Publicidade
Quando Harry Styles subiu ao palco do Madison Square Garden, em Nova York, nesta quarta-feira (26) para a primeira de 30 apresentações de sua residência artística no local, estará protagonizando o exemplo mais ambicioso de uma das tendências favoritas da indústria dos shows: realizar mais apresentações em menos lugares.
No ano passado, Bad Bunny fez uma residência de 31 datas em Porto Rico, marcada pelo orgulho local. Em 2024, Billy Joel encerrou uma série de dez anos no Madison Square Garden, com 104 apresentações esgotadas. Neste ano, Jay-Z comemora álbuns históricos com shows em estádios de Nova York, Londres, Paris e Los Angeles. Já em Las Vegas, a tecnologia de ponta da Sphere elevou o padrão das experiências multimídia nos concertos.
Para artistas e promotores, essas longas temporadas em um só local surgiram da combinação entre economia de custos, já que gastos com transporte e combustível caem significativamente, e o desejo de criar espetáculos mais elaborados, segundo executivos do setor.
“Temporadas mais longas permitem que os artistas criem experiências que simplesmente não são práticas quando a produção está constantemente em movimento”, afirmou Omar Al-joulani, presidente da divisão de turnês da Live Nation. A empresa promoverá mais de 470 apresentações em formato de residência neste ano, a maior parte em Las Vegas.
Em sua nova turnê, Styles, astro britânico de 32 anos, fará 67 shows distribuídos por apenas sete cidades ao redor do mundo, estratégia que virou assunto na indústria e desencadeou uma corrida por ingressos. Quando a pré-venda começou em janeiro, muitos fãs reclamaram dos preços, que ultrapassavam US$ 1.000, mas as entradas ainda assim se esgotaram rapidamente. Milhares de ingressos para os shows no Madison Square Garden passaram a ser revendidos por valores várias vezes superiores ao original.
Para os frequentadores mais experientes de shows, as residências não são novidade. Bruce Springsteen ganhou notoriedade com uma temporada de dez apresentações no clube Bottom Line, em 1975. Prince realizou 21 shows na O2 Arena, em Londres, em 2007. E o próprio Harry Styles já havia adotado o modelo entre 2021 e 2023, durante o período pós-pandemia.
Continua depois da publicidade
O formato evoluiu à medida que artistas procuraram diferenciar seus espetáculos em um mercado cada vez mais concorrido. Festivais como o Coachella mostraram que fãs estão dispostos a viajar para eventos considerados especiais, explicou Mitch Rose, chefe de turnês da Creative Artists Agency (CAA).
“O Coachella virou um destino para quem queria estar lá pela música, pela experiência e pelo medo de ficar de fora”, disse. “Eu vejo as residências da mesma forma.”
Las Vegas, que por muitos anos foi vista como destino para artistas em fim de carreira, tornou-se uma das capitais do entretenimento ao vivo. Celine Dion foi peça-chave nessa transformação, arrecadando cerca de US$ 660 milhões com duas residências iniciadas em 2003. Elton John, Britney Spears e Adele seguiram o mesmo caminho.
Continua depois da publicidade
Depois veio a Sphere, arena de US$ 2,3 bilhões idealizada por James Dolan, executivo por trás do Madison Square Garden. Desde a inauguração com shows do U2 em 2023, o espaço redefiniu os padrões visuais da indústria. Rose classificou a Sphere como a nova “mãe de todas as residências”.
Para artistas e equipes, permanecer na mesma cidade também reduz o desgaste físico das turnês e permite uma rotina mais confortável. “Você ganha alguma familiaridade. Pode fazer seu próprio café, manter sua rotina de exercícios”, disse Michele Bernstein, ex-executiva da William Morris Endeavor.
Mas há um custo para os fãs. Quando uma residência substitui uma turnê tradicional, muitos precisam viajar longas distâncias para assistir ao show.
Continua depois da publicidade
“É pior para os fãs”, afirmou Jonathan Daniel, da Crush Music, empresa que gerencia carreiras como Green Day, Miley Cyrus e Alanis Morissette. “Mas nenhum artista pensa: ‘como podemos tornar isso pior para os fãs?’”.
Promotores observaram que, mesmo com preços elevados, o público continua disposto a viajar e gastar quando acredita que o espetáculo valerá a experiência. O fenômeno passou a ser monitorado pela indústria sob o conceito de “turismo de fãs”.
Dados da Live Nation mostram que quase seis em cada dez fãs viajam para pelo menos um show por ano. Além disso, 91% dos entrevistados afirmaram que um evento ao vivo já influenciou a decisão de visitar um destino pela primeira vez.
Continua depois da publicidade
Craig Church, um fã de 38 anos da região da Baía de São Francisco, é um exemplo dessa tendência. Na abertura da pré-venda da turnê de Harry Styles, ele passou noites procurando ingressos para shows em Nova York e Londres.
Church conseguiu dois ingressos na pista para Wembley, em Londres, por cerca de US$ 450 cada, utilizando códigos obtidos ao comprar versões em vinil do novo álbum de Styles, Kiss All the Time. Disco, Occasionally.
A viagem acabou se transformando em férias de uma semana na capital britânica e custou cerca de US$ 10 mil, dos quais aproximadamente US$ 4.400 estavam diretamente ligados à turnê do cantor.
“No fim, valeu todo o trabalho”, disse.
c.2026 The New York Times Company