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A Intel (ITL34), que por décadas foi a dona do jogo e sinônimo de computação pessoal, viu a NVIDIA (NVDC34) roubar a cena com a explosão da inteligência artificial. Mas a Intel ainda está no jogo: em junho, suas ações alcançaram máximas histórias com uma estratégia que tenta virar a página da era “Intel Inside” para a era da “IA na ponta”.
Em relatório publicado no final de julho, analistas do Goldman Sachs afirmaram que esperam que a Intel se beneficie do aumento da demanda por servidores (impulsionada pela IA agêntica) e viram de forma positiva a possibilidade da Intel se tornar a campeã americana com seu negócio de foundry [plataforma unificada para criar e gerenciar IA e agentes] no curto e longo prazo.
Contudo, os analistas mantiveram classificação neutra para a ação e afirmaram que alguns dos pares mais próximos da Intel, como AMD, Nvidia e Broadcom oferecem, em sua visão, visibilidade de receita relativamente maior e uma relação risco/retorno mais favorável. João Bortone, o novo executivo da Intel para a América Latina que assumiu o cargo em abril é — como deve ser — bem mais otimista.
Para o executivo, a tese de recuperação da companhia é focada na nova onda da IA. Segundo ele, se a primeira fase foi sobre o treinamento de grandes modelos na nuvem — um terreno onde a NVIDIA reina absoluta —, a segunda fase, a “onda da inferência” e da aplicação prática, será o campo onde a Intel pode ditar o ritmo.
De acordo com o executivo, enquanto a primeira onda da IA focou no treinamento de grandes modelos de linguagem, a nova onda, será marcada pela descentralização e especialização e será “dez vezes maior que a onda de treinamento”.
Nessa nova etapa, a inteligência artificial deixará de ser apenas um “grande oráculo” centralizado na nuvem para se tornar onipresente na ponta, com dispositivos e hardwares executando funções específicas e personalizadas para cada usuário ou setor.
Essa transição, destaca o executivo, permitirá que agentes de IA aprendam padrões individuais e realizem tarefas práticas — como um assistente que conhece a rotina de férias do usuário ou uma ferramenta médica que detecta doenças em exames — sem depender constantemente de conexões externas, consolidando um cenário onde “todo mundo vai ter um agente de IA pessoal, cada governo vai ter os seus, cada empresa vai ter os seus. E todos eles com funções e, em alguns casos, hardwares específicos”, afirma Bortone.
Assim, a aposta de Bortone é que a IA vai migrar para a ponta, com dispositivos pessoais e corporativos que rodarão modelos de IA de forma autônoma, aprendendo o comportamento do usuário e executando tarefas específicas sem depender da nuvem.
A estratégia da “co-opetição”
A Intel não quer brigar com todo mundo. Pelo contrário, a companhia abraçou o conceito de “co-opetição”. Ela colabora com a NVIDIA, por exemplo, em diversas frentes. Em setembro de 2025, a gigante comandada por Jensen Huang anunciou um investimento de US$ 5 bilhões na Intel para codesenvolver produtos para PCs e data centers.
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A iniciativa deu à Intel acesso à tecnologia gráfica da Nvidia em chips de PC, enquanto a Intel fornece processadores para produtos de data center baseados em hardware da parceira. Para Bortone, o que importa, agora, não é apenas o hardware, mas o resultado entregue ao cliente. “Trabalhamos com todos os concorrentes. O que repito para meu time é que não deve ser sobre produto, mas sobre o resultado”, afirma.
Desafios e oportunidades no Brasil
No Brasil, o desafio de Bortone é duplo: manter a agilidade de uma operação que aboliu escritórios físicos e convencer a matriz global das particularidades locais. “O meu desafio é explicar para a liderança global o que é um boleto”, brinca o executivo, ilustrando a necessidade constante de traduzir as nuances do mercado brasileiro — como o parcelamento e os meios de pagamento locais — para a gestão americana.
Mas, segundo o executivo, o país tem em sua matriz energética um trunfo estratégico. Com o consumo de energia dos data centers crescendo exponencialmente — um estudo da Gartner aponta que, até 2030, cerca de 8% da energia consumida nos EUA virá apenas dessas estruturas —, o Brasil, com sua matriz renovável, tem a oportunidade de se tornar um hub global de processamento de dados, desde que o governo saiba capitalizar essa vantagem, resume Bortone.
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Apesar dos desafios crônicos e da volatilidade da região, que ele descreve como uma “gangorra”, o tom de Bortone é de otimismo. Ele vê a tecnologia como uma extensão humana e acredita que a IA, longe de ser o fim de profissões, será um catalisador para novas oportunidades e produtos. “Eu sou fascinado pela IA. Acredito que é uma ferramenta incrível para quem sabe usar. Mas precisamos lembrar que a responsabilidade não é da IA, é nossa”, conclui.
