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BERLIM — Havia algo estranho no Estádio Olímpico de Berlim.
Era uma noite fria de sábado em janeiro. Torcedores do Hertha Berlim faziam fila para comprar cerveja nas torneiras do estádio. Mas a cerveja não era alemã.
O estádio havia trocado sua marca nacional, a Beck’s, por uma importada americana: Budweiser.
Os torcedores pareciam surpresos. O que aquela lager popular, típica de estádios de beisebol nos Estados Unidos, estava fazendo em um jogo de futebol na Alemanha?

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Por que ela estava sendo vendida aos alemães como “Anheuser-Busch Bud”, e não pelo nome americano?
E por que a empresa controladora insistia em convencer os alemães a bebê-la justamente em um momento difícil para produtos americanos no exterior?
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A resposta parece ser a seguinte: trata-se de uma aposta em um nicho pequeno, mas em expansão, de um dos maiores mercados de cerveja do mundo.
A multinacional que controla a Budweiser americana desde 2008 se chama AB InBev. A empresa tem sede na Bélgica e também é dona da Beck’s. Seus representantes se recusaram a responder à maior parte das minhas perguntas sobre esta, que já é a terceira tentativa de vender Bud na Alemanha.
Os executivos não explicaram por que decidiram, mais uma vez, introduzir um produto tipicamente americano em um mercado cervejeiro tão fechado. Tampouco disseram por que escolheram um momento em que muitos alemães estão irritados com o presidente Donald Trump e longe de nutrir simpatia pelos Estados Unidos.
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“A Alemanha é provavelmente o mercado de cerveja mais difícil do mundo”, me disse Oliver Lemke, dono da cervejaria que leva seu sobrenome e de uma rede de restaurantes em Berlim. “Há cervejarias de sobra. E o público não aprecia estilos diferentes daqueles aos quais já está acostumado.”
Lemke afirmou que não mistura política com vendas. Mas, olhando apenas para o mercado, disse: “Não vejo por que eles viriam para cá”.
A companhia apresenta o movimento como uma espécie de volta para casa. Eberhard Anheuser e Adolphus Busch nasceram na Alemanha, emigraram para St. Louis e, em 1876, começaram a fabricar uma lager mais adocicada. Deram a ela o nome Budweiser, em referência a uma cerveja tcheca que admiravam, na esperança de atrair imigrantes que já conheciam a marca.
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Eu sempre tive certa simpatia por ela. No último ano da faculdade, meu professor favorito e mentor costumava me levar para almoçar em um bar esportivo perto do campus para conversar sobre a magia e o mistério do jornalismo. O nome dele era Bill Woo. Como ele era de St. Louis, nós sempre bebíamos Budweiser.
A maioria dos alemães, porém, não tem nenhuma afeição pela cerveja — nem familiaridade com ela. Isso porque a Anheuser-Busch fracassou por mais de um século em vender sua versão da Budweiser na Alemanha.
A cervejaria tcheca que inspirou o nome de Anheuser e Busch, a Budejovicky Budvar, alegou violação de marca. As partes firmaram acordos em 1911 e 1939 para dividir seus territórios cervejeiros. Os tchecos não poderiam vender sua Budweiser nos Estados Unidos, e a Anheuser-Busch não poderia vender sua versão em boa parte da Europa.
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Duas vezes, os americanos tentaram entrar no mercado alemão com outras marcas. As duas iniciativas fracassaram. A primeira foi abandonada após alguns anos de vendas decepcionantes. A segunda naufragou em meio a dúvidas jurídicas persistentes sobre o uso do nome Budweiser.
No outono passado, a AB InBev anunciou uma nova tentativa, agora com um produto que, por razões legais, precisa ser chamado de “Anheuser-Busch Bud”. Um executivo da empresa afirmou que a expansão levaria a Bud de volta às suas “raízes” alemãs — o país de origem de seus fundadores — a tempo de celebrar os 150 anos da marca.
“Temos orgulho de disponibilizar a Anheuser-Busch Bud novamente na Alemanha”, escreveu Florian Farken, porta-voz da AB InBev Alemanha, em mensagem enviada a mim.
O Hertha Berlim anunciou que a Bud substituiria a Beck’s nos jogos em casa. Depois, Bayer Leverkusen, clube da primeira divisão, e Wolfsburg, recentemente rebaixado, fecharam acordos de patrocínio semelhantes.
Fora isso, a cerveja é difícil de encontrar. Raramente aparece em supermercados, nem mesmo com as embalagens especiais que a empresa lançou para marcar a Copa do Mundo.
Há ainda outro dado que ajuda a explicar a investida. O consumo de cerveja na Alemanha vem caindo ano após ano. Em 2025, recuou 6% e, neste ano, já acumula queda de 9%, segundo Holger Eichele, presidente da Associação Alemã de Cervejeiros.
Mas um segmento do mercado vem ganhando espaço, ainda que partindo de uma base muito pequena: o das importadas. Ao anunciar, no ano passado, sua ofensiva com Bud na Alemanha, a AB InBev destacou que as “lagers internacionais estão entre os segmentos de cerveja que mais crescem no país”.
Eichele não comentou diretamente a estratégia da InBev. Mas afirmou que “os consumidores na Alemanha têm muito interesse em experimentar, descobrir novos produtos, novos estilos e novas marcas”.
Analistas, porém, têm dúvidas. “Diante da situação ainda difícil do mercado cervejeiro alemão e da recente piora na imagem de produtos americanos”, escreveu a publicação especializada Getränke News nesta primavera, as vendas da Bud na Alemanha “devem ficar abaixo das expectativas”.
Em um jogo do Hertha nesta primavera, um torcedor americano visitante também se mostrou cético: meu pai.
“Não dá para pegar uma cerveja alemã?”, perguntou ele na fila.
Mas, já de volta aos nossos lugares, ele me chamou do outro lado da fileira. Ergueu o copo e disse:
“Ela tem gosto melhor aqui!”
c.2026 The New York Times Company