Publicidade
Oak Ridge, Tennessee (EUA) — Uma antiga casa do Projeto Manhattan, os campos cercados por vales arborizados e colinas onduladas em Oak Ridge, Tennessee (EUA), podem em breve gerar mais uma inovação nuclear.
Fundações e estacas de concreto estão sendo erguidas aqui para o que deve ser um dos primeiros representantes de uma nova geração de usinas nucleares, conhecidas como pequenos reatores modulares. A empresa por trás do projeto, a Kairos Energy, desenvolve sua tecnologia há quase uma década e agora está mergulhada na fase de construção.
Leia também: Japão vai reativar maior usina nuclear do mundo 15 anos após desastre de Fukushima
Continua depois da publicidade
Muitas empresas estão correndo para construir reatores que especialistas dizem que podem, com o tempo, ser mais baratos que os grandes complexos nucleares usados há décadas.
Segundo executivos e autoridades governamentais, o mundo estaria no alvorecer de uma nova era nuclear, que forneceria energia barata e atenderia ao apetite gigantesco de eletricidade da tecnologia de inteligência artificial.
No centro dessa promessa está a ideia de reduzir o tamanho dos recipientes onde reações nucleares aquecem água para produzir o vapor que gira as turbinas.
A lógica é que os componentes desses reatores menores podem ser produzidos em massa e montados com mais facilidade que os projetos convencionais, feitos por verdadeiros exércitos de trabalhadores altamente qualificados.
A indústria de energia nuclear enfrenta há muito tempo dificuldades para concluir projetos. Quase todas as usinas nucleares em operação nos Estados Unidos começaram a gerar energia há décadas, a maioria antes mesmo de Bill Clinton se tornar presidente.
Nas últimas décadas, custos elevados e longos atrasos, somados a preocupações com segurança, travaram o avanço da energia nuclear.
Continua depois da publicidade
“Acho que muita gente reconhece o valor do que a energia nuclear pode oferecer, mas ainda fica um pouco nervosa se isso realmente consegue ser entregue”, disse Mike Laufer, cofundador e CEO da Kairos Energy, sediada na área da Baía de São Francisco. “Credibilidade pode ser muito difícil de conquistar, mas pode ser perdida muito rapidamente.”
Os Estados Unidos têm mais reatores nucleares do que qualquer outro país, mas ficam muito atrás na construção de novos.
Na última década, a China construiu mais de três dezenas de reatores, enquanto os Estados Unidos concluíram apenas dois. Esses dois, na usina Alvin W. Vogtle, perto de Augusta, Geórgia, ficaram prontos com anos de atraso e custaram US$ 35 bilhões — cerca de três vezes a estimativa original.
Continua depois da publicidade
O presidente Donald Trump quer que novos reatores sejam uma marca de sua gestão. Seu Departamento de Energia destinou US$ 800 milhões a novas tecnologias de reatores e US$ 1 bilhão em garantias de empréstimos para reativar a usina de Three Mile Island, na Pensilvânia. O governo deve oferecer bilhões a mais.
A corrida para reduzir custos
Há nove anos, os três fundadores da Kairos Energy começaram a desenvolver seus projetos, apostando em uma nova abordagem. Os três estudaram engenharia nuclear e mecânica na Universidade da Califórnia em Berkeley, onde J. Robert Oppenheimer, líder do Projeto Manhattan, já lecionou.
Executivos da Kairos disseram que decidiram testar cada fase do desenvolvimento da usina conforme ela avançava, em vez de seguir a prática mais comum nesse setor: projetar, construir e torcer para dar certo.
Continua depois da publicidade
Diferentemente das usinas nucleares convencionais, o reator da Kairos não terá grandes estruturas abobadadas de concreto e metal. E não haverá colunas de vapor saindo de enormes torres de resfriamento. Em vez de água, o reator da Kairos aquecerá sal.
O reator terá pouco mais de cerca de 10 metros de altura. O projeto comercial completo inclui dois prédios de reatores e uma turbina, ocupando uma área total de 243 mil metros quadrados.
A empresa, que tem 540 funcionários em tempo integral, projeta e fabrica seus próprios componentes. Muitas peças são produzidas em Albuquerque, Novo México, a cerca de 100 quilômetros de Los Alamos, a sede definitiva do Projeto Manhattan.
