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Caso Americanas completa três anos à espera de punições e recuperação

Empresa tem 10% do valor de mercado que tinha antes da descoberta das fraudes

Angelo Pavini

Ativos mencionados na matéria

Lojas Americanas no bairro do Tatuapé, em São Paulo (Foto: Divulgação no Instagram/@lojasamericanastatuape)
Lojas Americanas no bairro do Tatuapé, em São Paulo (Foto: Divulgação no Instagram/@lojasamericanastatuape)

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O escândalo da Lojas Americanas (AMER3) completa três anos no próximo dia 11, ainda aguardando a punição dos responsáveis por uma das maiores fraudes contábeis do mercado brasileiro e que envolveu uma das principais e mais antigas redes de varejo do país e uma das ações mais negociados da bolsa.

Na noite de 11 de janeiro de 2023, o então presidente da companhia, Sérgio Rial, divulgou um fato relevante anunciando um rombo de R$ 20 bilhões nas contas da Americanas e deixou o cargo que assumira dez dias antes. As ações caíram 77% no dia seguinte, reduzindo o valor de mercado da empresa em mais de R$ 8 bilhões e levando a companhia a pedir recuperação judicial no dia 19 de janeiro de 2023.

DataValor de mercado (R$/milhões)
31/12/201819.215
31/12/201932.890
31/12/202042.331
31/12/202128.394
31/12/20228.709
11/01/202310.830
12/01/20232.455
31/12/2023821
31/12/20241.242
30/09/20251.027
06/01/20261.009
Fonte: Elos Ayta

Nesta semana, o Instituto Empresas, que representa investidores afetados pelos prejuízos relacionados à Americanas, cobrou da B3 a divulgação do resultado final do julgamento do processo de “enforcement” envolvendo a companhia, os membros do Conselho de Administração e do Comitê de Auditoria.

O julgamento foi concluído em 8 de novembro de 2023 e a Bolsa aplicou multas aos envolvidos por falhas na gestão da companhia, mas eles recorreram. A B3 informou que não divulgou a decisão porque os recursos “ainda estão em fase de análise”.  

Leia também: Americanas: escândalo completa 2 anos, sem solução para os minoritários

Denúncias e indiciamentos

Na Justiça, em março do ano passado, o ex-presidente da Americanas durante o período das fraudes, Miguel Gutierrez, e 12 ex-executivos e ex-funcionários foram indiciados pela Polícia Federal e denunciados pelo Ministério Público Federal, mas ainda aguardam julgamento. Também esperam julgamento os processos abertos pela Comissão de Valores Mobiliários, que criou uma força-tarefa para coordenar as várias investigações envolvendo o caso.

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No total, estão em andamento na CVM dois inquéritos administrativos de investigação, dois processos administrativos sancionadores — em que já há acusações formuladas –, e seis processos administrativos de análise de informações envolvendo as irregularidades nos balanços. Há processos que investigam desde uso de informação privilegiada na venda de ações da Americanas antes da divulgação da fraude até as responsabilidades de executivos, conselheiros e auditores nas irregularidades.

Empresa derreteu

De concreto há apenas o derretimento da companhia, cuja ação caiu de R$ 1.200,00 em 11 de janeiro, dia da divulgação da fraude e do rombo de R$ 20 bilhões, para R$ 4,88 hoje, valores já ajustados depois do grupamento de 100 para 1 dos papéis em agosto de 2024. Em 2025, a ação caiu 18,83%.

A empresa teve de republicar o balanço de 2021 e apresentou a demonstração de 2022 apenas no fim de 2023.

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O valor de mercado da Americanas foi R$ 10,8 bilhões antes da descoberta da fraude para o mínimo de R$ 307 milhões em 7 de junho de 2024 e hoje está em torno de R$ 1,0 bilhão, cerca de 10% do que era antes, segundo levantamento de Einar Rivero, sócio fundador da Elos Ayta.

Já as vendas anuais da Americanas passaram de R$ 25,8 bilhões em 2022 para R$ 14,3 bilhões em 2024. Até o terceiro trimestre de 2025, as vendas somavam R$ 8,6 bilhões e o prejuízo líquido da companhia era de R$ 227 milhões.

AnoVendas R$/milhões
202010.124
202122.696
202225.809
202314.942
202414.349
2025*8.615
Fonte: Elos Ayta. *Até o terceiro trimestre

Socorro dos sócios

Para impedir a falência da empresa, os três acionistas de referência, Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles, sócios da 3G, anunciaram um aporte de R$ 12 bilhões na companhia. Os bancos credores entraram com mais R$ 12 bilhões.

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Com o aporte em troca de novas ações, os sócios da 3G voltaram a ser os controladores oficiais da Americanas.

Acordo com credores

A crise da empresa se alastrou não só pelo mercado de ações, mas também nos de títulos de renda fixa e fundos, já que a Americanas era considerada uma empresa de bom crédito e seus papéis participavam de muitas carteiras de baixo risco de bancos e investidores.

Assim, o plano de recuperação judicial envolveu grande parte do mercado e foi homologado pelos credores em fevereiro de 2024. No plano, a empresa reconheceu dívidas de mais de R$ 50 bilhões e 9 mil credores, liderados pelos bancos Bradesco, BTG Pactual, Itaú e Santander, responsáveis por 35% do valor.

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Organização criminosa

A denúncia do Ministério Público Federal, que tramita na Justiça Federal do Rio de Janeiro, cita a existência de uma organização criminosa que seria comandada pelo antigo presidente da companhia, Miguel Gutierrez. Segundo o MPF, Gutierres, que trabalhou 30 anos no grupo, 20 dos quais no comando da empresa, seria responsável por um esquema de manobras contábeis para inflar artificialmente os lucros do Grupo Americanas, das Lojas Americanas e de seu braço digital B2W e manipular os preços das ações no mercado.

Mensagens de Whatsapp obtidas pela Polícia Federal mostram executivos discutindo como impedir que as fraudes fossem descobertas pelos auditores da companhia. As informações foram reforçadas pelas delações premiadas de quatro dos executivos envolvidos.

Esquema desde 2016

Segundo investigação da Polícia Federal, o esquema funcionou pelo menos desde fevereiro de 2016 até dezembro de 2022, quando Gutierrez deixou o comando da companhia. Ao assumir o comando da empresa nos primeiros dias de janeiro de 2023, o ex-presidente do Santander Brasil Sergio Rial descobriu o rombo e fez a denúncia, deixando o cargo em seguida.

Gutierrez, que tem cidadania espanhola, foi para a Espanha após a descoberta das fraudes e chegou a ser preso lá, mas foi solto após prestar depoimento, entregar seu passaporte e cumprir medidas cautelares.

Expectativa sobre a recuperação judicial

A Americanas continua em recuperação judicial. No começo do ano passado, a então diretora financeira da varejista Camille Loyo Faria afirmou que a empresa tinha a expectativa de sair da recuperação no fim de fevereiro deste ano. Camille foi substituída em dezembro por Sebastien Durchon, ex-presidente da rede Dia, dentro da reestruturação promovida pelo novo presidente da companhia, Fernando Dias Soares.

Soares assumiu o cargo em outubro do ano passado, no lugar de Leonardo Coelho, marcando uma nova fase de recuperação da empresa após a renegociação das dívidas.    

Leia mais: Americanas (AMER3) elege Sebastien Durchon, ex-CEO do Dia, como novo CFO