O que executivos globais precisam entender a respeito da China em 2026

As manchetes podem se concentrar nas tarifas de Trump ou no setor imobiliário, mas há tendências mais sutis em curso

Joe Ngai Jeongmin Seong Fortune

A China oferece oportunidades para executivos globais disciplinados (Foto: Wand Zhao—AFP/Getty Images/The New York Times Licensing Group)
A China oferece oportunidades para executivos globais disciplinados (Foto: Wand Zhao—AFP/Getty Images/The New York Times Licensing Group)

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2025 foi um ano turbulento para a China. O país começou o ano enfrentando ventos contrários geopolíticos e uma demanda doméstica fraca. Em abril, novas tarifas e atritos comerciais desencadearam algumas das ações comerciais mais significativas em décadas.

Ainda assim, em novembro, a história havia mudado. O superávit comercial anual da China ultrapassou US$ 1 trilhão, um recorde histórico. O crescimento do PIB permaneceu estável, em torno de 5%. O país parece ter deixado para trás as preocupações com a “desglobalização”.

Leia também: ONU eleva previsão de crescimento do PIB da China para 2025 e 2026

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O que 2026, o Ano do Cavalo, reserva para a China? As manchetes podem se concentrar nas tarifas de Trump ou nos problemas do setor imobiliário, mas há tendências mais sutis em curso que vão definir a trajetória econômica chinesa.

A China apresenta novos desafios para os negócios internacionais, especialmente diante de concorrentes locais confiantes, mas ainda existem oportunidades para executivos globais disciplinados.

Cinco perguntas-chave serão decisivas à medida que a segunda maior economia do mundo navega por uma economia global em rápida transformação.

1. Como a incerteza tarifária vai moldar sua estratégia para a China?

A China há muito tempo domina a manufatura global, graças à sua competitividade de custos e às cadeias de suprimento integradas. Essa força permanece intacta apesar das tarifas mais altas dos EUA em 2025, que agora se estabilizaram em torno de 50%.

As tarifas mal afetaram o comércio chinês: a participação do país nas exportações globais de bens se manteve em cerca de 14%, quatro vezes maior do que a de Índia e Vietnã juntos.

O motivo é que a China já diversificou seus parceiros comerciais. As exportações de bens para os EUA representam apenas 2% a 3% do PIB chinês, e mais da metade das exportações de bens da China agora vai para economias do Sul Global, incluindo a Asean (Associação das Nações do Sudeste Asiático), a América Latina, o Oriente Médio e a África.

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A China também exporta mais bens intensivos em conhecimento, como eletrônicos e automóveis, e menos bens intensivos em mão de obra, como móveis e brinquedos.

Pequim ganhou algum tempo, mas 2026 será o teste de quão resiliente a economia exportadora chinesa realmente é.

Os padrões de comércio continuarão a mudar, com uma análise do McKinsey Global Institute sugerindo que até 30% do comércio global pode mudar de corredores até 2035. O mapa do comércio está sendo redesenhado em tempo real.

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Empresas multinacionais com presença na China precisam de flexibilidade na cadeia de suprimentos, para que possam reconfigurar suas operações tão rapidamente quanto as empresas chinesas.

2. Onde os consumidores chineses estão gastando, e o que isso significa para as marcas globais?

Antes da pandemia, os consumidores chineses impulsionavam um crescimento do varejo próximo de dois dígitos a cada ano. Em 2025, porém, a confiança do consumidor atingiu mínimas históricas, o desemprego entre jovens girou em torno de 15% e o mercado imobiliário permaneceu estagnado.

Ainda assim, os gastos no varejo cresceram cerca de 4% a 5% nos três primeiros trimestres de 2025, na comparação anual.

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Os consumidores chineses continuam gastando — apenas em coisas diferentes. Os gastos com turismo aumentaram 12% nos três primeiros trimestres de 2025, enquanto a receita com ingressos de cinema saltou 22%.

Subsídios governamentais sustentaram um crescimento de dois dígitos nos gastos com veículos elétricos e eletrodomésticos. Já os gastos supérfluos tiveram dificuldades.

A oportunidade para executivos está em acessar o volumoso nível de poupança das famílias chinesas.

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Os consumidores estão esperando algo que valha a pena comprar, e o desafio será oferecer produtos e serviços que os compradores chineses considerem genuinamente atraentes.

Competir apenas em preço não funcionará; somente uma proposta de valor convincente destravará essas poupanças represadas.

3. Seu negócio consegue sobreviver e prosperar no mercado hipercompetitivo da China?

A China enfrenta pressão deflacionária, mesmo enquanto o Ocidente luta contra a inflação. Em 2025, acelerou-se o que os chineses chamam de “involução”, uma competição intensa que corrói margens em todos os setores. Cerca de 30% das grandes empresas industriais relataram prejuízos, acima dos 20% antes da pandemia.

