Apostar em mercados de previsão é o trabalho deles — e ele rende milhões

Bem-vindo à era dos “sharps” da Polymarket

Benjamin Wallace The New York Times

Joel Holsinger ganhou centenas de dólares na Kalshi ao acertar qual peru o presidente Trump perdoaria no ano passado. Crédito: Oliver Farshi/The New York Times
Joel Holsinger ganhou centenas de dólares na Kalshi ao acertar qual peru o presidente Trump perdoaria no ano passado. Crédito: Oliver Farshi/The New York Times

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Dois meses depois de largar o emprego como contador corporativo para operar em tempo integral em mercados de previsão, Joel Holsinger, 26, já estava bem perto de fazer seus primeiros US$ 100 mil. Era quase meio-dia na terça-feira antes do Dia de Ação de Graças do ano passado, e o presidente Donald Trump estava prestes a conceder o tradicional perdão ao peru.

Holsinger tinha mais de US$ 700 apostados em saber se Trump diria duas palavras específicas. Tanto a Kalshi quanto a Polymarket, as duas grandes plataformas de mercados de previsão, ofereciam “mercados de menções” no formato sim-ou-não, em que usuários apostavam se o presidente diria mais de uma dezena de palavras e expressões, entre elas “hottest” (o mais quente), “big beautiful bill” (projeto de lei grande e bonito), “radical left/far left” (esquerda radical/extrema esquerda) e “rigged election/stolen election” (eleição fraudada/eleição roubada).

Holsinger havia comprado 500 cotas de “não” para “stuffing” (recheio) a 86 centavos, e 500 cotas de “não” para “cheaper” (mais barato) a 70 centavos. Ele escolheu essas apostas principalmente estudando a frequência de palavras em transcrições de discursos anteriores de Trump.

Oportunidade com segurança!

Trump quase certamente falaria sobre acessibilidade de preços, mas tinha histórico de preferir usar “lower” (menor) em vez de “cheaper”; desde agosto, ele não havia dito “cheaper” nenhuma vez, disse Holsinger. E ele nunca, em ocasiões anteriores de perdão do peru, tinha falado em “stuffing”.

Ainda assim, Holsinger estava sendo conservador no quanto estava disposto a arriscar. “Com uma amostra de quatro”, disse ele, referindo-se aos Dias de Ação de Graças do primeiro mandato de Trump, “não vou fazer nada maluco”.

Na Kalshi, a plataforma preferida de Holsinger, as probabilidades de Trump não dizer “stuffing” haviam caído para 81 centavos. A crença do mercado de que ele diria a palavra tinha aumentado.

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“Alguém tem alguma vantagem secreta em ‘stuffing’?”, perguntou Holsinger em seu headset. De moletom e camiseta, sentado de pernas cruzadas numa cadeira giratória em seu apartamento no quarto andar, sem elevador, no Brooklyn, Holsinger fazia uma live; mais de mil pessoas acompanhavam os comentários do homem que conhecem como PredictionMarketTrader. Ele e a noiva tinham se mudado recentemente de Los Angeles, e caixas da Home Depot estavam empilhadas num canto.

A grande revelação pela qual ele esperava era qual dos dois perus receberia o perdão cerimonial: Gobble ou Waddle? Holsinger tinha US$ 2.500 em Gobble.

Ele não tinha planejado fazer essa aposta. Parecia estúpida, e ele não via uma forma de obter vantagem. Vinha dizendo coisas para sua audiência como “simplesmente não vi um bom argumento de alta para Waddle” e “há muito apoio a Gobble, mas talvez eu esteja numa bolha”.

Mas 30 minutos antes, um amigo havia descoberto um novo vídeo da Associated Press que parecia confirmar Gobble como o vencedor: em uma entrevista coletiva na Casa Branca, uma voz em off dizia que, embora “ambos recebam o perdão”, Gobble “será o peru nacional de Ação de Graças”.

Esse tipo de distinção técnica passaria despercebida para uma pessoa comum, mas é ouro para os traders. As apostas nas grandes plataformas costumam ter critérios de liquidação pedantemente específicos escondidos nas letras miúdas. Outros traders pareciam ainda não ter encontrado o vídeo, e as cotas de “sim” para Gobble ainda estavam disponíveis por cerca de 82 centavos. Holsinger comprou 2.475 cotas. Se estivesse certo, lucraria cerca de US$ 425.

