Herdeiro não queria mais trabalhar no hotel da família e criou empresa bilionária

Richard Valtr transformou as frustrantes madrugadas de trabalho aos 14 anos em um negócio de tecnologia hoteleira de US$ 2,5 bilhões

Catherina Gioino Fortune

Richard Valtr, fundador da empresa de tecnologia hoteleira Mews (Foto: Divulgação/Mews)
Richard Valtr, fundador da empresa de tecnologia hoteleira Mews (Foto: Divulgação/Mews)

Publicidade

Richard Valtr construiu uma das empresas de tecnologia para hotelaria mais valiosas do mundo simplesmente porque, quando adolescente, queria parar de trabalhar no turno da madrugada.

“Sempre me lembro de ter 14 anos, nas férias de verão, pensando como aquilo era injusto”, disse o fundador da Mews à Fortune, na conferência Unfold de sua empresa, em Amsterdã (Países Baixos). “Meu ódio era direcionado aos sistemas.”

Leia também: Ele ficou rico com um império de cosméticos, mas largou tudo para virar padre

Continua depois da publicidade

Enquanto os amigos aproveitavam o verão, o jovem Valtr passava a madrugada trabalhando no hotel boutique da família, em Praga, curvado sobre comprovantes de cartão de crédito à 1h da manhã, conciliando cada pagamento com cada conta de hóspede como parte da temida “auditoria noturna” da indústria hoteleira. O ritual levava cerca de duas horas e precisava ser feito todas as noites.

Essa tarefa exaustiva virou o impulso para Valtr criar o Mews, um software de gestão para hotéis e hospitalidade usado hoje por mais de 15 mil propriedades no mundo.

Valtr disse que criou o Mews, que funciona como um sistema integrado para hoteleiros administrarem reservas, check-ins, pagamentos e operações, simplesmente porque acreditava que precisava existir uma forma melhor do que conferir comprovantes manualmente. “Canalizei toda a minha energia para as tarefas em si”, disse ele, “porque eu pensava: isso é muito idiota.”

De recepcionista noturno a unicórnio

A ideia surgiu em 2012, quando Valtr tentou modernizar o setor pela primeira vez enquanto ganhava experiência prática no hotel da família, o Emblem Hotel, no centro de Praga.

Foi ali que percebeu que os sistemas de gestão hoteleira pareciam ter sido projetados nos anos 1990 — e isso porque realmente tinham sido.
Quando saiu em busca de algo melhor, não encontrou nada.

“Pensei: dane-se, quão difícil pode ser construir isso sozinho?” Então, junto com Matthijs Welle, ex-hoteleiro que entrou para a empresa em 2013, os dois expandiram a Mews lentamente — e depois rapidamente — pela Europa e pelos Estados Unidos.

Continua depois da publicidade

Em janeiro de 2026, a Mews levantou US$ 300 milhões, elevando o valor da empresa para US$ 2,5 bilhões e consolidando seu status de unicórnio e de uma das empresas de tecnologia para hotelaria mais valiosas do mundo.

Foi o ápice de uma trajetória de captação que já soma US$ 710 milhões em 14 rodadas, incluindo um aporte de US$ 75 milhões liderado pela Tiger Global em 2025 e outra rodada de € 101 milhões no ano anterior.

“Existe um motivo para termos seguidores, existe um motivo para termos uma comunidade”, afirmou Valtr. “A força da Mews está na sua comunidade e nas pessoas realmente apaixonadas pelo que estamos fazendo.”

Continua depois da publicidade

Valtr atribui esse crescimento acelerado ao fato de a Mews ter sido construída por pessoas que vieram da própria indústria. “Um dos maiores problemas deste setor”, explicou, “é que as pessoas que constroem os sistemas nunca trabalharam naquela recepção.”

Segundo ele, as especificações dos sistemas antigos costumam ser definidas de cima para baixo — pelo diretor financeiro, gerente-geral ou dono da franquia —, por pessoas que querem controle em vez de pensar no jovem de 14 anos trabalhando no turno da madrugada.

Valtr disse que alguém “relativamente poderoso” dentro de um hotel frequentemente insiste em determinadas especificações, “mas elas não são criadas por quem realmente faz o trabalho. São pessoas que apenas querem controlar tudo.”

Continua depois da publicidade

“Elas podem estar pensando em como ganhar mais dinheiro, mas não sob a perspectiva de: como faço para que as pessoas que trabalham no meu hotel me façam ganhar mais dinheiro?”

Valtr cita como exemplo o gerente da recepção, responsável por fazer check-ins, garantir que os quartos estejam prontos, acompanhar o horário de chegada dos hóspedes e verificar se eles precisam de transporte durante a estadia.

Ele descartou a maioria dos sistemas concorrentes, dizendo que estão focados em reduzir burocracia e logística em vez de ajudar a criar experiências e interações mais autênticas com os hóspedes.

Continua depois da publicidade

“Sempre tentamos pensar nisso”, afirmou ele, referindo-se à prática corporativa conhecida como “dogfooding”, quando uma empresa usa o próprio produto antes de lançá-lo para os clientes. “Como podemos usar nosso próprio produto, para que aquilo que pregamos também seja aplicado por nós mesmos?”

Essa abordagem fez a Mews vencer o prêmio de Melhor PMS (sistema de gestão de propriedades) do Hotel Tech Report nos últimos três anos consecutivos e, segundo Valtr, explica por que “todos os sistemas agora se parecem com o nosso”.

A empresa atende cerca de 15 mil hotéis em 85 países, processa quase US$ 20 bilhões em transações anuais e já registrou mais de 42 milhões de check-ins de hóspedes. O lucro bruto de SaaS cresceu 55% no ano anterior à captação.

E Valtr, que ainda se descreve como um “hoteleiro frustrado”, diz que a missão não mudou desde quando tinha 14 anos e estava furioso à 1h da manhã em Praga.

“Queremos garantir que, no fim das contas, todos os nossos hotéis sintam que são os mais lucrativos.”

2026 Fortune Media IP Limited