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CUMANÁ, Venezuela — A água potável em Cumaná está chegando a níveis extremamente baixos. Apagões diários castigam a cidade. O vento atravessa os restos saqueados de sua outrora ilustre universidade. Catadores vasculham lixões em busca de restos de comida.
Grande parte de Cumaná, cidade do leste da Venezuela que já foi uma joia da base industrial do país, tem a aparência de uma zona de guerra marcada pela destruição.
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Essa cidade costeira é um mundo muito diferente de Caracas, a capital, que está à beira de uma recuperação amplamente protegida da decadência que afeta grande parte da Venezuela.
Depois que forças dos Estados Unidos depuseram e capturaram o ex-líder Nicolás Maduro, em janeiro, empresários do setor petrolífero e magnatas das criptomoedas correram para Caracas para explorar oportunidades de negócios.
Cumaná conta uma história muito diferente — a de uma economia devastada no restante do país, cuja reconstrução pode levar gerações.
Em maio, percorri de carro o leste da Venezuela, em uma viagem de um dia inteiro que passou por mais de 20 postos de controle militares e policiais, para ver de perto as condições de vida fora da capital.
“Você conhece aqueles ataques com mísseis na Ucrânia de que estão sempre falando?”, disse José Luis Sánchez, 56 anos, presidente da Associação de Economistas de Cumaná, um grupo empresarial. Com um toque de humor sombrio, acrescentou: “Às vezes dizemos que nossa cidade parece Kiev.”
Não foram bombardeios que devastaram grande parte de Cumaná. Em vez disso, o domínio de um único partido, a gestão econômica desastrosa e campanhas de perseguição ideológica são os responsáveis, dizem pessoas que agora expressam abertamente sua discordância na cidade de meio milhão de habitantes, à medida que as restrições autoritárias à liberdade de expressão na Venezuela começam a diminuir.
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Quando Hugo Chávez chegou ao poder há 27 anos, Cumaná figurava entre outros polos industriais, como Ciudad Guayana e Valencia, ajudando a transformar a Venezuela em uma potência regional. A cidade era um centro da indústria pesqueira e de conservas para toda a bacia do Caribe, processando uma quantidade impressionante do atum e das sardinhas consumidos em toda a América do Sul.
Os estaleiros que construíam embarcações pesqueiras comerciais prosperavam. O grande orgulho de Cumaná era uma fábrica da Toyota que produzia Land Cruisers, os lendários veículos com tração nas quatro rodas que se tornaram presença constante em toda a Venezuela.
Então Chávez iniciou uma onda de estatizações de empresas privadas, peça central de seu plano de construir uma economia socialista sob seu controle. Cumaná e o estado vizinho de Sucre, um reduto chavista, tornaram-se um laboratório dessas iniciativas.
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As desapropriações, inicialmente voltadas para garantir a segurança alimentar doméstica, acabaram privando a indústria de conservas de Cumaná do capital privado. A queda da produção em outras empresas estatais do país privou as fábricas do que elas mais precisavam: latas metálicas.
Muitas fábricas de conservas agora operam com dificuldade, estão temporariamente fechadas ou completamente abandonadas, como uma localizada no bairro Caigüire, ampliando a paisagem de ruínas de Cumaná.
A fábrica de montagem da Toyota, repetidamente paralisada por greves e impasses sindicais apoiados pelo governo, reduziu suas operações gradualmente. A espiral da economia rumo à hiperinflação, há uma década, acabou forçando seu fechamento e o de todo o ecossistema de fornecedores locais.
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Com seu setor manufatureiro destruído, Cumaná agora depende, como grande parte do país, do governo venezuelano para atender às necessidades mais básicas.
Esse novo capítulo não está indo bem.
Um deslizamento de rochas em fevereiro, dentro de um túnel do reservatório que abastece Cumaná, provocou o colapso do sistema de abastecimento.
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Incapazes de resolver o problema, as autoridades determinaram um severo programa de racionamento para preservar a pouca água que ainda pode ser transportada por caminhões.
Cenas de caos agora acompanham a chegada desses caminhões, com moradores implorando — e às vezes gritando — para poder encher galões de plástico. Soldados armados com fuzis semiautomáticos permanecem de prontidão para impedir confrontos.
Quando os caminhões públicos não chegam, caminhões-pipa privados suprem a demanda. Mas as pressões inflacionárias fizeram os preços da água dispararem, e um único galão de 20 litros pode custar até US$ 8 — um peso significativo para famílias que já sobrevivem com baixos salários e um auxílio mensal do governo de US$ 240.
