Mundo entra em fase de incerteza profunda com turbulências, diz Nobel de Economia

Daron Acemoglu, economista do MIT, afirma que, apesar da resiliência, transformações profundas continuam a sacudir economia global, remodelando vidas

Patricia Cohen The New York Times

Trabalhadores em fábrica do Vietnã (Foto de arquivo: Linh Pham/The New York Times)
Trabalhadores em fábrica do Vietnã (Foto de arquivo: Linh Pham/The New York Times)

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LONDRES — Apesar de ter sido arremessada de um lado para o outro como uma bola num jogo por guerras comerciais que mudam o tempo todo, escassez de minerais críticos e impasses tensos entre Estados Unidos e China, a economia global tem se mostrado mais resiliente do que se previa.

Mas não pense que já é hora de respirar aliviado. O carrossel não dá sinais de parar.

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“Estamos vivendo um momento singularmente turbulento”, disse Daron Acemoglu, economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que ganhou o Nobel de Economia no ano passado.

Transformações profundas continuam a sacudir a economia global, incluindo a revolução da inteligência artificial, o rápido envelhecimento das populações, a mudança climática e uma guinada mundial contra a democracia liberal e a ordem internacional baseada em regras.

Tudo isso tende a remodelar empregos, política e vidas.

A transição tem sido complicada pelo caos na formulação de políticas econômicas ao redor do mundo neste ano.

Nos Estados Unidos, declarações contraditórias são emitidas com frequência pela Casa Branca, enquanto tarifas são impostas e retiradas sem aviso.

No mês passado, por exemplo, o presidente Donald Trump suspendeu tarifas sobre carne, tomates, bananas, café e outros alimentos, enquanto na semana passada ameaçou aumentá-las sobre o arroz da Índia e da China.

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Altas de preços provocadas pelas tarifas ainda estão se espalhando pela economia dos EUA como um rato sendo digerido por uma cobra. Ao mesmo tempo, o futuro de uma grande parcela das políticas tarifárias do presidente permanece incerto até que a Suprema Corte decida sobre sua constitucionalidade.

Do lado dos gastos, Trump prometeu usar um fundo de US$ 250 bilhões gerado pelas tarifas para pagar trilhões de dólares a agricultores, contribuintes e credores. A dívida pública disparou para níveis recordes, chegando a 125% da produção total do país.

E a disparada vertiginosa do mercado de ações, impulsionada por empresas de inteligência artificial, está alimentando tanto fortunas quanto temores de uma futura quebra.

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Na Europa, a maioria dos países continua enfrentando um crescimento mais lento do que o de outras economias avançadas. Já há vários anos, a participação da União Europeia na economia global vem diminuindo em meio à concorrência mais forte dos Estados Unidos e da China.

O investimento em inteligência artificial também ficou muito para trás.

“A Europa tem um enorme problema de inovação no setor de tecnologia”, disse Acemoglu, que ganhou o Nobel por sua pesquisa sobre como instituições moldam a prosperidade nacional.

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Com 27 membros que têm prioridades e pressões internas diferentes, a União Europeia enfrenta enorme dificuldade para implementar recomendações de política pública consideradas essenciais, como fortalecer seu mercado único de comércio e capital, simplificar regulações e assinar novos acordos comerciais.

Nesta semana, por exemplo, a UE adiou a votação sobre a aprovação de um acordo comercial com Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai que vem sendo negociado há décadas.

Produtores e fabricantes são prejudicados por preços elevados de energia e enfrentam competição crescente de exportações chinesas baratas que, antes das tarifas de Trump, teriam sido direcionadas aos Estados Unidos.

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Ameaças à segurança estão pressionando os governos europeus a estourar ainda mais seus orçamentos e mergulhar mais fundo na dívida ao destinarem substancialmente mais recursos aos gastos militares.

A guerra na Ucrânia continua, e o presidente Vladimir Putin, da Rússia, mostra poucos sinais de moderar sua postura agressiva.

Trump segue enfraquecendo o compromisso dos Estados Unidos com a aliança atlântica. Uma recente análise da inteligência dinamarquesa alertou que os Estados Unidos “já não descartam o uso da força militar, mesmo contra aliados”.