Continua depois da publicidade
Projetos nucleares têm sido prejudicados por custos elevados e pela dificuldade de construir algo inédito, disse Laufer. “E as experiências recentes só reforçaram isso.”
A NuScale, empresa que antes era apontada como a primeira a entregar um pequeno reator, teve de cancelar em novembro de 2023 um projeto em Idaho depois que concessionárias desistiram de comprar sua energia porque os custos haviam subido demais.
A empresa disse que sua tecnologia agora avança por meio de uma parceria com a ENTRA1 Energy, proprietária e desenvolvedora de usinas. Em setembro, as duas companhias e a Tennessee Valley Authority, estatal federal de energia, anunciaram planos para desenvolver reatores nucleares.
As primeiras unidades da NuScale serão construídas em Oak Ridge e poderão fornecer energia até 2030, disse a companhia.
Outras empresas estão perseguindo projetos semelhantes.
A GE Vernova Hitachi Nuclear Energy tem planos de construir vários reatores menores começando em Ontário. A TerraPower, empresa apoiada por Bill Gates, está construindo um reator em Wyoming.
A Radiant Energy Group, uma startup, diz que está pronta para construir neste ano um microrreator portátil capaz de gerar eletricidade suficiente para abastecer 1.000 casas. Esses dispositivos servem para usos especiais, como fornecer energia a data centers ou ao setor militar.
“Se você não precisa de conexão à rede, somos uma ótima solução”, disse Ray Wert, porta-voz da empresa.
Assim como a Kairos, a Radiant planeja fabricar seus reatores em Oak Ridge, sede do Laboratório Nacional de Oak Ridge, um dos 17 laboratórios nacionais do Departamento de Energia.
Grandes apoiadores e um novo combustível
Em Oak Ridge, a Kairos trabalha em um reator de testes que deve ficar pronto em 2028; uma unidade de demonstração, capaz de produzir eletricidade, está prevista para 2030.
A empresa tem um contrato para fornecer 500 megawatts de capacidade — cerca de metade da de uma usina nuclear tradicional de grande porte — ao Google até 2035.
A participação do Google pode fazer enorme diferença. Empresas de tecnologia que investem em IA trazem dinheiro e interesse que faltaram no início dos anos 2000, quando atrasos e custos explosivos frustraram as ambições de uma “renascença nuclear”.
Os reatores que estão sendo construídos pela Kairos e por outras empresas usarão algo chamado combustível particulado tristrutural isotrópico, ou Triso, desenvolvido pelo Departamento de Energia. As partículas Triso são núcleos de urânio enriquecido revestidos com várias camadas de carbono e cerâmica.
Milhares dessas partículas, do tamanho de uma semente de papoula, são incorporadas em uma matriz de grafite para formar esferas do tamanho de bolas de golfe.
A camada Triso contém o material radioativo do urânio enquanto ele se decompõe e gera calor. Com esse sistema de contenção embutido no combustível e o resfriamento por sal fundido, esses reatores não precisariam das mesmas estruturas reforçadas de contenção usadas nas usinas convencionais, dizem seus defensores.
Mas alguns cientistas não estão convencidos de que esse novo combustível elimine todas as preocupações de segurança. Edwin Lyman, físico e diretor de segurança nuclear da Union of Concerned Scientists, disse que as partículas Triso podem gerar calor muito elevado, o que justificaria o uso de estruturas de contenção.
“Na minha visão, as promessas feitas sobre o Triso estão muito exageradas”, disse Lyman. “Estamos realmente caminhando para um experimento muito perigoso com a população americana.”
Mas outros especialistas estão menos preocupados com o novo combustível e os novos projetos de reatores.
Charles Oppenheimer, neto de J. Robert Oppenheimer, é fundador e CEO da Oppenheimer Energy, desenvolvedora de projetos nucleares.
Ele disse estar discutindo um possível papel como conselheiro nos planos de retomar o V.C. Summer, um projeto nuclear tradicional e de grande porte na Carolina do Sul que foi cancelado em 2017 após US$ 9 bilhões já terem sido gastos.
Oppenheimer disse também estar otimista com o projeto da Kairos, do qual não participa. “Eles vêm executando muito bem”, disse. “Outros que fazem mais barulho não estão construindo tanto. Nesse jogo, nada conta até a usina estar funcionando.”
c.2026 The New York Times Company