Super El Niño põe Rio em alerta: calor extremo faz prefeitura antecipar plano de ação

Temperaturas acima da média podem ser registradas ainda no fim do inverno, e os efeitos do fenômeno devem se intensificar na primavera e no verão, com medidas preventivas já em andamento na cidade

Agência O Globo

Rio de Janeiro (RJ), 26/12/2025 – Pessoas se protegem do sol no centro da cidade em dia de calor no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 26/12/2025 – Pessoas se protegem do sol no centro da cidade em dia de calor no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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A estação do ano ainda é o inverno. Mas a Prefeitura do Rio anunciou nesta segunda-feira que está antecipando seus protocolos — como os já existentes para calor e chuva, normalmente acionados no verão — devido ao Super El Niño. O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento atípico das águas do Oceano Pacífico, deve ser mais intenso neste ano e agravar as altas temperaturas, assim como as tempestades na cidade, já a partir desta estação. Equipes de mais de 50 órgãos estão mobilizadas para atuar em caso de situações extremas.

— No fundo, estamos antecipando a preparação que a cidade já faz todos os anos para lidar com o verão. Parte dos efeitos desse Super El Niño, para a realidade da nossa cidade, é como se houvesse uma antecipação dos efeitos do verão — explicou o prefeito Eduardo Cavaliere, em coletiva realizada no Centro de Operações e Resiliência (COR), na Cidade Nova. — As águas de março, neste momento, podem estar chegando antes do verão.

No Rio, os efeitos previstos podem ser sentidos já no fim deste inverno — estação que termina em setembro —, com temperaturas acima da média, situação que se estenderá pela primavera e pelo verão. Juliana Hermsdorff, meteorologista do Sistema Alerta Rio, do município, afirmou que a probabilidade de o El Niño ser “muito forte, principalmente no fim da primavera e no início do verão”, é de 81%. Isso ocorreria entre outubro e dezembro deste ano.

— É normal já termos, na primavera e no verão, temperaturas mais elevadas. Temos grandes áreas urbanizadas que aumentam a temperatura, formando ilhas de calor. Então, os impactos do El Niño vão reforçar principalmente essa questão da temperatura, um combustível para a formação de chuvas intensas aqui na cidade do Rio — explicou a meteorologista, que citou os maciços e a topografia do Rio como outras influências na formação das chuvas.

‘Alerta máximo’

Em maio, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) divulgou a previsão de que o fenômeno tinha 82% de chance de se formar até este mês de julho. Isso acabou sendo confirmado no mês passado pela agência.

— A prefeitura está antecipando suas ações, que normalmente a gente executaria lá em novembro. A partir deste momento, estamos colocando em alerta máximo todas as secretarias e órgãos que trabalham com prevenção e resposta na cidade do Rio de Janeiro justamente por conta do El Niño. E vamos fazer esse acompanhamento junto ao Centro de Operações e Resiliência, o COR — resumiu Rodrigo Gonçalves, subsecretário de Defesa Civil da cidade.

Ele reforçou a importância de a população acompanhar os acontecimentos na cidade, assim como os estágios operacionais. Atualmente, há cinco níveis: o primeiro, sem mudança significativa na rotina; o segundo, com risco de acontecimentos; o terceiro, com ocorrências já em andamento; o quarto, quando várias ocorrências afetam a mobilidade, com orientação para que as pessoas não se desloquem; e o quinto, com ocorrências de alto risco, sem previsão de retorno à normalidade e com necessidade de apoio à prefeitura. O último deles nunca foi atingido.

Gonçalves mencionou que, atualmente, há mais de 50 protocolos instituídos — que envolvem não só órgãos municipais, mas também Estado e União — por conta de efeitos climáticos. Um exemplo “emblemático”, segundo o subsecretário, é o protocolo de ressaca, em parceria com a Marinha do Brasil. Alertas de maré alta são levados em consideração, por exemplo, para interditar a ciclovia Tim Maia, na Avenida Niemeyer: a medida foi adotada após o desabamento de um trecho da estrutura em 2016. Duas pessoas morreram na ocasião.