Do outro lado do globo, a China ainda sofre com o colapso de seu mercado imobiliário e com a retração nos investimentos em imóveis, infraestrutura e manufatura.

Ainda assim, a influência econômica da China está crescendo. Um recorde de US$ 1 trilhão em superávit comercial global mostra que as tarifas de Trump fizeram pouco para reduzir o domínio comercial do país ou sua dependência das exportações para impulsionar a economia.

O Fundo Monetário Internacional recentemente revisou para cima a projeção de crescimento anual da China para 5%.

“Esses desequilíbrios estão se tornando insustentáveis”, disse o presidente Emmanuel Macron, da França, durante uma visita à China em dezembro.

A Europa não é o único destino para a crescente enxurrada de exportações chinesas. O Sudeste Asiático está entre as regiões que registraram os maiores aumentos.

Dani Rodrik, economista da Universidade Harvard, disse que a “resposta do Ocidente à ofensiva manufatureira da China foi equivocada e ineficaz”.

A inovação chinesa produziu avanços significativos em clima e energia, que beneficiam todo o planeta, afirmou, acrescentando que “em vez de uma condenação indiscriminada do mercantilismo chinês, o Ocidente precisa de uma estratégia mais diferenciada”.

Ele sugeriu concentrar esforços na próxima geração de tecnologia em vez de tentar copiar o que a China já fez.

No campo da inteligência artificial, a China oferece uma concorrência significativa aos Estados Unidos. Acemoglu disse que a China tem vantagem sobre os Estados Unidos em relação ao número de engenheiros bem treinados.

A derrubada da ordem comercial estabelecida há décadas, com os Estados Unidos claramente no topo e liderando o caminho, também está criando novas incertezas e custos para a economia mundial.

“Estamos certamente nesse limbo em que não há uma hegemonia, e os países se sentem mais à vontade para seguir seu próprio rumo”, disse Maurice Obstfeld, pesquisador sênior do Peterson Institute for International Economics.

À medida que acordos comerciais bilaterais improvisados se multiplicam, as empresas também precisam se preocupar mais com a origem de seus materiais e com o aumento dos custos de conformidade diante de exigências adicionais de documentação. “É um sistema de comércio muito mais sujeito a falhas do que aquele ao qual estávamos acostumados”, disse Obstfeld.

Diane Coyle, economista da Universidade de Cambridge, observou como a pandemia de covid-19 e suas consequências revelaram vulnerabilidades imprevistas na cadeia de suprimentos global.

“Acho que ainda não temos uma visão detalhada das redes de produção globais e nacionais e de onde estão esses gargalos”, ou onde eles vão aparecer quando uma nova crise surgir, disse ela.

Correntes políticas podem trazer ainda mais instabilidade à economia mundial. “Muita gente, em muitos países, sente que sua vida está andando para trás”, disse Coyle, e a desconfiança no governo está aumentando.

Eleições em vários países no próximo ano podem mudar políticas. As eleições parlamentares de meio de mandato nos Estados Unidos, que podem servir como um referendo sobre a agenda econômica de Trump, provavelmente levarão o governo a turbinar os gastos públicos — e o déficit — para estimular a economia.

As eleições gerais da Suécia mostrarão como alguns partidos populistas de extrema direita da Europa estão se saindo e testarão a suscetibilidade do sistema eleitoral a campanhas estrangeiras de desinformação.

Na maior economia da América Latina, o Brasil, onde Trump tem usado tarifas para tentar influenciar a política interna e decisões judiciais, o presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, enfrentará um desafiante populista de extrema direita.

Um grupo de conselheiros externos dos dois guardiões gêmeos do sistema financeiro global, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, capturou esse sentimento de desencaixe — e talvez até de apreensão — em uma nova análise sobre o futuro da economia mundial e o papel das instituições nele.

Eles apresentaram o relatório com uma citação baseada nos escritos de 1929 do filósofo político Antonio Gramsci: “O velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer; agora é tempo de monstros.”

c.2026 The New York Times Company