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Um dos principais provedores de dados do mundo divulgou seu mais recente relatório econômico na terça-feira (14). No entanto, a previsão mediana do Fundo Monetário Internacional (FMI) mal começa a capturar a montanha-russa em que a economia global se encontra.
Enquanto o FMI preparava seu relatório, uma enxurrada de acontecimentos já estava alterando o cenário. Novas tarifas dos EUA sobre madeira, móveis e armários de cozinha importados, que devem elevar o custo da construção de casas, entraram em vigor na própria terça. O mesmo ocorreu com a rodada inicial de taxas portuárias mais altas que China e Estados Unidos imporão aos navios um do outro.

Trump pode impor tarifas de 100% à China, a depender de movimento sobre terras raras
Jamieson Greer, contudo, afirmou que pode ser difícil para Pequim encontrar uma saída

China quer “derrubar todo mundo”, diz secretário do Tesouro dos EUA
Em entrevista ao Financial Times, Scott Bessent afirmou que a China tenta prejudicar a economia mundial ao restringir exportações de minerais críticos e sancionar empresas ligadas aos EUA
A virada na roda do comércio na terça-feira foi apenas mais um clique em uma série de repercussões desencadeadas pela promessa do presidente Donald Trump de quebrar a ordem econômica mundial. Mais virão.
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Na semana passada, Pequim decidiu intensificar drasticamente as restrições à exportação de metais de terras raras, materiais essenciais para a fabricação de semicondutores, celulares, turbinas eólicas e quase todos os outros gadgets modernos. Novas restrições a equipamentos necessários para produzir baterias para carros elétricos também estão programadas para entrar em vigor no próximo mês.
A fúria inicial de Trump diminuiu durante o fim de semana, depois que sua resposta levou ao declínio mais acentuado nas ações desde abril, quando o bombardeio inicial de tarifas do presidente foi anunciado. Ainda assim, sua ameaça de aplicar uma tarifa adicional de 100% sobre as importações chinesas permaneceu em aberto.
“O relacionamento EUA-China é altamente volátil”, disse Richard Portes, professor da London Business School. “Realmente não se sabe o que esperar de um dia para o outro, e isso é típico da atual administração.”
A tensão acirrada entre as duas superpotências econômicas está pegando outros países — ou seja, quase todos os países — no fogo cruzado. As restrições da China a metais e ímãs, por exemplo, afetariam as montadoras europeias que usam esses materiais e os transportam pelas fronteiras dentro da Europa. E as tarifas sobre navios fabricados na China se aplicam até mesmo a companhias de navegação não chinesas que param em portos americanos.
Na terça-feira, o governo chinês aumentou a retaliação ao adicionar cinco subsidiárias americanas da companhia de navegação sul-coreana Hanwha à sua lista de sanções, acusando as subsidiárias de “apoiar e ajudar” os Estados Unidos em suas ações na indústria de construção naval.
Pequim e Washington também estão essencialmente pressionando nações ao redor do globo a tomar partido. O México, um dos maiores compradores mundiais de carros chineses, propôs uma tarifa de 50% no mês passado sobre esses veículos após forte lobby da administração Trump.
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A Índia, por sua vez, se aproximou mais da China desde que a Casa Branca, irritada com a compra contínua de petróleo russo por Nova Délhi, impôs tarifas de até 50% sobre produtos indianos.
Em agosto, o primeiro-ministro Narendra Modi visitou a China pela primeira vez em sete anos para participar de uma conferência de segurança e economia — uma demonstração pública do líder indiano de que seu país tem muitos aliados caso a administração Trump continue a puni-lo.
Desde que Trump assumiu o cargo, as mudanças na política de comércio global têm acontecido ao mesmo tempo em alta velocidade e em câmera lenta, reverberando de maneiras amplas e imprevisíveis.
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Quando Trump anunciou seu plano para aplicar tarifas de 50% sobre a maior parte do aço e alumínio que entra nos Estados Unidos, as siderúrgicas britânicas se sentiram sortudas. Seu governo já havia fechado um acordo de que seu aço seria taxado em apenas metade desse valor — 25%.
Mas o humor na Grã-Bretanha piorou consideravelmente na semana passada quando a União Europeia anunciou seu próprio conjunto de tarifas punitivas sobre o aço importado para seu bloco de 27 nações. A política foi um golpe para a indústria siderúrgica britânica, que envia quase 80% de suas exportações para a UE.
A Grã-Bretanha, no entanto, não era o alvo da política — apenas um espectador dos movimentos de Pequim e Washington.
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A tarifa de 50% da UE foi direcionada à China, acusada de despejar aço com preço abaixo do mercado global. O imposto também foi projetado com o objetivo de colocar a UE em uma posição de negociação melhor com os Estados Unidos.
“A UE está pronta para trabalhar com países de mentalidade semelhante com o objetivo de proteger suas economias da supercapacidade global”, disse o braço executivo do bloco na semana passada. “Continuaremos explorando maneiras de trabalhar em conjunto com os EUA.”
O impulso protecionista também está se tornando viral, com Canadá, Brasil e México tomando medidas para proteger suas siderúrgicas nacionais.
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Apesar das frequentes guinadas na política comercial, no entanto, a economia global permanecerá altamente integrada, disse Lucrezia Reichlin, professora da London Business School, mesmo que o centro de gravidade se desloque em direção à Ásia e para longe do Ocidente.
Por enquanto, o crescimento está desacelerando tanto nos Estados Unidos quanto na China, enquanto uma imprevisibilidade generalizada caracteriza as perspectivas de curto e longo prazo.
Portes resumiu a dinâmica entre as duas maiores economias do mundo: “A China tem objetivos estáveis, claros e determinados. A administração Trump muda de um dia para o outro, em suas visões e suas políticas.
“O grau de incerteza é enorme”, acrescentou, “e isso tem consequências para a economia global.”
c.2025 The New York Times Company