Número de mortos e feridos na guerra da Ucrânia supera 2 milhões, diz estudo

A Rússia sofreu as perdas mais pesadas, com 1,4 milhão de militares mortos ou feridos desde a invasão, em fevereiro de 2022

Helene Cooper The New York Times

O funeral de um soldado ucraniano em Kiev, no ano passado. As forças ucranianas sofreram entre 525 mil e 625 mil baixas, segundo o estudo. Crédito: Nicole Tung/The New York Times
O funeral de um soldado ucraniano em Kiev, no ano passado. As forças ucranianas sofreram entre 525 mil e 625 mil baixas, segundo o estudo. Crédito: Nicole Tung/The New York Times

Publicidade

WASHINGTON — Mais de 2 milhões de soldados russos e ucranianos foram mortos ou feridos nos quatro anos de guerra travada pela Rússia contra o país vizinho, segundo um novo estudo — uma marca sombria em meio à continuidade da ofensiva russa.

O estudo, publicado nesta quarta-feira pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), em Washington, afirma que a Rússia sofreu o impacto mais pesado, com 1,4 milhão de militares mortos ou feridos desde fevereiro de 2022, quando invadiu a Ucrânia.

Desse total, 450 mil morreram — número quatro vezes maior do que o total de baixas fatais dos Estados Unidos em todas as guerras desde a Segunda Guerra Mundial.

As forças ucranianas, por sua vez, sofreram entre 525 mil e 625 mil baixas, incluindo entre 125 mil e 150 mil mortos, segundo o estudo.

Autoridades alertam, no entanto, que os números de baixas têm sido difíceis de estimar ao longo da guerra, porque Moscou é acusada de subnotificar rotineiramente seus mortos e feridos, enquanto a Ucrânia não divulga seus dados oficiais. O estudo se baseou em estimativas de governos dos Estados Unidos e do Reino Unido, entre outras fontes.

Ainda assim, os números traçam um retrato duro do avanço lento da Rússia na Ucrânia, com tropas russas avançando, em algumas áreas, a menos de 50 metros por dia. Em fevereiro, segundo os analistas, a Ucrânia retomou mais território do que perdeu pela primeira vez desde 2023, ao intensificar ofensivas no sul do país.

Continua depois da publicidade

“O controle territorial da Rússia na Ucrânia encolheu na primavera de 2026”, diz o estudo. “As forças russas perderam mais terreno do que conquistaram tanto em abril quanto em maio, com uma perda líquida de cerca de 400 quilômetros quadrados e os primeiros recuos mensais desde agosto de 2024 — mais um sinal das dificuldades militares russas.”

A Ucrânia recebeu um pequeno alívio em fevereiro, quando Elon Musk bloqueou inesperadamente o uso do serviço de internet via satélite Starlink por tropas russas. Isso deu às forças ucranianas uma breve trégua em relação aos ataques de drones e mais facilidade de movimentação, segundo os analistas.

Os russos superam os ucranianos em quase 3 para 1 no campo de batalha, e a Rússia conta com uma população maior para repor suas tropas. Por isso, embora o estudo aponte um número absoluto menor de perdas ucranianas, o país está perdendo uma fatia maior de seu exército, proporcionalmente menor.

Continua depois da publicidade

Mais de 400 mil russos estariam enfrentando cerca de 250 mil ucranianos na linha de frente, segundo analistas militares.

A Rússia conseguiu manter seu nível de tropas apesar das baixas elevadas ao realizar seu primeiro recrutamento desde a Segunda Guerra Mundial e ao alistar condenados e devedores, entre outras táticas. O presidente Vladimir Putin tem oferecido bônus a novos recrutas e pressionado pessoas acusadas de crimes a se alistarem em troca do arquivamento das acusações.

Além disso, em 2024 e 2025, a Coreia do Norte enviou mais de 10 mil soldados para ajudar a Rússia a retomar a região de Kursk, no oeste do país, onde a Ucrânia havia conquistado território.

Continua depois da publicidade

O estudo afirma que, em 2026, as baixas mensais da Rússia — entre 30 mil e 34 mil — provavelmente superaram seu ritmo de recrutamento, estimado em cerca de 27 mil novos soldados por mês.

O relatório chega em um momento em que o presidente Donald Trump se afastou em grande medida da guerra na Ucrânia. Em uma cúpula na França no mês passado, Trump deixou claro que o conflito — que ele já disse ser capaz de encerrar em 24 horas — não está entre suas prioridades.

“Olha, nós não temos nada a ver com isso”, disse Trump, acrescentando: “Isso não tem impacto sobre nós, exceto pelo fato de vendermos armas” para a Ucrânia.

Continua depois da publicidade

As declarações reforçam uma nova realidade de segurança para os aliados dos Estados Unidos na Europa, que por oito décadas contaram com a proteção americana até que o governo Trump deixou claro que essa proteção pertence ao passado.

Trump passou a tratar o envolvimento dos EUA na Ucrânia mais como uma missão humanitária do que como um esforço para proteger um aliado, citando o número de vítimas em ambos os lados como razão para querer encerrar a guerra.

Apoiadores da Ucrânia, inclusive no Congresso americano, argumentam que impedir uma vitória russa é necessário também para evitar que um Putin fortalecido avance sobre outros aliados da Otan.

A guerra na Ucrânia deve ser um dos temas discutidos em uma cúpula da Otan nesta terça-feira, em Ancara, na Turquia.

Segundo o estudo, sem mais pressão dos Estados Unidos e da Europa sobre a Rússia, Putin continuará a guerra, apesar das perdas elevadas.

O relatório destaca ainda que a Ucrânia tem levado mais intensamente o conflito ao território russo por meio do uso de drones, mísseis e uma campanha aérea cada vez mais eficaz.

No mês passado, a Ucrânia lançou seu maior ataque com drones contra Moscou desde o início da guerra.

E nesta semana, voltou a realizar novos ataques com drones, inclusive contra a capital e contra a Crimeia, península anexada por Moscou em 2014. No total, a Rússia afirmou ter derrubado 419 drones, segundo comunicado do Ministério da Defesa russo.

“A Rússia enfrenta, de longe, seu período mais sombrio da guerra desde a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022”, disse Seth Jones, um dos autores do estudo. “A guerra chegou ao cotidiano dos russos, que estão pagando o preço da guerra de Putin com uma economia em marcha lenta, disparada de preços, um número crescente de sacos funerários voltando da linha de frente e ataques de drones em cidades russas.”

c.2026 The New York Times Company