Mas o período de “excesso de capacidade” pode estar diminuindo. O investimento em ativos fixos desacelerou e depois encolheu, refletindo gastos mais fracos em alguns setores.

Em vez de ser uma preocupação, o menor investimento pode sinalizar que as empresas estão recuando de uma expansão excessiva, corrigindo anos de superinvestimento que inundaram mercados e destruíram o poder de precificação.

Esse ajuste, se reforçado por reformas adequadas, pode eventualmente estabilizar as margens.

As empresas agora precisam se diferenciar por tecnologia, marca e serviços, e não apenas por preço.

É importante notar que o sucesso na China levará a uma vantagem competitiva em qualquer outro lugar do mundo.

Caso contrário, a competição com players chineses pode ser brutalmente implacável — não apenas em seu mercado doméstico, mas cada vez mais no exterior também.

4. Você está pronto para enfrentar concorrentes chineses fora da China?

A China atrai capital estrangeiro há décadas. Mas, no ano passado, o país se transformou em uma fonte crescente de investimento.

Os anúncios de investimento estrangeiro direto (IED) na China entre 2022 e 2025 caíram cerca de dois terços em comparação com o período entre 2015 e 2019, em termos anualizados.

Os anúncios de IED chinês no exterior se mantiveram estáveis, em torno de US$ 100 bilhões por ano, mas se expandiram além do destino tradicional da Ásia emergente para mercados mais novos como América Latina, Oriente Médio e Europa.

As empresas chinesas também estão se tornando exportadoras globais de cultura. As figuras Labubu da Pop Mart, o blockbuster Black Myth: Wukong e as marcas chinesas de veículos elétricos conquistaram públicos globais.

Isso reflete uma forma crescente de “soft power” comercial, à medida que a cultura chinesa, tendências de estilo de vida e marcas de consumo penetram nos mercados.

Em 2026, espere enfrentar concorrentes chineses no seu próprio território. Os mercados do Sul Global, com populações mais jovens e cada vez mais afluentes, estão se tornando mais importantes para as empresas chinesas, mas as economias ocidentais ainda representam uma oportunidade para marcas chinesas com preços competitivos e relevância cultural.

Não é uma questão de se as empresas chinesas estão chegando; é se você está pronto para igualar sua velocidade, custo e eficiência.

5. A IA chinesa vai remodelar a produtividade, na China e além?

Antes de 2025, o Vale do Silício parecia ter uma vantagem insuperável sobre a China em IA. Então veio talvez a maior história chinesa do ano: o modelo de IA de código aberto da DeepSeek, que abalou os mercados e intensificou a competição em IA na China, nos EUA e ao redor do mundo.

A China agora é líder em IA, mesmo em meio a rigorosos controles de exportação dos EUA e a um setor de capital de risco moribundo.

Grandes empresas de tecnologia como a Alibaba lançaram modelos que competem com os melhores dos EUA, enquanto um enxame de “pequenos dragões” — startups de IA menores e ágeis — lançou seus próprios modelos inovadores. A IA chinesa agora apresenta desempenho forte nos rankings de LLMs (grandes modelos de linguagem).

O motor de inovação da China — iteração (repetição e ajuste) rápida, escalabilidade eficiente em custos, grande talento em engenharia e desenvolvimento colaborativo de código aberto — explica como o país conseguiu assumir a liderança em IA.

Mas o impacto nos negócios é mais importante do que o desempenho técnico. Essa capacidade em IA vai se traduzir em ganhos significativos de produtividade?

Uma análise do McKinsey Global Institute constata que empresas chinesas figuram entre as dez primeiras em 16 dos 18 setores que podem impulsionar até um terço do crescimento do PIB até 2040, com a IA desempenhando um papel importante como facilitadora em muitos deles.

Sinais mais concretos podem surgir no próximo ano, à medida que a China continue a investir em casos de uso de IA em seu setor manufatureiro. Um novo “momento DeepSeek”, talvez na indústria, pode ser uma aposta segura para 2026.

Olhando para frente

2026 começa com riscos mais agudos para a China: incerteza geopolítica, um setor imobiliário combalido, finanças públicas pressionadas e desemprego juvenil elevado. Ainda assim, aquilo que atrai empresas para a China — escala, inovação e influência global — continua tão convincente quanto sempre.

As empresas que vencerão na China no próximo ano não serão as que tiverem as melhores previsões macroeconômicas, mas aquelas capazes de vencer no campo de batalha: construir cadeias de suprimento resilientes, diferenciar-se da concorrência e aproveitar a inovação do país.

Para empresas globais preparadas para operar com esse nível de disciplina, a China ainda pode ser um mercado lucrativo no Ano do Cavalo.

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