Quem não pode pagar por água engarrafada é obrigado a caminhar até pontos públicos de coleta ou poços improvisados. Empresas fecharam as portas. Escolas suspenderam aulas porque as instalações não dispõem de água para a higiene básica e os banheiros.
Yamileth Sotillo, 43 anos, empregada doméstica que vive em Brisas del Golfo, uma ocupação irregular, disse que esperava que as coisas melhorassem depois que forças dos Estados Unidos capturaram Maduro em janeiro e o substituíram por Delcy Rodríguez, sua vice-presidente.
Mas a crise da água tornou uma situação já ruim muito pior, afirmou.
“Todavía no se ve queso en la tostada”, disse Sotillo, usando uma expressão popular venezuelana que pode ser traduzida livremente como: “Ainda não dá para ver nenhuma melhora.”
Em outras palavras: nada mudou até agora.
Outros moradores de Brisas del Golfo disseram ter medo de falar com um repórter. Segundo eles, ainda receiam represálias dos líderes do Conselho Comunal, a estrutura organizacional que administra a governança local na Venezuela e atua como os olhos e ouvidos do partido governista nas ruas.
Segundo esses moradores, os líderes dos conselhos monitoram publicações nas redes sociais e conversas do cotidiano e podem restringir benefícios como alimentos básicos ou combustível para cozinhar caso considerem alguém desleal ao Estado.
Outro símbolo trágico da disfunção de Cumaná é o campus da Universidad de Oriente, fundada em 1958, quando a Venezuela entrou em um período de renovação democrática. Situada em uma colina com vista para o Caribe, tornou-se um dos mais importantes centros de pesquisa marinha da América Latina.
Antes atendendo mais de 15 mil estudantes, hoje está em grande parte em ruínas. Depois de se transformar em um centro de protestos contra o governo, autoridades locais retaliaram há cerca de uma década permitindo que saqueadores levassem itens como fiação de cobre, aparelhos de ar-condicionado, instalações sanitárias e tubulações, segundo ex-professores e ex-alunos.
Quando os protestos voltaram a ganhar força alguns anos depois, os saques também retornaram.
Trabalhando à noite, os invasores queimavam livros para conseguir enxergar o que estavam saqueando, disseram ex-funcionários da universidade. Um desses incêndios destruiu milhares de volumes da Biblioteca Central, cujas páginas carbonizadas ainda podem ser vistas hoje.
Agora, prédio após prédio no campus parece ter sido destruído por ataques de drones. Apenas cerca de 2 mil alunos permanecem, estudando em estruturas improvisadas construídas às pressas próximas à entrada da universidade.
O colapso dos sistemas de água e educação é apenas parte dos problemas de Cumaná, que reivindica o título de cidade de colonização europeia continuamente habitada mais antiga da América do Sul, fundada mais de meio século antes de Caracas.
Em um lixão a céu aberto próximo a hotéis decadentes que antes recebiam turistas em busca de sol, idosos procuram comida, lenha e latas de alumínio para reciclagem.
Como em outras partes do país rico em petróleo fora de Caracas, a energia elétrica é interrompida por várias horas quase todos os dias.
Isso transforma algo banal, como ir a um shopping center, em uma experiência surreal.
Por volta do meio-dia, em um dia recente, a garagem do shopping Hipergalerías estava completamente às escuras, obrigando quem chegava de carro a usar a lanterna do celular para encontrar o caminho.
Dentro do shopping, escadas rolantes e elevadores haviam parado de funcionar. Sem ar-condicionado e com temperaturas externas se aproximando dos 32°C, a enorme estrutura parecia uma sauna.
Mesmo assim, alguns consumidores circulavam pelo local. A maioria das lojas estava sem energia, mas algumas poucas que possuem geradores próprios permaneciam abertas.
“Obviamente isso é terrível para os negócios”, disse Taís Mago, 35 anos, gerente de um restaurante no shopping que precisa fechar as portas sempre que ocorrem apagões.
Em outras partes de Cumaná, pichações pró-governo cobrem muros por toda a cidade, como se quisessem lembrar às pessoas quem continua no comando. Embora as imagens de Hugo Chávez tenham desaparecido de grande parte de Caracas, elas ainda são onipresentes em Cumaná.
Entre os slogans exibidos estão: “O turismo é a arma secreta do novo modelo econômico da Venezuela.” “A esperança está nas ruas.” “Quando existe determinação, nada é impossível.”
c.2026 The New York Times Company