Localização, minerais e presença militar: por que Trump quer tanto a Groenlândia?

Trump voltou a demonstrar interesse em assumir o território semiautônomo da Dinamarca, alegando questões de segurança nacional dos EUA. A premiê da Dinamarca afirma que essa atitude representaria o fim da Otan

Amelia Nierenberg Maya Tekeli The New York Times

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COPENHAGUE, Dinamarca — O presidente dos EUA Donald Trump reiterou que quer tomar a Groenlândia, o que levou a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, a pedir que ele “pare com as ameaças” de anexar o território semiautônomo dinamarquês.

Na noite de domingo, após a declaração de Frederiksen, Trump reforçou sua posição. “Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional”, disse ele a repórteres a bordo do Air Force One, aparentemente encorajado após a operação americana na Venezuela e a captura de Nicolás Maduro, seu líder autoritário, e sua esposa.

Os comentários de Trump foram os mais recentes em sua longa campanha para assumir o controle da Groenlândia. Em dezembro, ele nomeou o primeiro enviado especial dos Estados Unidos para a ilha, irritando os líderes da Dinamarca e da Groenlândia.

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No domingo, um dia após o fim da operação militar dos EUA na Venezuela, Trump voltou a focar na Groenlândia, mas Frederiksen e o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, reagiram com firmeza.

Frederiksen disse que “exortaria fortemente os Estados Unidos a pararem com as ameaças”. Nielsen chamou a retórica de Trump de “totalmente inaceitável” e afirmou que seus esforços para ligar a situação na Venezuela à Groenlândia eram “errados” e “desrespeitosos”.

Por que Trump quer a Groenlândia?

Trump afirma que a ilha é vital para a segurança nacional dos EUA e argumenta que a Dinamarca não está investindo o suficiente para protegê-la adequadamente.

A Groenlândia é importante por sua localização geoestratégica. Uma base militar americana, especializada em defesa antimísseis, está na ilha.

A maior parte da Groenlândia está dentro do Círculo Polar Ártico, onde as superpotências disputam domínio militar e comercial. Controlar a ilha daria aos EUA um posto avançado em um corredor naval crucial que conecta o Oceano Atlântico ao Ártico, onde o derretimento do gelo devido às mudanças climáticas está tornando navegável uma área antes intransitável, transformando-a em palco de competição.

A Groenlândia também possui enormes reservas de minerais de terras raras, componentes essenciais para baterias, celulares, veículos elétricos e outros produtos de alta tecnologia, mercado dominado pela China.

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Alguns cientistas afirmam que partes da plataforma continental da Groenlândia podem conter algumas das maiores reservas de petróleo e gás ainda não descobertas no Ártico. Mas o governo groenlandês abandonou formalmente suas ambições petrolíferas em 2021, citando riscos ambientais e falta de viabilidade comercial.

A Groenlândia também tomou medidas legais para limitar práticas mineradoras ambientalmente destrutivas, incluindo a proibição da mineração de urânio em 2021. Essas medidas poderiam ser revertidas se os EUA adquirissem o território.

Quem controla a Groenlândia?

A Groenlândia é um território semiautônomo da Dinamarca, que a colonizou há mais de 300 anos. Por séculos, a Dinamarca governou a Groenlândia com rígido controle, regulando o comércio e permitindo contato limitado com o exterior.

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A Groenlândia conquistou autonomia em 1979, passando a controlar a maior parte de seus assuntos internos. Desde 2009, os groenlandeses têm o direito de realizar referendos sobre a independência.

A Dinamarca controla a política externa, defesa e outros aspectos da governança da Groenlândia. A ilha ainda depende economicamente da Dinamarca, recebendo uma enorme subvenção anual que financia escolas, gás barato e serviços sociais.

Trump pode tomar a Groenlândia?

De qualquer forma, não seria fácil.

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No ano passado, em um discurso ao Congresso, Trump disse: “Acho que vamos conseguir — de um jeito ou de outro.” Não está claro como ele faria isso.

Uma intervenção militar destruiria o acordo central que sustenta a OTAN, da qual Dinamarca e EUA são membros fundadores. Mas Trump não descartou essa possibilidade. “Há uma boa chance de fazermos isso sem força militar”, disse ele no ano passado, “mas não tiro nada da mesa.”

Trump também tentou usar influência econômica para mudar a opinião pública. Em seu primeiro mandato, cogitou comprar a ilha.

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Em uma postagem nas redes sociais no ano passado, fez um apelo direto aos groenlandeses: “Estamos prontos para INVESTIR BILHÕES DE DÓLARES para criar novos empregos e ENRIQUECER VOCÊS.”

Mas o governo da Groenlândia proibiu financiamento político estrangeiro e anônimo para “proteger a integridade política da Groenlândia.”

Os groenlandeses estão dispostos a fazer negócios com os EUA, mas não querem ser absorvidos: pesquisas mostram que pelo menos 85% são contra a ideia.

Como o exército da Dinamarca se compara ao dos EUA?

A Dinamarca tem um exército pequeno.

Os EUA têm o exército mais poderoso do mundo, com mais de 1,3 milhão de militares ativos.

A Dinamarca está tentando aumentar sua capacidade de defesa e recrutar mais soldados, contando atualmente com entre 7 mil e 9 mil militares profissionais, sem incluir recrutas.

Sua segurança depende fortemente da OTAN, que liga a Dinamarca — como grande parte da Europa — aos EUA há décadas.

“Ninguém na Dinamarca tem a ilusão de que deveríamos tentar defender a Groenlândia contra os EUA”, disse Mikkel Runge Olesen, pesquisador sênior do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais. “Seria impossível.”

c.2026 The New York Times Company