Na coletiva, da qual participaram representantes de 11 órgãos do município — como os secretários de Infraestrutura, Wanderson dos Santos; Conservação, Diego Vaz; Saúde, Rodrigo Prado; e Ambiente e Clima, Lívia Galdino —, a prefeitura detalhou ações em andamento na cidade. Além dos protocolos, apresentou obras em curso para combater alagamentos e ampliar a área de vegetação.

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Obras contra chuvas e novos parques

Cavaliere reforçou que o município faz investimentos contínuos em resiliência, infraestrutura e prevenção aos fenômenos climáticos que atingem a cidade. Entre as intervenções em andamento, o município citou obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Wanderson Santos, à frente da pasta de Infraestrutura, afirmou que a obra do PAC em Realengo estava prevista inicialmente para ser concluída no primeiro semestre do ano que vem, mas terá a primeira fase pronta ainda neste ano. O adiantamento do cronograma está previsto no Acordo de Resultados deste ano, segundo o secretário.

— Não estaremos com todas essas obras finalizadas até a chegada do Super El Niño, mas estaremos nos locais. Teremos uma mobilização para poder atender e mitigar os eventuais danos dessas chuvas intensas — explicou Wanderson.

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Principais frentes de obra

— Boa parte dessas áreas mais sensíveis ainda estará sujeita a eventos extremos e riscos no próximo verão — reconheceu Cavaliere, que reforçou que a “estratégia de prevenção” é essencial para salvar vidas. — As obras de infraestrutura reduzem os efeitos desses eventos climáticos extremos, minimizam impactos, mas não significam que a cidade vá deixar de viver momentos extremos de chuva.

Outras estruturas da cidade consideradas fundamentais em dias de clima extremo são os parques urbanos, apontados como espaços que ampliam a área de vegetação. Esses locais também oferecem conforto térmico em dias de calor.

Além dos parques já implantados — Madureira (Monarco), Realengo (Susana Naspolini), Pavuna, Rita Lee (no Parque Olímpico, na Barra da Tijuca), Oeste (em Inhoaíba), Piedade (Arlindo Cruz) e Deodoro —, a prefeitura citou a criação de novos parques na cidade. Atualmente, estão em andamento obras de ampliação dos parques Oeste e Realengo, assim como a construção dos parques Terra Prometida, em Santa Cruz, e Linear da Maré, no conjunto de favelas da Zona Norte.

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Os futuros parques

Mega ralos

Entre as medidas adotadas pela prefeitura, foram citados ainda os “mega ralos”, capazes de escoar grandes volumes de água. Pelo menos 70 unidades já foram instaladas ao longo da Avenida Brasil, via da cidade onde os alagamentos são frequentes. Ao percorrer o local, a equipe do GLOBO flagrou equipamentos já quebrados e cheios de lixo na altura de Manguinhos.

Diego Vaz, titular da Secretaria de Conservação, explicou que a medida foi uma solução encontrada para regiões onde não estão previstas “obras de grande porte”. Entre as ações do município voltadas aos ralos, há ainda uma operação de desobstrução: 1,7 quilômetro da rede de drenagem já foi desobstruído neste ano, com 129 toneladas de lixo removidas.

Já a “Operação Moto Ralo” conta com 10 motocicletas. Na prática, além da ação preventiva, a iniciativa busca chegar mais rápido do que os caminhões aos pontos de alagamento da cidade. Por outro lado, as ações de desassoreamento dos rios removeram 257 mil toneladas de resíduos só neste ano. Mais de 70 quilômetros de rios e canais foram atendidos.

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Outro protocolo citado durante o anúncio do município foi o de calor, adotado na cidade após a morte de uma fã durante show da cantora Taylor Swift, em novembro de 2023. A medida foi implementada no ano seguinte e conta com cinco níveis. São levados em conta a temperatura e a umidade para definir o índice de calor.

