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JERUSALÉM — Israel afirmou que reabrirá, dentro de alguns dias, a fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito para viajantes a pé, medida que permitirá que palestinos que fugiram do enclave durante a guerra de dois anos possam voltar para casa pela primeira vez.
Autoridades de ajuda humanitária disseram esperar que a reabertura da passagem de fronteira também permita a evacuação de pessoas em Gaza que precisam de tratamento médico no exterior — estimadas em mais de 18 mil, segundo a Organização Mundial da Saúde.

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Em uma postagem nas redes sociais na manhã de segunda-feira, o gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que a passagem de fronteira, próxima à cidade de Rafah, será reaberta após a conclusão das buscas em Gaza pelos restos mortais do último cativo ainda não devolvido a Israel.
Oportunidade com segurança!
Mais tarde, na segunda-feira, o Exército israelense anunciou que finalmente havia encontrado os restos mortais do cativo — o sargento-mor Ran Gvili, policial baleado durante o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 — após meses de buscas em Gaza.
Israel concordou em permitir a reabertura da passagem de Rafah como parte do acordo de cessar-fogo fechado em outubro. Mas as lideranças israelenses exigiram que o Hamas primeiro devolvesse os corpos de todos os israelenses e estrangeiros mortos em Gaza.
Agora, com o corpo de Gvili de volta a Israel, essa missão foi concluída.
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A decisão de Israel de reabrir a fronteira — onde tanto Israel quanto o Egito devem impor uma rigorosa triagem sobre quem poderá cruzar — representa um avanço para o frágil cessar-fogo com o Hamas. Ainda assim, os próximos passos para implementar o plano do presidente Donald Trump para Gaza, que inclui desarmar o Hamas e enviar uma força internacional ao território, permanecem envoltos em incerteza.
Pelo menos 100 mil palestinos deixaram Gaza desde o início da guerra, segundo autoridades palestinas. Agora, muitos deles terão de decidir se retornam ao enclave, grande parte do qual está em ruínas após dois anos de bombardeios israelenses.
O governo israelense continua se recusando a permitir a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza. Em audiência na Suprema Corte na manhã de segunda-feira, argumentou que abrir o território para a imprensa colocaria soldados israelenses em risco, embora o cessar-fogo já tenha mais de três meses e Israel permita a entrada de trabalhadores humanitários internacionais.
Para jornalistas estrangeiros, Gaza está proibida desde o início da guerra em 2023, com exceção de um pequeno número de repórteres convidados para visitas curtas e rigidamente controladas, escoltadas por soldados israelenses. Uma antiga petição apresentada por jornalistas estrangeiros que buscam autorização para cobrir o conflito de dentro de Gaza foi analisada pela Suprema Corte israelense na segunda-feira, após sucessivos adiamentos.
Em sustentação oral, a juíza Ruth Ronnen sugeriu que a reabertura da passagem de Rafah poderia permitir a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza via Egito. Mas o advogado da Associação de Imprensa Estrangeira, Gilead Sher, argumentou que os 400 membros da entidade, entre eles funcionários do The New York Times, deveriam poder entrar a partir de Israel, onde estão baseados.
“Vemos ajuda internacional chegando diariamente à Faixa, vemos trabalhadores humanitários internacionais, funcionários da ONU e israelenses entrando”, além de representantes do Banco Mundial, disse Sher, segundo um relato conjunto da imprensa. “Mas jornalistas estrangeiros são proibidos.”
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Um advogado do governo, Yonatan Nadav, afirmou que permitir a entrada de jornalistas em Gaza representaria riscos para soldados israelenses, mas concordou em detalhar esses riscos apenas em sessão fechada da Corte.
Um advogado do Sindicato de Jornalistas de Israel, Amir Basha, também defendeu a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza, alegando que eles representam uma fonte vital — e ausente — de informação independente, ao lado do Exército israelense e dos repórteres palestinos que já estão no enclave.
“Ninguém está questionando o valor dos trabalhadores humanitários”, disse ele. “Mas jornalistas não deveriam ser os últimos, deveriam ser os primeiros entre iguais. Por causa da informação que jornalistas oferecem ao público, não é possível que o direito do público israelense à informação fique por último na fila.”
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A Suprema Corte não informou quando emitirá uma decisão.
A passagem de Rafah fica próxima do que um dia foi a cidade de Rafah, no sul da Faixa de Gaza, hoje em grande parte devastada pelas forças israelenses.
Nos primeiros nove meses da guerra, dezenas de milhares de palestinos conseguiram fugir para o Egito através da passagem. Alguns foram patrocinados por organizações internacionais de ajuda humanitária que coordenaram sua saída com Israel e Egito. Muitos outros pagaram propinas exorbitantes a intermediários ligados ao governo egípcio para obter documentos de saída.
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Em maio de 2024, essa rota frágil de escape foi cortada quando forças israelenses avançaram ao longo do lado de Gaza da fronteira e tomaram o controle da passagem. Israel e Egito não conseguiram chegar a um acordo sobre as condições para a reabertura do ponto de travessia, que permaneceu em grande parte fechado desde então.
O fechamento interrompeu uma rota crucial para palestinos gravemente doentes e feridos em busca de tratamento médico fora do sistema de saúde devastado do enclave. Alguns palestinos, como pacientes com câncer que necessitam de quimioterapia, morreram sem acesso ao tratamento adequado.
O potencial de um novo conflito em Gaza ainda é bastante real. O Hamas consolidou seu controle sobre metade do enclave, o Exército israelense controla a outra metade, e a maior parte da população continua amontoada em acampamentos improvisados ou entre os escombros de casas parcialmente destruídas.
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Kamel Ayyad, de 53 anos, fugiu para o Egito em novembro de 2023 com a esposa e as três filhas. Embora ele diga que espera voltar a Gaza, observa que a maioria de seus amigos e conhecidos considera que retornar agora é arriscado demais.
“Gaza ainda vive uma guerra fria, ou uma guerra não oficial — não é um lugar estável”, disse Ayyad, funcionário da igreja ortodoxa grega de São Porfírio, em Gaza. “Ninguém quer apostar com a vida da família.”
Mas está longe de ser claro por quanto tempo os palestinos poderão permanecer no Egito, que deixou claro que sua presença deve ser temporária. “Estamos entre a cruz e a espada”, disse Ayyad.
c.2026 The New York Times Company