Agência dos EUA investiga Nike por suposta discriminação contra trabalhadores brancos

Sob o governo Trump, a Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego tem trabalhado para desmontar políticas de diversidade, equidade e inclusão

Rebecca Davis O’Brien Kim Bhasin The New York Times

Logo da Nike do lado de fora da loja na 5ª Avenida em Nova York, EUA
19/03/2019
REUTERS/Carlo Allegri
Logo da Nike do lado de fora da loja na 5ª Avenida em Nova York, EUA 19/03/2019 REUTERS/Carlo Allegri

Publicidade

A Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego dos Estados Unidos (EEOC, na sigla em inglês) informou nesta quarta-feira (4) que abriu uma investigação contra a Nike, gigante de artigos esportivos, por políticas que, segundo o órgão, discriminavam trabalhadores brancos.

A comissão — criada a partir da Lei dos Direitos Civis para fazer cumprir as leis contra discriminação no emprego — disse que apura “alegações sistêmicas de discriminação racial intencional relacionada a DEI (diversidade, equidade e inclusão)” contra funcionários e candidatos brancos na Nike.

A investigação é a primeira grande ação legal anunciada pela comissão sob Andrea Lucas, sua presidente, que desde que assumiu o cargo no ano passado passou a mirar programas de diversidade, equidade e inclusão. Em entrevista recente, ela disse que “está claro que tenho prioridades para lidar com discriminação por raça e sexo decorrente de DEI”.

Oportunidade com segurança!

A medida contra a Nike é um aviso de alto impacto — e deve, provavelmente, mandar um recado a outras empresas que adotaram iniciativas e práticas de contratação ligadas a DEI.

A investigação, conduzida pelo escritório da comissão em St. Louis, veio a público nesta quarta-feira quando a EEOC entrou com um pedido em um tribunal federal no Missouri para obrigar a Nike a cumprir uma intimação emitida em setembro.

De acordo com documentos apresentados ao tribunal junto com o pedido, Lucas registrou uma denúncia de discriminação contra a Nike em 2024, quando ainda era comissária da EEOC, que então tinha maioria democrata. Segundo a petição da agência, a Nike tem contestado a intimação e respondeu apenas parcialmente aos pedidos de informação.

Continua depois da publicidade

“A EEOC busca informações diretamente relevantes para as alegações de que a Nike submeteu funcionários brancos, candidatos e participantes de programas de treinamento a tratamento desigual com base em raça em várias decisões de emprego, incluindo demissões, programas de estágio e mentoria, desenvolvimento de liderança e outros programas de desenvolvimento de carreira”, afirmou a comissão no pedido protocolado nesta quarta-feira.

A Nike não respondeu aos pedidos de comentário.

O escrutínio acontece em um momento difícil para a Nike. A maior empresa de vestuário esportivo do mundo tenta se recuperar depois que erros estratégicos nos últimos anos a deixaram em um período prolongado de vendas fracas. A gestão tem trabalhado para reduzir estoques antigos, acelerar o desenvolvimento de produtos e manter a marca focada em esportes e atletas.

Em 2021, a Nike apresentou um plano de cinco anos para ter uma força de trabalho mais diversa. A gestão vinculou parte da remuneração de executivos a metas de diversidade, que incluíam maior presença de mulheres em posições de liderança e o objetivo de alcançar 35% de representatividade de minorias raciais em sua força de trabalho nos EUA.

“Dar vida à missão da Nike começa com nossas pessoas e com a criação de uma força de trabalho que represente diferentes origens, experiências e perspectivas”, diz o site da empresa.

A Nike não publicou no ano passado seu relatório de sustentabilidade corporativa — que normalmente sai por volta de março e inclui atualizações sobre metas de diversidade. Na época, a empresa afirmou que seguia comprometida com essas metas.

Continua depois da publicidade

No relatório mais recente, referente ao ano fiscal de 2023, a Nike disse que dobrou os investimentos em programas de desenvolvimento profissional para minorias nos Estados Unidos. A empresa também tocou um programa para atrair um conjunto mais diverso de fornecedores, que respondeu por mais de US$ 1 bilhão em gastos naquele ano.

Na semana passada, em resposta à intimação — anexada pela agência ao pedido apresentado nesta quarta — os advogados da Nike chamaram a intimação de “ampla, ambígua e excessivamente onerosa”.

A Nike passou por uma reorganização em 2024, substituindo seu CEO em meio à queda nas vendas. Elliott Hill, que saiu da aposentadoria para assumir o comando, redesenhou a estrutura organizacional e trocou muitos executivos seniores.

Continua depois da publicidade

A Nike avançou em seu esforço de recuperação sob Hill. As vendas subiram 1% no último trimestre, impulsionadas por uma retomada do negócio na América do Norte. Apesar disso, em dezembro executivos disseram esperar queda da receita global neste trimestre, diante da perspectiva de continuidade das vendas fracas na China — um mercado crucial para tênis e artigos esportivos.

c.2026 The New York Times Company