Empresa alavancada, clima adverso e desencontro de sócios: entenda a crise da Raízen

Estratégia ousada e alavancagem em período de juros altos minaram saúde financeira da companhia

Roberto de Lira Equipe InfoMoney

Ativos mencionados na matéria

Planta de Etanol de Segunda Geração (E2G) da Raízen no Parque de Bioenergia Bonfim, em Guariba (SP) (Foto: Divulgação)
Planta de Etanol de Segunda Geração (E2G) da Raízen no Parque de Bioenergia Bonfim, em Guariba (SP) (Foto: Divulgação)

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O pedido de recuperação extraoficial da Raízen (RAIZ4) é o ápice de um processo que vem se arrastando nos últimos anos, em uma verdadeira tempestade perfeita que atingiu a companhia.

Uma das principais causas da crise foi o endividamento crescente por apostas arriscadas de investimentos em projetos de transição energética que tiveram retornos mais lentos que o esperado. E a companhia também passou a apostar em áreas distante do core principal. Isso num ambiente de juros altos e de perdas operacionais por conta de condições severas do clima.

A Raízen nasceu em 2011, de uma joint venture entre a Shell e o grupo Cosan (CSAN3), controlado por Rubens Ometto. A empresa se consolidou rapidamente como a maior produtora mundial de etanol de cana-de-açúcar e uma das principais no setor sucroalcooleiro brasileiro.

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Desde 2016, a companhia passou a fazer uma aposta ousada, de apostar em projetos de longo prazo financiados com dívida.

Mas, como lembrou nesta semana em análise José Luiz Mendes, consultor de Estratégia e M&A da StoneX, essa é uma estratégia que funciona quando o juro está baixo. “Quando o ciclo virou [a Selic passou a subir], a conta apertou. Com alavancagem alta, qualquer choque – clima, preço, custo financeiro – vira crise. A seca e os incêndios foram gatilhos, mas não a causa raiz. Empresas menos alavancadas absorvem esses impactos; empresas muito alavancadas entram em espiral”, diagnosticou o especialista.

Uma dessas apostas de investimento foi o de projetos de etanol de segunda geração (E2G). A empresa foi fundo na tese de que haveria um prêmio relevante por ser um combustível mais limpo, que conversava diretamente com o fase global de transição energética.

Para Mendes, o problema foi a premissa financeira: o mercado não pagou esse prêmio na velocidade esperada. “Houve uma desconexão entre a narrativa ESG e a disposição real do cliente em pagar mais, além de um mercado de carbono ainda imaturo. Em outras palavras, escalou-se antes de validar o retorno econômico”, avaliou.

Além disso, enquanto a Raízen aportava recursos nessa tecnologia de fronteira, o etanol de milho cresceu rápido, com custo competitivo e execução bem mais simples. “A tese ‘verde’ acabou enfrentando uma concorrência pragmática que entregava resultado imediato.

Diversificação exagerada

Por fim, a grupo também errou, na opinião de especialistas em uma diversificação excessiva, que ia de trading e energia solar até uma parceria para explorar lojas da Oxxo no Brasil e internacionalização.

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Apostas erradas da holding Cosan, como um investimento bilionário em ações da mineradora Vale podem entrar nessa conta também. “Quando o minério caiu e houve perda de valor, a Cosan perdeu capacidade de apoiar a Raízen.”, frisou Mendes.

A deterioração dos negócios pode ser explicada apenas na comparação dos resultados dos últimos exercícios fiscais. A Raízen teve lucro líquido de R$ 3 bilhões em 2021/2022, quando seu endividamento era de R$ 13,8 bilhões, ou 1,3 vezes o Ebitda, posição considerada saudável para suportar o ciclo de crescimento dos anos à frente.

No balanço do ano fiscal 2025/2026, no entanto, o prejuízo somou R$ 15,6 bilhões até o terceiro trimestre, devido a uma provisão não caixa de R$ 11 bilhões. Enquanto isso, a dívida líquida saltou para R$ 55,322 bilhões e a alavancagem subiu para 5,3 x. Ao protocolar o pedido de recuperação extrajudicial, a companhia afirmou que as dívidas financeiras haviam alcançado o montante aproximado de R$ 65,1 bilhões.

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Na teleconferência, os executivos frisaram que a empresa estava voltando a ter um foco no core business de produção de açúcar e etanol, e distribuição de combustíveis e lubrificantes. De fato, nos últimos anos, a empresa passou a vender negócios de baixo desempenho ou se livrou de ativos que simplesmente não faziam parte do core business original. A solução financeira de capitalização, no entanto, esbarrou na falta de acordo entre os sócios, cada vez mais pressionados pelos credores.

Veja abaixo uma linha do tempo sobre a crise da Raízen elaborada pelo InfoMoney:

2011 – Cosan e Shell anunciam uma joint venture e a criação da Raízen, para explorar a produção e comercialização de açúcar e etanol, bem como a geração de energia a partir do bagaço de cana. 

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2016 – Inicia fase de expansão e anuncia aposta firme em etanol de 2ª geração (E2G)

Agosto/2020 – Raízen anuncia joint venture com a Femsa, dona da rede Oxxo. Criam o Grupo NOS, com o objetivo de alavancar o negócio de lojas de conveniência em postos de combustível.

