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A empreendedora e investidora Carol Paiffer tem mais de 100 empresas investidas em diferentes segmentos e, para ela, além do brilho no olhar do empreendedor e dos números do negócio, um fator que Carol sempre avalia antes de realizar um investimento.
“Eu não invisto em gente chata. E confesso que não invisto em gente chata. E faço isso porque não sou obrigada. Não quero abrir minha agenda para uma pessoa que eu sei que não vou poder ser transparente e não estarei empolgada em ajudar”, afirma a empreendedora, em conversa com o InfoMoney Entrevista.
Nesta entrevista, Carol Paiffer reflete sobre suas decisões ao empreender e investir, fala sobre a construção de um ecossistema lucrativo entre suas investidas e relembra sua trajetória.
Leia, abaixo, trechos da entrevista.
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InfoMoney: Eu queria que você começasse falando sobre um conceito que você aborda muito: ecossistema lucrativo. O que, para você, diferencia um bom networking de um verdadeiro ecossistema de negócios?
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Carol Paiffer: Boa pergunta! Acho que a gente usa muito a palavra networking, mas às vezes de forma equivocada. Muitas pessoas acham que fazer networking é só fazer contatos, distribuir cartão, se vender o tempo todo. Mas quando falamos de ecossistema, estamos falando de juntar pessoas que pensam parecido, que vibram na mesma frequência, ou seja, que têm o mesmo propósito para se ajudarem a reduzir custos e serem mais produtivas.
Quando entrei no Shark Tank, entendi a importância de criar um grupo forte para que as empresas investidas também se ajudassem. Hoje, não sou só eu como mentora, são mais de 100 mentores, porque eles trocam experiências, cada um com seus desafios. Essa troca é muito rica, ajuda a errar menos, ter mais sucesso e, principalmente, reduzir custos e o CAC (custo de aquisição de clientes).
Um exemplo prático foi montar um Centro de Serviços Compartilhados (CSC), porque todo mundo precisa de marketing, financeiro, tecnologia. Se contratamos juntos, conseguimos pessoas melhores por um custo menor. Quando cada empresa tenta montar sua equipe sozinha, o custo é maior e muitas vezes se contrata estagiário para funções que exigem mais experiência.
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Além disso, no ecossistema, as empresas vendem para as mesmas pessoas, então ao invés de aumentar o CAC individualmente, unimos forças para uma gestão mais eficiente.
IM: Você mencionou o começo da sua trajetória, e eu queria resgatar isso. Você é uma pioneira num mercado ainda muito masculino. Como foram seus primeiros passos no empreendedorismo e como investidora?
CP: Eu ia fazer faculdade de moda, acredita? Quando as pessoas dizem que bolsa de valores é difícil, eu lembro que quase fui estilista! Eu não queria necessariamente ser estilista, eu queria montar a empresa. E vi que muita gente sofria para montar negócios, então escolhi administração para aprender a gerir empresas.
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No primeiro ano da faculdade, um professor do meu irmão, Joaquim, apresentou para a ele a Bolsa de Valores. E meu irmão me falou sobre isso. Confesso que, no começo, achei complicado, aqueles gráficos, o que aquilo tinha a ver comigo? Mas entendi que era sobre comprar barato e vender caro. As pessoas complicam demais algo que pode ser simples. Não estou falando que é fácil, mas não é tão complexo quanto as pessoas vendem.
Conheci o InfoMoney e as pessoas que faziam o site lá atrás, antes da compra da XP [o InfoMoney foi adquirido pela XP em 2011], e lá já estavam reunidas todas as informações que ele precisava como investidor: ações em alta e baixa, notícias, análises. Eu usava o InfoMoney para compartilhar informações com meus alunos e clientes. Isso foi fundamental para mim, porque empreendedorismo não é só criar tudo do zero, às vezes já existe algo muito bem feito que traduz o mercado de forma acessível.
IM: E como foi o crescimento da sua empresa? Quais foram as maiores dificuldades no começo?
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CM: Quando comecei, o ambiente era muito masculino, mas eu tinha 17 anos e isso ajudava, porque as pessoas pensavam: “Se essa menina está aprendendo bolsa, eu também posso”. Fiz muitos vídeos e treinamentos presenciais no início da internet, o que me ajudou a alcançar mais pessoas com uma linguagem simples. Isso foi essencial para desmistificar o mercado financeiro, que ainda carrega muitos mitos e preconceitos.
Também sofri preconceito por ser mulher e jovem, mas quando mostramos conhecimento e vontade de compartilhar, as pessoas se conectavam. Montamos nosso modelo de negócio e fomos nos reinventando conforme o mercado mudou: a corretagem caiu, as plataformas ficaram mais acessíveis, e hoje a tecnologia e a inteligência artificial ajudam a ser mais eficientes.
Minha entrada no Shark Tank foi um grande desafio, porque investir em bolsa é mais fácil do que investir em pessoas que você nunca viu, que estão com o projeto da vida delas. A responsabilidade de ajudar esses negócios a prosperar é enorme, e o suporte dentro do ecossistema é fundamental para que os empreendedores se sintam acolhidos.
IM: O que te faz aceitar investir em um negócio? O que você busca para dizer “sim” a uma empresa?
CM: Eu amo dizer que é o brilho no olhar. Claro que não é só isso, é preciso ter clareza do que está fazendo, respeitar os números — contra números não há argumentos. O propósito é fundamental, mas não pode abandonar o caixa, porque o negócio precisa se sustentar para ajudar outras pessoas.
O que realmente faz a diferença é esse brilho no olhar, a dedicação, o respeito pelas pessoas, a vontade de levar muita gente junto. Ganhar dinheiro pode ser de várias formas, mas ter clareza do porquê você faz o que faz, e como se conecta com isso, é essencial.
Tem negócios que dão dinheiro, mas não se conectam com meus valores ou com a pessoa que está à frente, e aí não rola. Não significa que a pessoa seja ruim, só que não deu conexão. Isso acontece com todo mundo, até com amigos.
Para abrir minha agenda, preciso me conectar com o propósito do empreendedor, porque vamos passar muito tempo juntos. E confesso que não invisto em gente chata — e chata para mim, não significa que ela é chata na vida. E faço isso porque não sou obrigada, sabe? Não quero abrir minha agenda para uma pessoa que eu sei que não vou poder ser transparente e não estarei empolgada em ajudar.
Acho, inclusive, que todo mundo tem que fazer esse exercício para entender se faz sentido o que você está fazendo hoje. Você gosta do ambiente onde está? Nosso maior presente é a vida, então precisamos valorizar ela todos os dias.