CEO do Google diz que, em 10 anos, data center no espaço deve virar “novo normal”

Google aposta em data centers de IA no espaço para aproveitar energia solar e reduzir impacto climático

Sasha Rogelberg Fortune

Sundar Pichai, CEO da Alphabet, dona do Google (Foto: David Paul Morris/Bloomberg/Getty Images/The New York Times Licensing Group)
Sundar Pichai, CEO da Alphabet, dona do Google (Foto: David Paul Morris/Bloomberg/Getty Images/The New York Times Licensing Group)

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Os planos “moonshot” do Google para crescer em inteligência artificial estão ficando literalmente espaciais.

Em entrevista à Fox News, o CEO Sundar Pichai afirmou que o Google deve começar em breve a construir data centers de IA no espaço. A iniciativa faz parte do Project Suncatcher, lançado no fim do ano passado, que busca formas mais eficientes de abastecer data centers — grandes consumidores de energia — usando energia solar.

“Uma das nossas moonshots é: como ter, um dia, data centers no espaço para aproveitar melhor a energia do sol, que é 100 trilhões de vezes maior do que toda a energia que produzimos hoje na Terra?”, disse Pichai.

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O primeiro passo deve ser dado no início de 2027, em parceria com a empresa de imagens de satélite Planet: serão lançados dois satélites-piloto para testar o hardware em órbita. Para Pichai, data center espacial não é ficção científica, mas tendência:

“Não tenho dúvida de que, daqui a cerca de uma década, vamos encarar isso como uma forma normal de construir data centers”, afirmou.

Corrida por data centers espaciais

O Google não está sozinho nessa ideia. No início do ano, a SpaceX pediu autorização para lançar até 1 milhão de satélites em órbita, como parte de um plano de criar uma rede movida a energia solar para “acomodar o crescimento explosivo da demanda por dados impulsionada pela IA”, segundo documento enviado ao regulador americano (FCC).

Em dezembro de 2025, a startup Starcloud — apoiada por Y Combinator e Nvidia — colocou em órbita seu primeiro satélite com IA embarcada. O cofundador e CEO, Philip Johnston, projeta que data centers fora da Terra emitam até dez vezes menos carbono do que os tradicionais, mesmo considerando a poluição dos foguetes de lançamento.

O barateamento de satélites para testes de IA no espaço ajuda a viabilizar o movimento. Mas ainda é um grande ponto de interrogação quanto custará, na prática, construir e operar data centers solares no espaço — especialmente num cenário em que os centros em terra devem exigir mais de US$ 5 trilhões em investimentos até 2030, segundo relatório da McKinsey de abril de 2025.

O Google, que voltou ao topo da disputa em IA com o lançamento do modelo Gemini 3, é um dos gigantes que mais investem em infraestrutura. A Alphabet, dona do Google, informou em fevereiro que deve destinar entre US$ 175 bilhões e US$ 185 bilhões neste ano em capex, basicamente para expandir a base de data centers de IA.

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Risco de bolha e de “data center sobrando”

Por trás da empolgação, cresce o temor de uma bolha de IA — com risco de excesso de data centers e investimentos encalhados. A evolução rápida da tecnologia também traz outro problema: estruturas que estão sendo erguidas hoje podem inaugurar já com parte do hardware defasado.

Os hyperscalers, como Alphabet, Amazon, Oracle, Meta e Microsoft, estão elevando a aposta ao financiar a expansão com dívida. Em 2025, essas cinco empresas emitiram US$ 121 bilhões em novos bônus, bem acima dos US$ 40 bilhões de 2020.

“Os riscos são elevados”, resume a McKinsey. “Investir demais em infraestrutura de data centers pode resultar em ativos encalhados; investir de menos significa ficar para trás.”

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A energia é o ponto central do debate. A expansão da IA exige um volume gigantesco de eletricidade. Um relatório do Departamento de Energia dos EUA, de dezembro de 2024, mostra que a carga de consumo de data centers triplicou em 10 anos e pode dobrar ou triplicar de novo até 2028. Eles já responderam por mais de 4% de toda a eletricidade consumida no país em 2023, e podem chegar a até 12% em 2028.

Só o Google mais que dobrou o uso de energia em data centers em cinco anos: foram 30,8 milhões de MWh em 2024, contra 14,4 milhões em 2020, quando a empresa passou a detalhar esse consumo em relatórios de sustentabilidade.

A companhia diz ter reduzido em 12% as emissões associadas à energia dos data centers em 2024, mesmo com a expansão. Mas ainda há muitas dúvidas sobre quão viável — técnica, econômica e ambientalmente — é levar essa infraestrutura para o espaço.

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Ceticismo e alerta ambiental

Nem todo mundo compra a ideia. Em fevereiro, em uma conferência de tecnologia em San Francisco, o CEO da Amazon Web Services, Matt Garman, ironizou:

“Não sei se você viu um rack de servidores recentemente: eles são pesados. E, da última vez que verifiquei, a humanidade ainda não construiu uma estrutura permanente no espaço. Então… talvez.”

Especialistas em sustentabilidade também alertam que a “corrida espacial da IA” pode levantar novos problemas ambientais, em vez de resolver os atuais.

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“Ainda há muito que não sabemos sobre o impacto ambiental da IA, mas parte dos dados que temos é preocupante”, afirmou Golestan Radwan, chefe de transformação digital do Programa da ONU para o Meio Ambiente, em 2024. “Precisamos garantir que o efeito líquido da IA sobre o planeta seja positivo antes de escalar essa tecnologia.”

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