Agosto/2021 – Realiza o maior IPO do ano, que movimentou R$ 6,9 bilhões

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2021 – Anuncia a compra da Biosev, subsidiária da Louis Dreyfus, por R$ 3,6 bilhões em dinheiro e ações

2021 – Grupo anuncia o início da construção da 3ª e da 4ª plantas de E2g, com a ampliação da capacidade de produção do biocombustível para 280 milhões de litros a partir de 2024.

2022 – O lucro líquido do ano fiscal 2021/2022 é de R$ 3 bilhões e o endividamento líquido soma R$ 13,8 bilhões, com uma alavancagem de 1,3 vezes o Ebitda

Dezembro/2022 – Itaú compra por R$ 4,115 bilhões em ações preferenciais da Cosa Nove, subsidiária da Cosa, parte do conglomerado Raízen

2023 – No balanço do ano fiscal, a companhia anuncia lucro líquido de R$ 3,9 bilhões, com o endividamento subiu para R$ 20,4 bilhões, embora a alavancagem tenha permanecido em 1,3 vezes o Ebitda.

2024 – A Raízen anuncia que seu lucro líquido caiu para R$ 1,3 bilhão, 67% abaixo do ganho do ano fiscal anterior; a dívida líquida ficou em R$ 19,154 bilhões e a alavancagem permaneceu em 1,3x.

Abril/2024 – Anuncia a venda de 31 projetos de usinas de geração solar distribuída (“UFVs”) para a Élis Energia, do Pátria Investimentos, por R$ 700 milhões 

Novembro/2024 – Vende usinas de cana, com capacidade de 900 mil toneladas, para a Alta Mogiana por R$ 381 milhões

Novembro/2024 – Nelson Gomes substitui Ricardo Dell Aquila Mussa como diretor presidente da Raízen. Rafael Bergman entra no lugar de Carlos Alberto Bezerra de Moura como  diretor financeiro e de relações com investidores

2025 – Anuncia prejuízo líquido de R$ 4,2 bilhões no ano 2024/2025 e empresa explica que a safra 2024/2025 de Etanol, Açúcar e Bioenergia (EAB), foi impactada pelo clima severamente seco; o endividamento subiu para R$ 34,2 bilhões e a alavancagem passou para 3,2x.

Janeiro/2025 – Cosan vende participação de cerca de 4% na mineradora Vale por R$9,1 bilhões

Março/2025 – Raízen recompra 50% da participação do Itaú na Cosa, por R$ 2,169 bilhões.

Maio/2025 – Raízen vende a Usina de Leme, em Piracicaba, por R$ 425 milhões, para a Ferrari Agroindústria e a Agromen Sementes Agrícolas

Junho/2025 – Anunciada a cisão entre Raízen e Raízen Energia

Julho/2025 – Anuncia que vai descontinuar a Usina Santa Elisa e repassa por R$ 1,045 bilhão 3,6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, incluindo cana própria e a cessão de contratos com fornecedores para um grupo de usinas lideradas pela Usina São Martinho

Julho/2025 – Vende para os grupo Thopen e Gera (com quem tinha uma joint venture) 55 ativos de geração distribuída, pelo valor agregado de aproximadamente R$ 600 milhões

Agosto/2025 – Vende para a Cocal Agroindustrial as Rio Brilhante e Passa Tempo, no município de Rio Brilhante (MS), por R$ 1,5 bilhão

Setembro/2025 – Grupos Raízen e Femsa decidem se separar: Shell Select e Shell Café permanecem apenas com a Raízen e mexicanos ficam encarregados de tocar sozinhos a Oxxo no Brasil.

Setembro/2025 – BTG e gestora Perfin fazem capitalização de R$ 10 bilhões na Cosan. É anunciado um plano de sucessão para Rubens Ometto, num prazo de seis anos

Novembro/2025 – Vende a usina Continental, localizada no município de Colômbia (SP), para o Grupo Colorado, por R$ 700 milhões

Novembro/2025 – Empresa perde o grau de investimento pela Moody’s

Fevereiro/2026 – Anunciado prejuízo de R$ 15,6 bilhões até o 3º trimestre do ano fiscal, explicado por uma provisão não caixa de R$ 11 bilhões; dívida líquida saltou para R$ 55,322 bilhões e a alavancagem subiu para 5,3 vezes o Ebitda

Fevereiro/2026 – S&P e Fitch tiram o grau de investimento da companhia

Fevereiro/2026 – Rumores de que a suíça Mercuria está próxima de comprar ativos da Raízen na Argentina por mais de US$1 bi

Março/2026 – Raízen Energia acerta a venda de três projetos de usinas solares para a Braso

Março/2026 – Shell se compromete em colocar R$ 3,5 bilhões na capitalização da Raízen, mas aguarda sinal semelhante da Cosan/negociação envolve R$ 500 milhões de um veículo controlado pela Aguassanta Investimentos., da família de Rubens Ometto Silveira de Mello

Março/2026 – Acordo entre sócios para capitalização falha e empresa pede recuperação extrajudicial para fortalecimento de sua estrutura de capital, renegociando dívidas financeiras no montante aproximado de R$ 65,1 bilhões.