Com medo de invasão russa, Polônia treina população em técnicas de sobrevivência

Em meio a uma economia pressionada por inflação, energia cara e insegurança global, governos europeus tentam fortalecer a defesa

Patricia Cohen Fortune

Civis poloneses participam de treinamento como proteção para eventual ataque da Rússia (Maciek Nabrdalik/The New York Times)
Civis poloneses participam de treinamento como proteção para eventual ataque da Rússia (Maciek Nabrdalik/The New York Times)

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CIESZYN, Polônia — Às 8h de um sábado, quase todos os lugares da sala já estavam ocupados. Havia famílias e colegas de escritório, casais de mãos dadas, avós e adolescentes. Um grupo de oito pessoas — mães e suas filhas adolescentes — compartilhava salgadinhos, bebidas e creme para as mãos.

Eles se reuniram na sede do 133º Batalhão de Infantaria Leve da 13ª Brigada Territorial de Defesa da Silésia, em Cieszyn, no sul da Polônia, para um treinamento de preparação para emergências.

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As sessões de treinamento para civis fazem parte de um novo e ambicioso plano do governo polonês para preparar seus cerca de 38 milhões de habitantes para a possibilidade de um ataque militar da Rússia.

O programa, wGotowosci, ou “Prontidão”, é “o maior treinamento de defesa da história da Polônia”, disse o ministro da Defesa do país, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, ao anunciá-lo em novembro. Ele espera que 400 mil cidadãos concluam o treinamento até o fim deste ano.

Enquanto a guerra na Ucrânia entra em seu quinto ano, a ameaça de uma Rússia beligerante pesa fortemente sobre a Europa. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, vem provocando repetidamente os líderes europeus com guerras híbridas ou de “zona cinzenta”, testando a determinação da OTAN com campanhas de desinformação, sabotagens e ataques cibernéticos.

O desafio para a Polônia — e para todos os outros países da Europa — é como fortalecer uma economia em tempos de paz enquanto se prepara para a guerra. E essa questão se tornou ainda mais urgente à medida que a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã aumentou as tensões entre o presidente Donald Trump e os líderes europeus, que se recusaram a participar da campanha de bombardeios e do bloqueio americano ao Estreito de Ormuz.

A Polônia reagiu mais rápido e com mais intensidade do que qualquer outro país europeu, elevando seus gastos com defesa para 5% do Produto Interno Bruto e comprando tanques, caças, drones, mísseis, armas e munições como se estivesse em uma liquidação de Black Friday.

O país também está ampliando suas Forças Armadas profissionais, que contam com 215 mil integrantes e já são a terceira maior da aliança do Atlântico Norte, atrás apenas dos Estados Unidos e da Turquia.

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Mas preparar civis sem provocar pânico representa um desafio logístico, econômico e psicológico diferente. O treinamento precisa ser integrado a vidas já cheias de responsabilidades em casa, no trabalho, na escola e em outras áreas.

Os poloneses viram de perto o impacto de uma invasão. Milhões de ucranianos, em sua maioria mulheres e crianças, cruzaram a fronteira desde os primeiros ataques-surpresa da Rússia ao amanhecer de fevereiro de 2022.

“A segurança começa na cabeça da sociedade”, disse o tenente-coronel Dariusz Pawlik ao grupo no início da sessão de sábado. “Espero que este treinamento seja útil para vocês e desejo que nunca precisem usá-lo.”

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Vários países próximos ou vizinhos da Rússia — incluindo Finlândia, Suécia, Noruega, Estônia e Lituânia — também estão realizando algum tipo de preparação civil para defesa.

Na Polônia, o comando do Exército reconheceu “que nossa defesa civil era praticamente inexistente”, disse o tenente Tomasz Dzierga, porta-voz do batalhão.

O curso de um dia inteiro, com seções sobre cibersegurança, preparação para crises e primeiros socorros de emergência, é aberto a estudantes, pais e mães que ficam em casa, trabalhadores em tempo integral e idosos.

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Para Natalia Szoltysek, de 25 anos, esse é um primeiro passo para possivelmente ingressar no Exército como soldado profissional.

“Sinto um impulso, quero ajudar”, disse Szoltysek durante o intervalo para o almoço, quando o refeitório distribuía sopa de legumes em tigelas brancas. Ela deixou o emprego em dezembro para começar um treinamento físico. “Já perdi muito peso”, afirmou com orgulho, puxando a cintura de sua calça jeans com renda.

No braço direito, ela tem uma tatuagem vermelha e preta de uma bala atravessando um crânio, inspirada, contou ela entre risadas, pelo videogame Call of Duty. Na parte superior do peito, a palavra “caos” está tatuada em letras góticas cercadas por rosas vermelhas.

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Para Szoltysek, o clima atual parece mais uma Guerra Fria do que um período de paz. “Tem alguma coisa no ar”, disse ela.

A sessão de sobrevivência ofereceu instruções sobre como usar itens comuns da casa em situações de emergência. Fiapos de secadora servem como excelente material para acender fogo. Um saco de lixo grande pode proteger da chuva. Um balde com tampa pode funcionar como banheiro improvisado.

Houve longas discussões sobre como encontrar e purificar água, além do que incluir em uma mochila de fuga para emergências: isqueiro, lanterna, fita adesiva, corda, medicamentos, faca, rádio, baterias recarregáveis, cobertor e comida.

O instrutor deu outras dicas. Se você precisar evacuar o local, deixe uma mensagem para um familiar em uma parede — e não em um pedaço de papel — usando um marcador permanente. E escreva informações importantes de contato na pele de crianças pequenas caso elas se percam.

Jacek Gluchowski, de 52 anos, e Tomasz Cios, de 51, que trabalham juntos como gerentes de projeto em uma empresa de móveis, se inscreveram para uma série de treinamentos. Há mais de um ano, eles discutem quais suprimentos devem manter à disposição em caso de ataque. Agora, disse Gluchowski, ele pretende preparar uma mochila de emergência para cada integrante da família.

A pressão para aumentar a prontidão de defesa acontece em um momento em que os governos europeus enfrentam enorme pressão econômica. Muitos países lidam com crescimento lento e altos níveis de endividamento enquanto precisam destinar mais recursos para segurança.

E agora, as perspectivas econômicas pioraram consideravelmente devido ao aumento dos custos de combustível, fertilizantes e outros produtos provocado pelo fechamento efetivo do Estreito de Ormuz.

Magdalena Biskup, integrante do grupo de mães e filhas, disse que foi a chegada de um guia de preparação para emergências de 48 páginas, enviado recentemente pelo governo a todas as residências, que pela primeira vez tornou concreta a realidade da ameaça.

Mesmo assim, vários participantes disseram que amigos e familiares não compartilham necessariamente do mesmo nível de preocupação. “Eles não querem ouvir falar disso”, disse Krystian Kucharski, de 33 anos, que participou do treinamento com a namorada. “Fingem que não percebem.”

c.2026 The New York Times Company