Na transmissão ao vivo do Jardim das Rosas, um peru, com a pele pendendo de forma ridícula do bico, apareceu. “É o Gobble lá em cima?”, perguntou Holsinger em voz alta, para benefício dos espectadores que comentavam na live. “Alguém consegue uma comparação de foto?”

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Trump divagava, acertando várias das menções em que traders tinham dinheiro apostado, incluindo “affordable” (acessível), “Walmart” e “egg” (ovo).

“E agora”, disse Trump, “vamos dar o perdão ao Gobble — o Waddle, aliás, está desaparecido em combate, mas tudo bem, vamos fingir que o Waddle está aqui. …”

Os olhos de Holsinger se arregalaram. Ele tinha obtido um bom lucro com Gobble. Também ganhou US$ 250 com “cheaper” e “stuffing”, nenhuma das quais Trump mencionou.

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“Sou tão cronicamente online que acho que nem reconheço mais o meu próprio bairro. Eu passo talvez 16 horas por dia no computador. Eu deveria sair mais”, disse Holsinger. Crédito: Oliver Farshi/The New York Times

O emprego arquetípico dos anos 2020?

Antes de 2020, o único lugar dedicado onde se podia tentar ganhar a vida prevendo eventos atuais era um site baseado na Nova Zelândia chamado PredictIt, que limitava as apostas individuais a US$ 850 e restringia o número de traders em cada mercado. Tudo isso mudou com a ascensão, nos Estados Unidos, das plataformas de mercados de previsão Kalshi e Polymarket.

Hoje existem milhares de perguntas, ativas 24 horas por dia, nas quais qualquer um pode tomar partido: O aiatolá Ali Khamenei deixará de ser o líder supremo do Irã até o fim de julho? Os Estados Unidos confirmarão a existência de alienígenas?

Os mercados de previsão estão em ascensão cultural. A CNN firmou parceria com a Kalshi, e o Google Finance passou a integrar dados da Kalshi e da Polymarket. A transmissão do Globo de Ouro pela CBS, neste mês, exibiu gráficos com as probabilidades em tempo real da Polymarket antes do anúncio dos vencedores. O fundador e CEO da empresa, Shayne Coplan, esteve presente na cerimônia.

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E eles têm ventos políticos a favor. Em 2024, traders na Polymarket apostaram mais de US$ 3,6 bilhões no resultado da eleição Trump-Harris — no fechamento da votação no dia da eleição, os mercados de previsão favoreciam Trump, enquanto as médias das pesquisas mostravam a vice-presidente Kamala Harris com pequena vantagem. A administração do segundo mandato de Trump tem sido amigável com o setor. Donald Trump Jr. é conselheiro tanto da Kalshi quanto da Polymarket e investidor na Polymarket. Em novembro, a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC, na sigla em inglês) autorizou a operação legal da Polymarket nos Estados Unidos. Outros aplicativos de investimento e apostas, como Robinhood e FanDuel, também estão entrando nos mercados de previsão.

Viver de apostas em mercados de previsão talvez seja uma daquelas ocupações que definem uma era — como ser trader de Wall Street nos anos 1980, fundador de uma empresa pontocom nos anos 1990 ou influenciador na década de 2010. As condições culturais que deram origem a esse trabalho já foram, individualmente, tema de incontáveis análises. Há os jovens cada vez mais absorvidos por telas e comunidades online; o colapso de trajetórias profissionais tradicionais e a ascensão do “faça o seu pé de meia” à base de apostas altamente especulativas; a epistemologia pós-confiança e pós-especialistas, baseada em probabilidade matemática e sabedoria das multidões; e a “cassinização” contemporânea de tudo. Elas podem ter encontrado sua confluência máxima no trader de previsões em tempo integral.

Um comentarista de TV pode falar bravatas sem consequências; já os mercados de previsão, onde o dinheiro está em jogo, são “análises com skin in the game”, disse um dos traders de previsão mais bem-sucedidos, que atende pelo apelido Domer e pediu para não ter seu nome verdadeiro publicado.

