Nova montanha-russa da Universal vira alvo de queixas por motivo inusitado: os gritos

Após investir milhões para reduzir o barulho da atração de "Velozes e Furiosos", parque enfrenta reclamações de moradores incomodados com os berros dos passageiros
Brooks Barnes
The New York Times

Copilot said:

A montanha-russa foi projetada para ser “silenciosa como um sussurro” e evitar reclamações dos vizinhos, incluindo os próprios estúdios de cinema da Universal. Mas seus criadores não calcularam totalmente o volume dos gritos de pânico dos passageiros.
 (Adam Amengual/The New York Times)
Copilot said: A montanha-russa foi projetada para ser “silenciosa como um sussurro” e evitar reclamações dos vizinhos, incluindo os próprios estúdios de cinema da Universal. Mas seus criadores não calcularam totalmente o volume dos gritos de pânico dos passageiros. (Adam Amengual/The New York Times)

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TOLUCA LAKE, Califórnia — Após três anos de trabalho minucioso, a Universal Studios Hollywood conseguiu recentemente realizar uma façanha aparentemente impossível: construir uma montanha-russa de 116 km/h, com loopings e carros giratórios inspirados em Velozes e Furiosos, que quase não faz barulho.

A obsessão da Universal tinha um motivo. O parque é cercado por bairros residenciais e divide espaço com seus próprios estúdios de cinema. Para silenciar a atração, a empresa chegou a preencher os 1.250 metros de trilhos com brita fina, reduzindo as vibrações responsáveis pelo rugido característico das montanhas-russas.

Quando os testes sem passageiros começaram no mês passado, moradores de Toluca Lake, bairro vizinho ao parque, ficaram satisfeitos. Alguns chegaram a descrever a atração como “silenciosa como um sussurro”.

Então vieram os passageiros.

A cada 30 segundos, durante cerca de 10 horas seguidas, segundo relatos de mais de uma dúzia de moradores, o ar passou a ser tomado pelos sons de pessoas convencidas de que estão correndo risco de vida.

“Gritos. Gritos de arrepiar o sangue”, afirmou Craig Strong, que mora próximo ao Universal Studios Hollywood há 25 anos. “Algumas pessoas conseguem ouvi-los dentro de casa, mesmo com as janelas fechadas.”

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Uma moradora irritada disse que continua ouvindo os gritos mesmo depois de retirar os aparelhos auditivos. Outra teme pelos negócios: ela dá aulas de meditação em casa.

“Estamos acostumados com alguns ruídos de parque de diversões, mas os gritos são novidade e impossíveis de ignorar”, disse Judith Angel, moradora da região há 38 anos. “Nosso cérebro é programado para reagir a gritos. É biologia.”

Os vizinhos têm apenas uma exigência: que a Universal encontre alguma forma de abafar seus clientes excessivamente felizes.

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À primeira vista, a situação pode parecer apenas mais um episódio da longa história de disputas sobre barulho entre moradores e empreendimentos nos Estados Unidos. Mas o problema evidencia um desafio antigo da Universal: como expandir um dos parques temáticos mais movimentados do mundo quando casas e um estúdio de cinema em funcionamento estão praticamente colados à atração? A Fast & Furious: Hollywood Drift deveria provar que a empresa havia encontrado uma solução para essas limitações.

A Comcast, proprietária do parque, conta com a nova montanha-russa para impulsionar a frequência de visitantes e competir com a expansão da Disneyland, ao sul. Em 2024, o Universal Studios Hollywood recebeu 8,8 milhões de visitantes, queda de 10% em relação a 2023, segundo a Themed Entertainment Association.

Jason Armstrong, diretor financeiro da Comcast, afirmou a analistas em julho que os negócios já davam sinais de melhora, “embora não esperemos um avanço mais significativo até a abertura da nova montanha-russa de Velozes e Furiosos”. A Universal não revelou o custo da atração, mas analistas do setor estimam que projetos desse porte e complexidade costumam superar US$ 200 milhões.

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Até a última sexta-feira, a Hollywood Drift ainda estava em fase de “ensaios técnicos”, segundo a Universal, sem uma data oficial de inauguração além da previsão divulgada desde fevereiro: “verão”. A companhia recusou pedidos de entrevista com executivos, mas informou por e-mail a grupos de moradores que medições demonstram que a atração opera “em conformidade com os limites legais de ruído”.

