Para a economia global, todos os caminhos da guerra afetam preços e crescimento

Energia mais cara pressiona inflação na Europa e encarece combustíveis nos EUA, enquanto países pobres sofrem mais com custos disparados

Patricia Cohen The New York Times

Fábrica de fertilizantes na Nigéria; efeitos da guerra do Irã pressionam consumidores e negócios no mundo (Foto: Taiwo Aina/The New York Times)
Fábrica de fertilizantes na Nigéria; efeitos da guerra do Irã pressionam consumidores e negócios no mundo (Foto: Taiwo Aina/The New York Times)

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As consequências econômicas da guerra no Irã estão pressionando consumidores e empresas ao redor do mundo, elevando o preço de itens essenciais como alimentos e combustível.

“Embora a guerra possa moldar a economia global de diferentes maneiras, todos os caminhos levam a preços mais altos e crescimento mais lento”, escreveram os principais economistas do FMI (Fundo Monetário Internacional).

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Na semana passada, sinais de tensão puderam ser vistos em novas projeções de um forte aumento da pobreza em todo o mundo árabe, um grande salto na inflação na Europa e novas máximas nos preços da gasolina nos Estados Unidos.

Os efeitos são especialmente pesados para países pobres, que têm menos recursos. Nações da África, do Sul da Ásia, da América Latina e de partes do Oriente Médio que importam a maior parte de sua energia enfrentam grandes dificuldades para arcar com custos disparados.

Para essas economias, o efeito é como “um grande e repentino imposto sobre a renda”, explicaram economistas do FMI.

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Ainda assim, mesmo que os países consigam levantar recursos, o fornecimento de petróleo, gás e muitas outras commodities cruciais pode não estar disponível por causa do bloqueio efetivo do Irã ao Estreito de Ormuz, uma rota marítima fundamental, além dos danos à infraestrutura energética em toda a região do Golfo.

Cerca de um terço dos fertilizantes do mundo é transportado pelo Estreito de Ormuz. Com o início da temporada de plantio no Hemisfério Norte, a escassez de fertilizantes agora pode resultar em colheitas mais fracas e preços de alimentos mais altos no futuro.

A escassez de outros materiais produzidos no Golfo Pérsico, incluindo hélio, enxofre e nafta — usada no processamento de plásticos — pode desacelerar a produção industrial, reduzindo o crescimento em alguns países.

Para muitas pessoas no Oriente Médio, a perspectiva é particularmente preocupante. Um novo relatório das Nações Unidas estima que a guerra pode empurrar mais 4 milhões de pessoas no mundo árabe para a pobreza e reduzir a produção da região em bem mais de US$ 100 bilhões.

Na Europa, os preços mais altos de energia causados pela guerra ajudaram a elevar a inflação nos 21 países que utilizam o euro, aumentando as preocupações de que os bancos centrais possam elevar as taxas de juros caso os preços continuem acelerando.

Os preços ao consumidor na zona do euro subiram a uma taxa anual de 2,5% em março, o ritmo mais rápido em um ano, segundo a agência de estatísticas do bloco na terça-feira. Em fevereiro, a alta foi de 1,9%.

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Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, disse na semana passada que os formuladores de política estavam preparados para elevar as taxas de juros se a inflação permanecesse acima da meta de 2% do banco.

Nos Estados Unidos, o preço médio da gasolina ultrapassou US$ 4 por galão na semana passada, um patamar que não era alcançado desde agosto de 2022. Desde o fim de fevereiro, o custo médio da gasolina comum saltou 35%, segundo dados da associação automobilística AAA.

Ver a gasolina acima de US$ 4 por galão — quando estava abaixo de US$ 3 há um mês — pode levar motoristas americanos a mudar seus hábitos de consumo.

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Famílias de baixa e média renda são as que mais sentem o aperto. O impacto desproporcional está tornando a economia dos Estados Unidos ainda mais desigual e dependente do consumo de pessoas de alta renda, afirmou a agência de classificação de risco Moody’s.

A incerteza sobre quanto tempo a guerra vai durar e quão graves podem ser os danos à infraestrutura energética na região está deixando governos, empresas e consumidores apreensivos.

Algumas autoridades adotaram medidas para reduzir o consumo — incluindo pedir ao público e a servidores civis que usem bicicletas em vez de carros, usem escadas em vez de elevadores e trabalhem quatro dias em vez de cinco.

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Há alguns vencedores em meio à turbulência econômica. Países exportadores de petróleo que conseguem entregar seu produto — incluindo Irã e Rússia — estão colhendo lucros extraordinários com os preços mais altos.

Agora que os Estados Unidos suspenderam algumas sanções contra essas duas nações, ambas podem usar a entrada de recursos para financiar seus esforços de guerra.

c.2026 The New York Times Company