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De florestas no Vale do Jequitinhonha, Aperam BioEnergia extrai subprodutos sustentáveis do carvão vegetal

Previsão é vender 10 mil toneladas de bio-óleo apenas para a Nexa Resources, produtora de zinco e cobre do grupo Votorantim

Ivo Ribeiro

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Dona de um patrimônio florestal de 160 mil hectares no Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais, a Aperam BioEnergia aposta firme no desenvolvimento de produtos alinhados ao conceito da sustentabilidade ambiental. Como exemplo, a empresa já extrai bio-óleo que pode substituir combustíveis fósseis utilizados em processos industriais. E tem planos para ampliar a oferta. O produto é obtido no processamento de carvão vegetal, a principal atividade da empresa, que é voltada para suprir os altos-fornos de sua controladora, a siderúrgica Aperam Inox South America. 

Neste ano, a previsão é de vender 10 mil toneladas de bio-óleo apenas para a Nexa Resources, produtora de zinco e cobre do grupo Votorantim. A Nexa, que participou do desenvolvimento do bio-óleo junto com a Aperam, passou a usar o “combustível verde” na fabricação de óxido de zinco em sua usina de metalurgia de Três Marias (MG). Esse volume, informa a empresa, representa uma redução anual de 25.000 toneladas de CO2 (pelo escopo 1 de redução de emissões) liberado na atmosfera. Já são 12 fornalhas e o objetivo é chegar a 47.

Edimar de Melo Cardoso, diretor de operações da Aperam BioEnergia, destaca que o foco da empresa é carvão vegetal obtido de madeiras de eucalipto e corimbia, bio-óleo, biochar (resíduos finos do carvão) mudas, sementes e tecnologias de manejo e processamento do eucalipto. “Todas as nossas florestas, renováveis, são certificadas e operadas no mais alto padrão de gestão”, diz o executivo. Por exemplo, com selo da certificadora internacional Forest Stewardship Council (FSC).

Dos 160 mil hectares, segundo o executivo, 35% são de áreas naturais preservadas. Toda a base florestal da empresa está concentrada em cinco municípios na região chamada de Alto Jequitinhonha – Capelinha, Minas Novas, Itamarandiba, Veredinha e Turmalina. “Somos o maior empregador da região, com 1.900 pessoas. Mulheres representam 23% desse número”, diz o executivo. A atuação se estende ainda ao município de Carbonita. 

Após anos de pesquisa, informa Cardoso, em 2022 o bio-óleo entrou no portfólio de produtos da empresa. A Nexa começou comprando 1 mil toneladas e saltou para 10 mil neste ano. “Há muitas empresas buscando fontes renováveis de combustíveis e isso já marca uma tendência, em linha com as políticas de ESG [sigla, em inglês, para ações de meio ambiente, sócio-econômicas e de governança]”, afirma Cardoso. O bio-óleo é um subproduto do alcatrão, gerado no processo de carbonização da madeira em fornos próprios da empresa. 

Segundo o executivo, há outras quatro empresas fazendo testes com o bio-óleo da Aperam e a meta, para este ano, é atingir volume de venda de 20 mil toneladas. Ele diz que a empresa já dispõe de capacidade para fazer 100 mil toneladas ao ano. “A vantagem é que o bio-óleo pode trazer, em primeiro lugar, benefícios ambientais ao substituir um combustível fóssil”. Outro benefício, garante Cardoso, é no quesito qualidade, com especificações técnicas aprovadas. Ele informa que o produto é comercialmente competitivo com os combustíveis usados atualmente. 

Atualmente, a produção de carvão vegetal em seus fornos de carbonização, de onde sai o bio-óleo, é de 450 mil toneladas ao ano. Todos os fornos  têm operação mecanizada e são altamente automatizados, explica Cardoso. Fornos menores e mais antigos estão sendo trocados, para modernizar as operações: ganhando mais tecnologia, competitividade e maior segurança ambiental.

No todo, o plano de substituição prevê a troca de 121 fornos modelo PAP-220 por 36 do tipo FAP-2000, que é um equipamento enorme, de formato retangular, apto a receber 2 mil metros cúbicos de madeira (correspondente a 36 carretas rodo-trens). O processo de carbonização leva 21 dias, originando 420 toneladas de carvão vegetal em cada forno.

O processo de substituição estava programado para se concluído até 2025, mas a situação de demanda em queda de produtos siderúrgicos em 2023, mais a forte competição com aço importado, levou a Aperam a suspender o projeto. Já se encontram em operação 16 fornos FAP-2000. O plano tem investimento total de R$ 130 milhões. 
 
Outro subproduto da empresa é o biochar, resíduo de restos de galhos e folhas da madeira, resultante do processo de pirólise – em que o carbono se concentra em uma forma altamente resistente à decomposição biológica – na produção de carvão. O material é levado para as áreas florestais para aplicação no solo, ocorrendo um sequestro de carbono por até séculos, explica a empresa. Torna-se uma espécie de condicionador e fixador no solo.

Esse processo, diz o diretor, gera certificados de crédito de carbono, com auditagem de empresa independente (que atesta as quantidades aplicadas). No ano passado foram 30 mil toneladas de biochar. Esses créditos de captura e armazenamento de carbono (CORCs) são negociados em plataformas como a Pure.earth [pure.earth]. “Somos também pioneiras na venda de créditos de carbono na América Latina”, afirma a BioEnergia. 

Para este ano, a receita prevista com o biochar é de R$ 35 milhões a R$ 40 milhões. A empresa não abre ainda informações de receita oriunda da venda de bio-óleo, alegando que há um acordo de confidencialidade com a Nexa Resources.

O maior negócio da Aperam BioEnergia, que completa 50 anos de fundação e é pioneira no desenvolvimento de clones de eucalipto, é a produção de carvão vegetal, despachados diretamente para a usina de aço em Timóteo, situada a 350 quilômetros, que tem dois altos-fornos de produção de aço. “No alto-forno ou se usa o carvão renovável, como nós, e que não emite CO2, ou o carvão mineral/coque”, diz Cardoso. A fusão do minério de ferro com carvão metalúrgico para se obter aço é grande emissora de dióxido de carbono (CO2).

A unidade de siderurgia do grupo Aperam, em Timóteo, tem capacidade para fazer 800 mil toneladas anuais de aço bruto. Desse volume, 60% vêm dos dois altos-fornos e 40% de fornos elétricos, que utilizam sucata. A empresa produz 350 mil toneladas de aço inox, 150 mil de aços elétricos e 200 mil de aço carbono especial.  

A Aperam BioEnergeia é controlada pela Aperam Inox South America, maior fabricante de aço inox da América Latina. Além do Brasil, o grupo tem operações de aço na Bélgica e França e seu maior acionista é a família do empresário indiano Lakshmi Mittal, com cerca de 40% do capital. Os Mittal são também o principal acionista da maior siderúrgica de aço carbono do Ocidente, a ArcelorMittal.  Ambas as empresas têm sede em Luxemburgo.  

A empresa não informa a receita da Aperam BioEnergia em 2023 nem em anos anteriores. Alega que o grupo Aperam encontra-se em período de silêncio devido à publicação de seu balanço financeiro do ano passado previsto para este mês. Segundo ranking da consultoria Econodata, a receita da empresa em 2022 foi de R$ 2,4 bilhões. Já a Aperam Inox South America gerou receita líquida ao grupo de R$ 8,35 bilhões no mesmo período, com lucro líquido de R$ 1,45 bilhão.