A partir do nível 4, acionado quando os termômetros registram índices de calor acima de 40ºC por ao menos três dias consecutivos, começam a ser adotadas medidas que impactam a vida da população. Nesse momento, são abertos pontos de resfriamento — como clínicas da família, Naves do Conhecimento e parques urbanos —, e as aulas de educação física são transferidas para espaços cobertos. Também fica determinada, nesse caso, a pausa para hidratação de quem trabalha exposto ao sol.

Entre os possíveis efeitos também está a suspensão de eventos. Para que isso não aconteça, os organizadores precisam adotar medidas, como o fornecimento gratuito de água.

— Lembrando que 40% do nosso território sofre alto impacto do calor. E esse impacto vai gerar mais problemas para as crianças, os idosos e as pessoas em situação de rua — ressaltou Rodrigo Prado, secretário municipal de Saúde.

A Prefeitura do Rio informou que, desde 2023, implantou mais de 280 ralos e mega ralos nas zonas Norte, Oeste e Sudoeste da cidade, incluindo 156 estruturas ao longo da Avenida Brasil, das quais 70 são mega ralos. Segundo a Fundação Rio-Águas, os equipamentos foram instalados em pontos identificados pelo Centro de Operações como críticos para o escoamento da água, e os mega ralos têm maior capacidade de drenagem por serem ligados diretamente à rede pluvial. Entre os bairros beneficiados estão Bonsucesso, Guaratiba, Jacarepaguá, Maria da Graça, Madureira, Manguinhos, Parada de Lucas, Ramos, Tomás Coelho e Vicente de Carvalho. A prefeitura acrescentou que enviará uma equipe para vistoriar o mega ralo de Manguinhos e avaliar a necessidade de reparos.

Arborização

A Secretaria Municipal de Ambiente e Clima contabiliza que, neste ano, já foram realizados 112,4 mil plantios de árvores na cidade, número que chega a 417,5 mil se considerado o período desde janeiro de 2023.

Lívia Galdino, titular da pasta, explica que há um Plano de Desenvolvimento Sustentável (PDS), de 2021, que prevê a priorização das Áreas de Planejamento 3 — boa parte da Zona Norte, como Méier, Madureira e Irajá — e 5 — Zona Oeste — para a realização dos plantios. Atualmente, no entanto, ainda persiste a sensação de falta de árvores em dias muito quentes.

Um exemplo é o entorno do Estádio Nilton Santos (Engenhão), no Engenho de Dentro, onde o piso claro reflete a luz do sol e piora a sensação térmica. Além dos torcedores do Botafogo, o entorno da arena é frequentado por pessoas que praticam esporte, crianças que andam de bicicleta e brincam em pula-pula, além de famílias que consomem em food trucks instalados nas redondezas do estádio. Ainda na Zona Norte, a falta de árvores também é sentida em vias de São Cristóvão, como a Rua Conde de Leopoldina.

O que é o El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o que altera padrões de vento, chuva e temperatura em várias regiões do planeta.

Super El Niño vem aí?

A confirmação do El Niño pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), no mês passado, encerrou meses de expectativa entre meteorologistas e abriu uma nova fase de monitoramento sobre os possíveis impactos do fenômeno no Brasil. A agência norte-americana informou que as condições já estão estabelecidas no Oceano Pacífico Equatorial e apontou 63% de probabilidade de que o evento alcance intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Ou seja, a discussão agora não é mais se o fenômeno vai acontecer, mas qual será sua intensidade no planeta.

O rápido aquecimento observado no Pacífico nos últimos meses é um dos fatores que chamam a atenção dos centros meteorológicos internacionais. Modelos climáticos indicam que o fenômeno deve ganhar força durante este segundo semestre.

— A diferença prática é que um evento forte consegue se sobrepor a outros fatores climáticos e impor padrões de seca e chuva muito mais severos e previsíveis. Os modelos atuais mostram um aquecimento oceânico acelerado e consistente desde maio, indicando que o fenômeno deve assumir protagonismo no clima do segundo semestre de 2026 — explicou ao GLOBO João Hackerott, CEO da Tempo OK, em entrevista no mês passado.