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SEUL, Coreia do Sul — Em novembro, o presidente Donald Trump e o sul-coreano Lee Jae-myung anunciaram, em tom de celebração, um acordo considerado histórico em investimentos e segurança, prometendo inaugurar uma “nova fase” na aliança de mais de 70 anos entre os dois países. Seis meses depois, o clima de lua de mel deu lugar a impasse.
No centro da confusão está um alvo improvável: a Coupang, frequentemente chamada de “Amazon da Coreia do Sul”, e o seu fundador, o coreano‑americano Bom Kim.
O caso começou com um vazamento de dados no ano passado que afetou 33 milhões de contas de clientes no país. A investigação aberta por reguladores rapidamente deixou de ser um tema doméstico e virou teste da relação com Washington, porque a Coupang — maior varejista online da Coreia — é juridicamente uma empresa americana, incorporada nos EUA.
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A companhia passou a acusar o governo de Seul de usar a regulação como arma contra uma empresa dos EUA e buscou apoio em Washington, alegando que grupos americanos vinham sendo tratados pior do que concorrentes chineses. As autoridades sul‑coreanas rebatem, dizendo que tudo segue “devido processo”.
No mês passado, 54 parlamentares republicanos enviaram uma carta ao embaixador da Coreia do Sul em Washington dizendo que o tratamento “direcionado e discriminatório” dado à Coupang e a outras empresas de tecnologia dos EUA ameaça interesses econômicos e de segurança do país.
“Se os esforços do seu governo para empurrar empresas americanas para fora do mercado de varejo online tiverem sucesso, o vácuo será rapidamente preenchido por plataformas chinesas como Temu, Alibaba e Shein”, escreveram. “A dominância delas na região teria consequências de segurança inaceitáveis.”

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Na audiência de confirmação no Senado, na quarta‑feira, Michelle Steel — indicada por Trump para ser embaixadora dos EUA em Seul — foi questionada sobre o tema. Ela disse que o acordo de novembro veda esse tipo de discriminação.
“Vou acompanhar isso de forma muito clara”, afirmou.
A resposta de Seul veio na mesma moeda.
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“Trata‑se de um caso evidente de ingerência em assuntos internos e é inaceitável”, disse Woo Won‑shik, presidente da Assembleia Nacional, referindo‑se à carta dos congressistas americanos. Dezenas de parlamentares sul‑coreanos assinaram outra carta, endereçada à embaixada dos EUA, em que afirmam que a pressão de Washington “coloca em dúvida a própria integridade e os fundamentos da aliança”.
Enquanto isso, as promessas mais vistosas do acordo entre Lee e Trump patinam. Não há sinal, por ora, dos “centenas de bilhões de dólares” que a Coreia havia se comprometido a investir em estaleiros e outros setores americanos. E as conversas sobre o apoio dos EUA para o país desenvolver submarinos de propulsão nuclear mal saíram do papel. O conselheiro de segurança nacional de Lee, Wi Sung‑lac, chegou a afirmar publicamente que “o problema da Coupang está afetando as consultas de segurança”.
No olho do furacão está Bom Kim, que criou a Coupang em 2010, na Coreia do Sul, onde nasceu. Os caminhões de “Rocket Delivery” fazem parte do dia a dia das cidades coreanas, e, para o público local, a empresa é vista como um negócio nacional — afinal, é lá que está a maior parte da receita. A própria Coupang, no entanto, insiste em se apresentar como companhia americana.
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A crise explodiu depois do vazamento de dados, iniciado em junho e só detectado em novembro. Segundo a empresa, ela cooperou integralmente com a investigação, rastreando um ex‑funcionário até a China e recuperando, no fundo de um riacho, o laptop usado na invasão.
A Coupang pediu desculpas várias vezes. O presidente da subsidiária local renunciou e foi substituído por um executivo americano, Harold Rogers.
Mas, na cultura hierárquica da Coreia, a expectativa era de que o “chefe de verdade” assumisse a responsabilidade — no caso, Bom Kim, CEO da holding listada nos EUA. Quando ele finalmente divulgou uma nota de desculpas em 28 de dezembro, acompanhada da oferta de 1,1 bilhão de dólares em cupons da própria Coupang, o gesto foi visto como tardio e insuficiente.
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“Ele continua na sombra, entre aspas, colocando à frente o representante americano que nem fala a língua, no sentido literal e figurado”, criticou Junghee Cho, sócia do escritório D.Code Law Group. “Passa a sensação de que a empresa quer se esquivar da responsabilidade.”
(Kim, que emigrou para os EUA ainda jovem, costuma dar entrevistas e participar de teleconferências com investidores em inglês. Mas o pedido de desculpas foi escrito em coreano.)
Reguladores sul‑coreanos, que negam qualquer viés contra empresas americanas, já haviam aberto investigações sobre supostas infrações concorrenciais, problemas fiscais e condições de trabalho na Coupang. Kim comprou briga com o Parlamento ao recusar convites para depor em audiência pública.
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Para muitos em Seul, o caso Coupang é sintoma de um desgaste mais profundo na percepção da aliança com Washington. Uma fatia crescente da população vê a relação como assimétrica, ou mesmo predatória, sobretudo sob a gestão Trump.
Segundo Seong‑Hyon Lee, especialista em Coreia na Fundação George H. W. Bush para Relações EUA‑China, grupos conservadores americanos passaram a usar o episódio — somado às operações do governo Lee contra igrejas acusadas de corrupção e ao interesse em diálogo com a Coreia do Norte — como prova de que Seul estaria se afastando de “valores americanos”. “Daí vêm as acusações de que o governo é ‘pró‑Coreia do Norte’ ou ‘pró‑China’”, afirmou.
“Embora o governo Lee tenha feito esforços reais para reforçar a aliança com Washington”, concluiu, “alguns críticos insistem em enxergar a Coreia pelo filtro ideológico de décadas atrás.”
c.2026 The New York Times Company