso não aconteceu.

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Como resultado, as empresas pagaram uma tarifa efetiva de 9% sobre chips importados pelos Estados Unidos, calcularam os autores, muito abaixo do nível aplicado a outras mercadorias. E as exportações de lugares que produzem muitos semicondutores, como Taiwan, enfrentaram uma taxa efetiva muito menor (8%) do que a oficial (28%).

Canadá e México também receberam isenções significativas das tarifas nominalmente altas que Trump impôs no ano passado. Muitos produtos majoritariamente fabricados na América do Norte se qualificam para tarifa zero sob o acordo Estados Unidos-México-Canadá, que Trump assinou em seu primeiro mandato.

Como as tarifas americanas eram, no geral, baixas no passado, muitas empresas não se davam ao trabalho de declarar que seus produtos estavam em conformidade com o acordo ao preencher formulários alfandegários.

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Mas, em 2025, cerca de 90% dos produtos vindos do Canadá e do México foram declarados como compatíveis, em comparação com menos de 50% no ano anterior.

A evasão tarifária também reduziu a taxa efetiva que as empresas pagam. As companhias podem recorrer a várias estratégias — muitas delas ilegais — para alterar informações nos formulários alfandegários sobre o conteúdo, o valor ou a origem de um produto e, assim, pagar uma tarifa menor do que deveriam.

À medida que crescem as preocupações com o custo para empresas e consumidores, o governo Trump pode oferecer mais isenções e adiamentos nas tarifas planejadas.

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Em 31 de dezembro, Trump assinou uma ordem executiva adiando por um ano um aumento programado nas tarifas sobre bancadas de banheiro, armários de cozinha e móveis estofados.

O Departamento de Comércio também recuou de um plano preliminar de impor tarifas sobre algumas importações de massa italiana, alegando que alguns fabricantes haviam atendido às preocupações dos EUA sobre práticas desleais. Uma decisão final é esperada em março.

Quem paga a tarifa?

Esse fenômeno não significa que as tarifas não pesem sobre empresas e consumidores americanos. Os pesquisadores demonstraram que os americanos estavam arcando com o custo das tarifas de Trump, diferentemente do que ele e seus assessores alegaram.

Quando os Estados Unidos impõem uma tarifa, é o importador oficial — geralmente uma empresa americana — que deve pagar esse valor ao governo.

Mas a questão de quem realmente arca integralmente com o custo da tarifa é diferente. As fábricas estrangeiras que exportam produtos aos Estados Unidos poderiam absorver o custo se reduzissem os preços cobrados dos compradores americanos para compensar a tarifa.

Foi isso que o governo Trump argumentou que aconteceria. Mas Gopinath e seu coautor, Brent Neiman, da Universidade de Chicago, calcularam que os importadores americanos, e não os fornecedores estrangeiros, estavam arcando com a maior parte do custo.

Eles estimaram que 94% dos custos tarifários foram repassados às empresas dos EUA em 2025. Em 2018-2019, quando Trump impôs muitas tarifas sobre a China, esse valor foi de cerca de 80%

Os economistas contam com apenas alguns meses de dados com as tarifas plenamente em vigor, portanto muito mais será conhecido ao longo do próximo ano.

Mas as tarifas já vêm remodelando significativamente o comércio global. Por exemplo, a participação da China nas importações americanas despencou para 8% no fim de 2025, ante 22% no fim de 2017.

Consumidores e fabricantes americanos também estão pagando custos mais altos. Um artigo publicado em novembro por economistas da Harvard Business School e de outras instituições constatou que as tarifas elevaram o preço de produtos importados em aproximadamente o dobro do aumento visto em produtos domésticos.

Gopinath e Neiman também rastrearam o efeito das tarifas sobre fabricantes americanos, que frequentemente dependem de peças e metais estrangeiros.

Eles descobriram que empresas fabricantes de caminhões pesados, veículos de construção, carros e autopeças, equipamentos agrícolas e máquinas para petróleo e gás estavam entre as mais afetadas pelo aumento das tarifas.

“A lógica era que, se as empresas estrangeiras quisessem vender para o mercado consumidor mais poderoso do mundo, teriam de pagar um preço”, disse Gopinath. “Na realidade, quem tem pago esse preço são as empresas americanas, e não as estrangeiras.”

c.2026 The New York Times Company