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Os mercados de previsão exercem apelo óbvio sobre aspirantes a insiders. Em dezembro, um usuário pseudônimo da Polymarket lucrou mais de US$ 1 milhão em 24 horas em parte por fazer a aposta extremamente contrária de que a cantora D4vd seria a pessoa mais buscada no Google no ano anterior. Neste mês, uma conta misteriosa ganhou mais de US$ 400 mil ao acertar o timing da queda do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Domer estima em “85%-90%” a probabilidade de o “baleia Maduro” (o apostador pesado) ser um insider e em “98%-99%” a de o “baleia Google” ser um insider. (A Polymarket não respondeu ao pedido de comentário.)

A maioria dos usuários das duas grandes plataformas perde dinheiro, e perder em apostas esportivas (que respondem por 90% do volume de negociação da Kalshi) tornou-se a forma mais recente de um grupo de jovens, muitos sem carreira e sobrecarregados por dívidas estudantis ou de cartão de crédito, fazer apostas de longo alcance em aplicativos gamificados e sem atrito. É possível apostar em mercados de previsão aos 18 anos; sites de apostas esportivas exigem que os usuários tenham 21 anos na maioria dos estados. E, como Polymarket e Kalshi têm aprovação federal, os apostadores acabam podendo apostar em jogos em estados que ainda proíbem apostas esportivas.

“Estamos nos preparando para uma geração em que a prudência financeira vai pelo ralo, um influxo de falências pessoais é inevitável e a crise de saúde mental fica ainda pior do que já é hoje”, disse recentemente o CEO de uma plataforma de crédito privado. Um estudo acadêmico publicado no mês passado encontrou correlação entre acesso facilitado a apostas esportivas e quedas significativas em pontuações de crédito, além de aumento em falências, endividamento e inadimplência.

Os principais traders, que se autodenominam “sharps”, tendem a ser homens, de reação rápida, propensos ao risco, com aptidão quantitativa e capacidade de processamento de informação acima da média. Hoje há volume e liquidez suficientes para que um trader de ponta como Domer, que encontrou nos mercados de previsão as ineficiências que podem dar vantagem ao operador, consiga ganhar milhões de dólares por ano. Traders em tempo integral dizem que há entre “50” e “centenas” deles. De acordo com uma análise, menos de 0,04% dos endereços na Polymarket respondem por 70% dos lucros.

Apostas com alto volume de negociação, nas quais muito dinheiro pode ser ganho, tendem a atrair o mesmo grupo de sharps. Exemplos recentes: Será que Volodymyr Zelensky vai usar terno antes de julho do ano passado? (A liquidação foi complicada: Zelensky usou algo numa cúpula da Otan, em junho, que era meio, mas não inequivocamente, parecido com um terno.) Quem venceria a eleição presidencial na Romênia? Nesse caso, muitos sharps perderam dinheiro apostando no candidato de direita, que acabou derrotado, mostrando que o consenso deles é falível.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy e o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, apertam as mãos durante uma reunião bilateral, à margem de uma cúpula da OTAN, em Haia, Holanda, em 24 de junho de 2025. REUTERS/Claudia Greco/Pool

“Esse foi meu maior prejuízo”, disse um sharp que usa o apelido Iabvek, um trader do Arizona que perdeu US$ 350 mil na aposta sobre a Romênia.

Encontrando um nicho

Todos os sharps têm seus próprios métodos para encontrar vantagem. Muitos provavelmente prosperariam em Wall Street, mas consideram os mercados de previsão mais interessantes. Alguns se tornam profundamente familiarizados com o processo legislativo, outros estudam modelos climáticos ou leem newsletters de nicho. Até agora, segundo Iabvek, o número de traders sofisticados ainda é baixo o suficiente para que seja possível ganhar dinheiro usando modelagem estatística simples.

Em grupos exclusivos no Discord, muitos deles trocam informações, como dicas sobre “bonds” — o termo que usam para apostas de baixo risco e baixo retorno que, embora não tão seguras quanto títulos do Tesouro dos EUA, são o equivalente, nos mercados de previsão, a uma certeza absoluta. Muitos sharps ganharam dinheiro quando os 12 singles do novo álbum de Taylor Swift entraram nas paradas no ano passado. “Todo mundo bom com quem eu falo diz que este é o bond do ano”, afirmou Jonathan Zubkoff, um trader de 34 anos de Long Island.

