Gianni Infantino: o homem que está “Trumpificando” a Fifa

Relacionamento entre presidente da entidade máxima do futebol e líder americano se aprofundou nos anos anteriores à Copa do Mundo

The New York Times Rebecca Ruiz Tariq Panja

O presidente Donald Trump, segurando uma réplica da taça da Copa do Mundo masculina, com Gianni Infantino, presidente da FIFA, no Salão Oval, em 22 de agosto de 2025. Infantino tem buscado abertamente o apoio do presidente dos EUA. (Foto: Tierney L. Cross/The New York Times)
O presidente Donald Trump, segurando uma réplica da taça da Copa do Mundo masculina, com Gianni Infantino, presidente da FIFA, no Salão Oval, em 22 de agosto de 2025. Infantino tem buscado abertamente o apoio do presidente dos EUA. (Foto: Tierney L. Cross/The New York Times)

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O que as pessoas costumam lembrar é o prêmio da paz.

No outono passado, Gianni Infantino, presidente da Fifa, teve uma ideia. O Prêmio Nobel da Paz acabara de ser concedido à política venezuelana María Corina Machado. O presidente Donald Trump, que havia feito campanha abertamente pelo prêmio, ficou irritado.

Infantino, que buscava aproximar Trump como aliado, enxergou uma oportunidade. Por que a Fifa, entidade que comanda o futebol internacional, não poderia ter seu próprio prêmio da paz? O primeiro homenageado: Trump, é claro.

O Prêmio da Paz da Fifa virou manchete porque levou a um novo patamar os esforços de Infantino para bajular e conquistar a simpatia de Trump. A premiação, montada às pressas, irritou muitos dirigentes do futebol, que disseram que ela constrangia a Fifa e dava à organização um tom partidário. Trump, por sua vez, chamou o prêmio de “verdadeiramente uma das grandes honrarias da minha vida”.

Mas, embora gestos grandiosos como o Prêmio da Paz da Fifa tenham atraído atenção, eles acabam ofuscando uma história maior sobre como a Fifa vem se transformando sob o comando de Infantino. O presidente da entidade não está apenas indo longe para cultivar sua relação com Trump; ele também está tornando a organização mais parecida com Trump nesse processo.

A trumpificação

A entidade que governa o futebol internacional deveria fechar contratos de licenciamento com hotéis para o uso do nome da Fifa? Sob Infantino, a Fifa está explorando exatamente isso, assim como a família Trump faz há muito tempo, apuramos.

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Deveria existir uma criptomoeda da Fifa? Infantino, que neste ano participou de uma cúpula sobre cripto em Mar-a-Lago, o resort do presidente na Flórida, também explorou essa possibilidade, assim como os Trump.

A sede da Fifa fica em Zurique. Mas a organização abriu recentemente um reluzente hub norte-americano em Miami, onde Infantino mora — e ele vem operando muito dentro da órbita do presidente.

A organização assumida por Infantino já enfrentava controvérsias antes de sua chegada. Quando ele se tornou presidente da Fifa, em 2016, a entidade ainda cambaleava por causa de um caso de corrupção apresentado pelo Departamento de Justiça dos EUA, que detalhava décadas de esquemas de propina e comissões ilícitas.

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Na verdade, Infantino se propôs a reabilitar a reputação da Fifa, especialmente nos Estados Unidos — reformulando a imagem da entidade como uma organização estreitamente alinhada ao governo americano e não mais vista com desconfiança por suas autoridades.

Mas, para isso, foi preciso se aproximar de uma administração marcada por seus próprios escândalos e abraçar a lógica transacional de Trump, que envolve tirar proveito de relações tanto para possível lucro quanto para ganho político.

Gianni Infantino, presidente da FIFA, e o secretário de Estado Marco Rubio assistem à partida entre Estados Unidos e Paraguai em Los Angeles, em 12 de junho de 2026. Infantino tem buscado abertamente o favor do presidente dos EUA. (Simbarashe Cha/The New York Times)

No primeiro mandato de Trump, Infantino elogiou o presidente durante seus processos de impeachment e mesmo com a queda nos índices de popularidade. O investimento compensou. O acesso de Infantino ao governo Trump tornou possível uma “visita de cortesia”, como descreveu um comunicado da Fifa, com a procuradora-geral dos EUA, que supervisionava os casos da Fifa. Infantino saiu do encontro dizendo estar “plenamente convencido” de que “a credibilidade e a reputação da Fifa estão sendo restauradas no mais alto nível”.

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Em estilo tipicamente trumpiano, essa proximidade também gerou potenciais oportunidades de negócio. Sob o comando de Infantino, a Fifa discutiu com o então secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, um investimento em um serviço de streaming, segundo um alto funcionário da entidade. Nada se concretizou, mas apenas porque o projeto foi colocado em pausa, apuramos.

Infantino também tentou cortejar o governo Biden. Mas integrantes da administração mantiveram distância, receosos de se aproximar demais de uma organização marcada por escândalos, disseram ex-integrantes do governo.

A relação com Trump passou a render dividendos ainda maiores desde sua volta à Casa Branca. Infantino apareceu em posição de destaque entre autoridades na posse de Trump no ano passado e acompanhou o presidente em viagens oficiais ao exterior — elevando o perfil da Fifa e o seu próprio.

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A era Infantino

A Copa do Mundo deste ano — organizada em conjunto por EUA, Canadá e México — pode ser o teste definitivo para saber se toda essa construção de relacionamento valeu a pena.

Os apoiadores de Infantino dizem que ele está garantindo que um presidente volátil não atrapalhe o torneio. (Um alto dirigente da Fifa afirmou acreditar que havia um entendimento informal de que as autoridades, por exemplo, não fariam ações de fiscalização imigratória do lado de fora dos estádios — algo negado por um porta-voz da entidade.)

As controvérsias deste mês sobre a recusa dos EUA em permitir a entrada de um árbitro somali e os desafios logísticos enfrentados pela seleção iraniana ainda não ofuscaram o futebol, e mostram o quanto Trump poderia ser disruptivo se quisesse. “Acho absolutamente crucial, para o sucesso de uma Copa do Mundo, ter uma relação próxima com o presidente”, disse Infantino no ano passado.

Mas a transformação da Fifa como resultado da relação entre Trump e Infantino pode perdurar de formas que sobreviverão ao torneio. A Fifa tem regras de neutralidade política. Muitos dirigentes do futebol expressaram preocupação com o fato de Infantino ter cruzado linhas éticas em sua relação com Trump. Alguns apresentaram denúncias formais à área de ética. A preocupação é que a era Infantino tenha substituído a corrupção desenfreada do período anterior por problemas de outra natureza.

c.2026 The New York Times Company