Apesar disso, a Universal disse estar “avaliando medidas adicionais para reduzir ainda mais os níveis de som percebidos nos bairros vizinhos”. Trabalhadores já iniciaram a ampliação de uma barreira acústica. A empresa também anunciou que encerrará os testes da montanha-russa às 19h e limitará sua operação até as 22h durante o evento Halloween Horror Nights, quando o parque costuma funcionar até as 2h da manhã.

Os gritos foram levados em conta desde o início do projeto. Utilizando modelagem computacional, os engenheiros mapearam os pontos da atração onde os passageiros tenderiam a gritar mais e incorporaram soluções para conter o som. A Hollywood Drift recebeu duas estruturas chamadas “scream screens”, escudos de vidro em formato semelhante ao de meio tubo projetados para “conter o som na origem”. Há ainda uma barreira acústica de cerca de 286 metros construída com Acoustiblok, material denso e emborrachado usado para isolamento acústico próximo a aeroportos.

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Até os carros giratórios participaram da estratégia: segundo a Universal, eles foram programados para virar os rostos dos passageiros para longe das residências vizinhas nos momentos mais propícios aos gritos.

A empresa foi além e instalou alto-falantes próximos ao local da atração para reproduzir gravações de uma montanha-russa localizada na Flórida. O objetivo era estudar a propagação do som pela encosta íngreme do terreno.

O que funcionou nos computadores, porém, mostrou-se menos eficaz diante de pulmões humanos reais.

Agora, os moradores fazem barulho por conta própria, inundando representantes eleitos com reclamações e pressionando conselhos de bairro a intervir. Uma coalizão de residentes informou ter contratado consultores acústicos independentes. Outra afirmou ter procurado escritórios de advocacia para avaliar possíveis ações.

“Tenho a sensação de que isso está longe de acabar”, disse Leonard R. Garner, morador da região há 28 anos.

Toluca Lake foi desenvolvido nos anos 1920 e se transformou em um refúgio para personalidades de Hollywood, atraindo estrelas como Bette Davis e empresários como Roy O. Disney. A ligação com a indústria do entretenimento permanece forte até hoje: o ator Ray Romano e o radialista Rick Dees estão entre os residentes do bairro, que também abriga o exclusivo clube de golfe Lakeside Golf Club.

À medida que a imprensa local passou a relatar as reclamações nas últimas semanas, as redes sociais rapidamente se encheram de comentários ironizando “ricos reclamando de tudo”. Os moradores, porém, rejeitam essa caricatura.

“Isso afeta pessoas de todas as faixas de renda, temos todos os tipos de moradia aqui”, afirmou Kevin Dees, filho de Rick Dees e corretor de imóveis na região. “Nível de renda não tem nada a ver com merecer tranquilidade dentro da própria casa.”

Parques temáticos costumam conviver melhor com a vizinhança quando não têm vizinhos. O Walt Disney World, na Flórida, ocupa sozinho uma área de cerca de 10 mil hectares. Já o Dollywood fica instalado em um vale arborizado no leste do Tennessee.

O Universal Studios Hollywood, por outro lado, está espremido em diferentes níveis de uma encosta no meio de Los Angeles. Originalmente, nem sequer era um parque temático. Ele surgiu a partir dos passeios pelos estúdios de cinema que a Universal passou a oferecer em 1964. Ao longo das décadas, a empresa priorizou atrações fechadas ou relativamente modestas em tamanho.

A Hollywood Drift representa uma mudança radical: é a montanha-russa mais ambiciosa já construída pela Universal e, segundo especialistas do setor, a atração mais aguardada de 2026.

O desafio agora é fazê-la coexistir pacificamente com os bairros ao redor. Moradores já sugeriram soluções que vão de coberturas nos carros da montanha-russa a capacetes com isolamento acústico para os passageiros. Durante a pandemia de Covid-19, um parque japonês, preocupado com a disseminação de gotículas respiratórias, chegou a pedir aos visitantes que “gritassem apenas dentro do coração”.

A Universal, como faz ocasionalmente com atrações prestes a serem inauguradas, convidou moradores para experimentar a novidade. Garner, de 73 anos, aceitou.

“Há um momento em que ela acelera morro acima e depois despenca, e você sente que pode sair voando do assento”, escreveu ele em mensagem a um repórter.

Ele gritou?

“Claro que sim!”

c.2026 The New York Times Company