Alguns sharps confiam em poderes superiores de análise. Em janeiro do ano passado, um trader chamado Caleb Davies começou a apostar que Bad Bunny superaria Swift, a favorita, como o artista mais popular do ano no Spotify. Davies (que ainda mantém um emprego em TI) notou que, em 2023, Bad Bunny havia lançado um álbum em outubro, e Swift o superou na disputa pelo topo. Já o novo lançamento dele saiu em janeiro, o que dava muito mais tempo para acumular streams no Spotify. De fato, em 3 de dezembro, o Spotify confirmou a vitória de Bad Bunny. Davies ganhou mais de US$ 20 mil.

Bad Bunny se apresentando em Porto Rico no verão passado. Crédito: Amy Lombard/The New York Times

Alguns se especializam. Zubkoff, além de apostar em eventos políticos e climáticos, construiu um histórico de acertos ao prever as notas semanais de filmes no Rotten Tomatoes, montando o que chama de “terminal Bloomberg para informações do Rotten Tomatoes” — um painel personalizado com feeds de notícias de entretenimento e outros fluxos de dados relevantes. Mesmo que alguém o copiasse, ele diz, “eu apostaria em mim mesmo para processar a informação relevante mais rápido do que qualquer outra pessoa”.

O ano passado foi bom para os sharps, e este ano é ainda mais promissor. O caos gerado por Trump significa incerteza, o que significa mais coisas em que apostar. Há fanáticos políticos que, como as Swifties, apostarão em seu ídolo aconteça o que acontecer. E a explosão de interesse em mercados de previsão — a Polymarket teve um recorde de 491 mil traders ativos mensais no mês passado, segundo o The Block — trouxe uma enxurrada de dinheiro ingênuo de apostadores de outros domínios (como esportes) e de curiosos com gosto por apostas.

“Encostar na grama”, por lucro

Há vinte anos, Domer, que desde janeiro de 2022 já acumulou US$ 2,6 milhões em lucros apenas na Polymarket, era um recém-formado que jogava pôquer online em tempo integral. Mas ele achava frustrantes as oscilações que desafiavam a lógica. “Se você jogou de forma ótima por 40 horas e perdeu dinheiro, começa a questionar sua vida.” Não dá para reconstruir o motivo de uma perda quando você não tem ideia se o oponente estava blefando.

Entediado enquanto esperava uma mão terminar, ele se perguntou com o que mais poderia apostar. Encontrou um site irlandês, o Intrade, onde podia apostar no Oscar. Ele achava o crítico de cinema Roger Ebert muito inteligente, e Ebert havia afirmado que “Crash – No Limite” deveria e iria ganhar o prêmio de melhor filme em 2006, superando “O Segredo de Brokeback Mountain”. Domer colocou US$ 10 em “Crash” e ganhou US$ 80. “Aquilo abriu um mundo: você pode fazer isso.”

Quando o senador John McCain se preparava para anunciar seu candidato a vice na eleição de 2008, em Dayton, Ohio, Domer e um amigo rastrearam voos para aeroportos próximos. Quando viram um programado vindo do Alasca, ele faturou ao apostar que Sarah Palin seria a escolhida. Por essa época, Domer largou o pôquer para se dedicar aos mercados de previsão, que considerava menos estressantes e mais sujeitos à razão.

Hoje, em qualquer momento, ele pode ter mais de mil apostas abertas, com mais de US$ 2 milhões em risco. Ele tinha quase US$ 260 mil apostados em o Papa Leo não ser a Pessoa do Ano da revista Time; foi sua aposta mais lucrativa de 2025.

O trader que atende pelo apelido Domer em um parque perto do centro de Greenville, na Carolina do Sul. Crédito: Will Crooks/The New York Times

O ano eleitoral de 2024 foi “super caótico”, contou. “Eu dizia: ‘Espera até julho, vamos para a Irlanda e Basel, vai ser incrível’”, disse ele, referindo-se à cidade suíça. “Eu ficava ancorando nisso.”

Mas, no fim de junho, o presidente Joe Biden teve seu desempenho desastroso no debate, o que desencadeou o que Domer chamou de “o maior evento de apostas políticas da história”: Biden iria desistir da candidatura? “Eu tinha muito dinheiro nisso.” Ironia do destino, por estar ocupado “encostando na grama” (fazendo coisas fora da tela) no exterior nas semanas anteriores à saída de Biden da disputa, ele não foi sugado pela montanha-russa do “vai sair ou não vai” e manteve a maior parte de sua posição. Acabou embolsando mais de US$ 1 milhão.

c.2026 The New York Times Company